«Primavera Árabe»

Não é só a mesma estação

      «Tem seguido as Primaveras Árabes. Que impressão tem sobre esse processo?», perguntam, no Público de hoje, Isabel Coutinho e Miguel Gaspar a Ricardo Pereira, director da TV Globo Portugal.
      Já mais de uma vez pensei — perante a diversidade do que leio, mas não só — qual a melhor forma de grafar a expressão. Ocorre-me outra semelhante, a que dá nome à época de descompressão no final do Estado Novo. Assim, vê-se: «primavera marcelista»; primavera marcelista (usada por Cunhal, que acrescentou: «expressão deliciosa»); Primavera marcelista; «Primavera marcelista»; «Primavera Marcelista»; primavera Marcelista... Tanto num caso como no outro, a que me parece que se deve adoptar é com maiúsculas iniciais, sem aspas: Primavera Árabe, Primavera Marcelista.

[Texto 583]

Como se escreve nos jornais

É que são sempre os mesmos

      «Depois de uma eleição ou de uma remodelação, muitas vezes até ganha. Serve para tapar um “buraco”, para afastar um apoiante incómodo, para resolver com mansidão e “neutralidade” uma querela entre dois “caciques”. A televisão e os jornais declaram o “independente” uma “cara fresca” e ele entra esfusiante pelo Estado dentro na completa ignorância do que sejam a administração e a sociedade portuguesa. Para naturalmente fugir dali a uns meses como um sendeiro triste, à procura de um novo dono» («O “independente”», Vasco Pulido Valente, Público, 16.10.2011, p. 56).
      O Público trata todos os textos — seja uma local ou uma crónica — da mesma maneira. Mal. Nem são apenas questões de ortografia (é «esfuziante», com z), mas repetições inadmissíveis num texto pequeno: «O “independente” costuma esvoaçar à volta à volta dos grandes grupos de interesses, dos lobbies universitários, do PSD e do PS.»
[Texto 582]

Como se fala na rádio

Muito me contas

      No Hotel Babilónia, João Gobern, que, ao que confessou, acordara com sangue quente e resposta pronta, inventou hoje uma nova forma de nos referirmos aos que estão informados: «documentados». Já estávamos familiarizados com os imigrantes indocumentados, agora temos as «pessoas documentadas», não como antónimo, mas antes como nova categoria.

[Texto 581]

Linguagem

Chegou à casa de banho

      «Ir à casa de banho pode tornar-se uma experiência de outro mundo para os ricos deste mundo. O Numi, nova sanita lançada pela empresa norte-americana Kohl, vem equipado com um telecomando de ecrã táctil, “parecido com um iPod”, escreve Sam Grobart no New York Times. “Também lava e seca o utilizador [com água e jacto de ar quentes, configuráveis conforme o sexo]”, acrescenta. O autor teve o privilégio de ter um em casa durante um mês para “tentar perceber por que é que alguém gastaria 6400 dólares (cerca de 4600 euros) numa sanita high tech, ou seja, “81 vezes mais cara do que um trono de base”» («Sanita para rabos de luxo», Ana Gerschenfeld, «P2»/Público, 15.10.2011, p. 3).
      Talvez só o Aulete registe o vocábulo «trono» como sinónimo jocoso e popular de vaso sanitário — mais do que propriamente de sanita. A empresa norte-americana não se chama Kohl, como o antigo chanceler alemão, mas Kohler. Ah, e porque há-de ser «o Numi» e não «a Numi»?

[Texto 580]

Uso das aspas

Não valia a pena

      «Desavenças relacionadas com um divórcio levaram dois homens a envolver-se numa luta corpo a corpo. Um deles, que está separado da mulher que agora vive com o outro, serviu-se de um chicote de couro e “alma de alumínio” de 60 centímetros. Mas foi ele quem apanhou mais. O segundo conseguiu tirar-lhe o objecto e acabou por lhe dar uma sova» («Um chicote de couro é uma arma cuja posse é proibida ou é um objecto decorativo?», José António Cerejo, Público, 14.10.2011, p. 14).
      É mais uma catacrese — e as aspas mostram o receio do jornalista (e dos juízes?) de que se confunda o interior do chicote com a parte imaterial do ser humano.
      Quanto à substância da questão jurídica: podeis chicotear quem vos aprouver (há sempre quem mereça), porque, segundo os desembargadores, se trata de um «objecto cujo “uso foi desviado” da sua finalidade originária de “fustigar cavalos”». Pelo menos do crime de detenção de arma proibida ficam absolvidos. Quanto ao resto, logo se verá.
[Texto 579]

Como se escreve nas revistas

Ai, Jasus!

      Montexto, veja esta: na página 3 da edição desta semana da revista Sábado, ficamos a saber por uma legenda que Marta Ortega, filha do dono da Zara, vai casar-se — «com um cavaleiro hípico»! Com os ricos é tudo assim, redundante, excessivo, perdulário.

[Texto 578]

Métrica

Actualização ortográfica

      Na edição da poesia dos clássicos, há ou pode haver actualizações ortográficas desde que a métrica não saia prejudicada. Por exemplo, a célebre canção camoniana «Junto de um seco, fero e estéril monte». Ou será «Junto de hum seco» ou «Junto dum seco»? Estou a pensar em voz alta... (E, embora sem consequência para a métrica, o aborrecido — «Da Natureza em tudo aborrecido» — não seria, e já aqui falámos de tais alterações ortográficas — aborrescido»? Que acha, Fernando?)

[Texto 577]

«Falir»

Falências linguísticas

      «Mas enquanto o antigo secretário de Estado das Obras Públicas, o inimitável Paulo Campos, o homem do Aeroporto de Beja, se passeia por aí com a sua conhecida displicência, seria bom que tudo isto fosse muito bem escrutinado e investigado, desde logo na sede própria que é o Parlamento, visto que não é porque o homem saiu do governo que não tem de prestar contas sobre a forma como negociou a revisão das concessões de auto-estrada. Esta gente inconcebível andou a brincar com o nosso dinheiro. E assim se faliu um país» («A factura», Pedro Lomba, Público, 13.10.2011, p. 32).
      «E assim se faliu um país»? Não há melhores formas de dizer o mesmo? Se não nos falir a vontade, sim: «E assim se levou um país à falência.»

[Texto 576]

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