«Remate final»?

Não era preciso

      «Mas o remate final é forte: “Estas sardinhas atingirão a maturidade gustativa daqui a três ou quatro anos.” Estamos a comer as nossas sardinhas cedo de mais, como sempre» («As sardinhas de 2016», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.10.2011, p. 39).
      Já uma vez escrevi no Assim Mesmo que é cada vez «mais vulgar ouvir-se, na rádio e na televisão — na imprensa escrita ainda não vi —, “desfecho final”. Como se houvesse um “desfecho inicial”, um “desfecho médio” e um “desfecho final”. Um conselho: de vez em quando, experimentem consultar um dicionário». O «remate final», por ser sinónimo, é do mesmo jaez.
[Texto 591]

Analfabetismo diplomado

Agora processe-me

      «Os nossos professores comunicam regularmente com os encarregados de educação. Por favor se alguma situação lhe parecer estranha, ou se tiver alguma dúvida não exite em falar directamente com a professora no momento», escreveu a directora pedagógica. Alguns professores escrevem assim. Ou serão apenas alguns directores pedagógicos? A tróica não tem nenhuma solução para esta calamidade? Podemos reiniciar o sistema?
[Texto 590]

«Relator/narrador de futebol»

Sinais

      «O futebol é um terreno propício à metáfora e ao trocadilho, mas nem sempre as flores de estilo dão golo de letra», lembrou hoje Fernando Alves na sua crónica na TSF. «Não se pede aos narradores de futebol que leiam Samir Amin ou Lévi-Strauss, mas se há lugar onde a percepção do Outro deverá ser evidente, esse lugar é o futebol.»
      É impressão minha ou entre nós usa-se (sempre?) relator de futebol — e no Brasil, sim, narrador de futebol?
[Texto 589]

Jornais

Como por lapso

      A secção «O Público errou» está a descer (ou a subir, conforme a perspectiva) a minudências promissoras (ou aterradoras, é conforme, etc.): «O título do artigo de William Hague publicado na edição de ontem é Oportunidade e risco do ciberespaço e não “de ciberespaço”, como por lapso se escreveu. As nossas desculpas.»
[Texto 588]

Linguagem

É conforme

      «[Jarvis Cocker] Disse que os jovens de hoje ouvem falar de músicas no Facebook e escolhem-nas conforme, ideais para banda sonora de outras coisas que estão a fazer e a escrever ao mesmo tempo. A música pop, que era central, como poesia, vingança e ideologia, tornou-se numa vela perfumada, limitada a acompanhar outras actividades» («O bom do Jarvis», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.10.2011, p. 39).
      «Escolhem-nas conforme»? É mais conformes com eles, jovens...

[Texto 587]

Formas de tratamento

El-rei, meu senhor e pai

      De verdade histórica, mais do que de verosimilhança, se trata. Dirigir-se-ia, em público, o infante D. Henrique a seu pai por «meu pai»? Não seria antes «meu Senhor», pois que a soberania do monarca a tudo e todos se estende?

[Texto 586]

Léxico: «quatrínqua»

Alguém o tem visto?

      «E com isto amaino, beijando essas poderosas mãos uma quatrínqua de vezes, cuja vida e reverendíssima pessoa nosso Senhor, etc.», despede-se Camões numa das cartas. Onde pára (ou «onde para», na nova ortografia) o vocábulo «quatrínqua»? Desapareceu na voragem do tempo. Será castelhanismo? Digo-o, embora, naturalmente, pareça mais directamente provir do latim, porque os dicionários actuais ainda registam quatrinca, do castelhano cuatrinca, quatro cartas do mesmo valor, no jogo.
[Texto 585]

Tradução: «filo de las hojas»

Dúvida cortante

      Os livros eram já muito manuseados, tanto «que el filo de las hojas se había granulado». Como traduzir aquele filo de las hojas? Será «rebordo das folhas»? «Extremidade»?

[Texto 584]

Arquivo do blogue