Linguagem

Não me parece, respondo

      «A insatisfação dos mirandeses resulta da actual designação de diocese de Bragança-Miranda (com a supressão do “e”), datada de Setembro 1996, já que até então se chamava de Bragança e Miranda.
      A supressão do “e” não agradou ao povo mirandês, tendo-se verificado várias manifestações de desagrado, pois os mirandeses lembram que o berço da diocese é Miranda do Douro» («Bispo deu parte da missa em mirandês», Diário de Notícias, 10.10.2011, p. 11).
      Não percebo: uma conjunção vale mais do que um hífen? E é uma atitude cristã e adulta?

[Texto 567]

Léxico: «concatedral»

Nova

      «O novo bispo da diocese de Bragança-Miranda apresentou-se ontem na concatedral de Miranda do Douro, com parte da homília a ser proferida em língua mirandesa, acto aplaudido pelos presentes na cerimónia religiosa» («Bispo deu parte da missa em mirandês», Diário de Notícias, 10.10.2011, p. 11).
      Ora cá está um vocábulo que eu não conhecia ou — o que será mais invulgar — de que me tinha esquecido entretanto. O significado é óbvio.
[Texto 566]

Léxico: «malão»

Não me diga

      «A minha mãe olhava para o tecto, coçava as costas, abria o malão — enquanto eu pedia a todos os anjos e arcanjos que o malão não se esvaziasse ali, para não passarmos a vergonha de andarmos de gatas num teatro tão fino e tão cheio de veludos como aquele, no cinema do centro comercial ainda vá que não vá» (Caderno de Agosto, Alice Vieira. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2006, p. 184).
      Estranheza minha e do leitor que me contactou: nenhum dicionário regista o termo «malão». E eu ia jurar que sim. E faltarão, acaso, aumentativos nos dicionários? Com este não engraçaram. Segundo certas inteligências nacionais, especialistas disto e daquilo (mais daquilo, na verdade), se não está no dicionário, é de evitar...
[Texto 565]

Prefixo «anti»

O elemento da direita

      No fim de Setembro passado, uma consulente, Elisabete Cataluna, perguntou ao Ciberdúvidas: «À luz do novo acordo ortográfico, o prefixo anti une-se sempre à palavra que antecede, excepto se esta iniciar com h ou com a mesma letra com que acaba o prefixo. Contudo, segundo averiguei, a palavra anti-stress continua a escrever-se com hífen. Porquê? Compreendo que seria impensável, em português, aceitar “antisstress”, mas creio que poderia ser aceitável aceitável “antistress”.» Respondeu Sandra Duarte Tavares: «Segundo o novo Acordo Ortográfico, usa-se sempre hífen quando o elemento da direita é um estrangeirismo, pelo que anti-stress deve ser grafado com hífen.»
      Dito assim, tão peremptoriamente, até parece que o texto do Acordo Ortográfico de 1990 consigna esta regra ­— mas já aqui desafiei a jornalista Ana Sofia Rodrigues a dizer onde encontrou essa regra, mas não me respondeu. (Querem prescindir do hífen? Escrevam, se tiverem coragem, «antistresse».)

[Texto 564]

Jornais

Eventualmente

      «Vários leitores», escreve o provedor do leitor do Público na edição de hoje, «têm chamado a atenção para a frequência com que deparam com erros de tradução nas páginas do jornal. Têm razão em fazê-lo: esses erros — que por vezes chegam a ser anedóticos — podem distorcer informações ou, no mínimo, torná-las confusas. Em alguns casos, resultam da “tradução” literal de termos estrangeiros, sem atenção às expressões idiomáticas próprias da língua de origem ou à sintaxe da língua portuguesa, como parece ter acontecido no caso recente, assinalado pela leitora Eunice Silva, do texto intitulado “Bactéria irmã da tuberculose pode ajudar a combater doença” (edição on line, 6/9).
      A peça noticiava os resultados de uma investigação publicada numa revista científica de língua inglesa e é de presumir que tenham sido traduzidas do artigo original frases como esta: “Há estirpes muito resistentes que a medicina actual tem menos e menos ferramentas para lutar contra”. A leitora argumenta que “esta frase não faz sentido em português, além de se notar que é uma tradução (uma má tradução, diga-se)”. Admite que a expressão “menos e menos” (em vez do português “cada vez menos”) tenha resultado do “less and less” inglês, e critica sobretudo a estrutura sintáctica da frase”, pois em bom português ter-se-ia escrito “há estirpes muito resistentes contra as quais a medicina actual tem cada vez menos ferramentas”. Eunice Silva refere ainda a existência, na mesma peça, de uma provável distorção do sentido do texto original, resultante do erro infelizmente comum de “traduzir” o vocábulo inglês “eventually” por “eventualmente”» («Traduções mal feitas e outros equívocos», p. 55).

[Texto 563]

«Info-excluído/infoexcluído»

Com ou sem

      «Eu ia dizer uma tolice, que era, se eu mandasse, as escolas abriam hoje a ouvir o discurso de Steve Jobs, em 2005, na Universidade de Stanford. É para ver como sou velhadas e tenho de pensar duas vezes para me dar conta que, ontem, os jovens foram ao YouTube ouvir esse discurso inspirador. Sendo que é melhor ter Jobs em pessoa, no meu ecrã, em vez de aula obrigatória. Eu, infoexcluído militante (desligar e voltar a ligar é o mais longe que vou na resolução dos problemas de computador), descubro na vida e obra de Steve Jobs o sentimento raro que já encontrei ouvindo – eu, ateu – uma missa de rito caldeu na Basílica de São Pedro» («O homem que cuidou dos pormenores», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.10.2011, p. 56).
      Nos dicionários da Porto Editora, a grafia registada é com hífen: info-exclusão. Neves Henriques chegou a sugerir que se preferisse inforexclusão para evitar o hiato.

[Texto 562]

Léxico: «cubre»

Ilha das Flores

      «Metrosídero», enfim, não me surpreende que não tenha sido até hoje acolhido pelos dicionários gerais da língua portuguesa — mas «cubre»? Meu Deus, até dá nome à fajã da Ribeira Seca. Fajã dos Cubres. O certo é que há termos bem mais exóticos, invulgares e usados com menos frequência nos dicionários.

[Texto 561]

«Não se o»

Olha, olha

      «La única excepción a este castigo por encubrimiento [...] en tal caso, si para acreditar la exceptio veritatis debe aportar documentos obtenidos mediante violación del secreto de la investigación, no se le persigue como encubridor». E os tradutores? «Não se o perseguirá pelo favorecimento pessoal». Onde é que eu já vi isto?

[Texto 560]

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