Jornais

Eventualmente

      «Vários leitores», escreve o provedor do leitor do Público na edição de hoje, «têm chamado a atenção para a frequência com que deparam com erros de tradução nas páginas do jornal. Têm razão em fazê-lo: esses erros — que por vezes chegam a ser anedóticos — podem distorcer informações ou, no mínimo, torná-las confusas. Em alguns casos, resultam da “tradução” literal de termos estrangeiros, sem atenção às expressões idiomáticas próprias da língua de origem ou à sintaxe da língua portuguesa, como parece ter acontecido no caso recente, assinalado pela leitora Eunice Silva, do texto intitulado “Bactéria irmã da tuberculose pode ajudar a combater doença” (edição on line, 6/9).
      A peça noticiava os resultados de uma investigação publicada numa revista científica de língua inglesa e é de presumir que tenham sido traduzidas do artigo original frases como esta: “Há estirpes muito resistentes que a medicina actual tem menos e menos ferramentas para lutar contra”. A leitora argumenta que “esta frase não faz sentido em português, além de se notar que é uma tradução (uma má tradução, diga-se)”. Admite que a expressão “menos e menos” (em vez do português “cada vez menos”) tenha resultado do “less and less” inglês, e critica sobretudo a estrutura sintáctica da frase”, pois em bom português ter-se-ia escrito “há estirpes muito resistentes contra as quais a medicina actual tem cada vez menos ferramentas”. Eunice Silva refere ainda a existência, na mesma peça, de uma provável distorção do sentido do texto original, resultante do erro infelizmente comum de “traduzir” o vocábulo inglês “eventually” por “eventualmente”» («Traduções mal feitas e outros equívocos», p. 55).

[Texto 563]

«Info-excluído/infoexcluído»

Com ou sem

      «Eu ia dizer uma tolice, que era, se eu mandasse, as escolas abriam hoje a ouvir o discurso de Steve Jobs, em 2005, na Universidade de Stanford. É para ver como sou velhadas e tenho de pensar duas vezes para me dar conta que, ontem, os jovens foram ao YouTube ouvir esse discurso inspirador. Sendo que é melhor ter Jobs em pessoa, no meu ecrã, em vez de aula obrigatória. Eu, infoexcluído militante (desligar e voltar a ligar é o mais longe que vou na resolução dos problemas de computador), descubro na vida e obra de Steve Jobs o sentimento raro que já encontrei ouvindo – eu, ateu – uma missa de rito caldeu na Basílica de São Pedro» («O homem que cuidou dos pormenores», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.10.2011, p. 56).
      Nos dicionários da Porto Editora, a grafia registada é com hífen: info-exclusão. Neves Henriques chegou a sugerir que se preferisse inforexclusão para evitar o hiato.

[Texto 562]

Léxico: «cubre»

Ilha das Flores

      «Metrosídero», enfim, não me surpreende que não tenha sido até hoje acolhido pelos dicionários gerais da língua portuguesa — mas «cubre»? Meu Deus, até dá nome à fajã da Ribeira Seca. Fajã dos Cubres. O certo é que há termos bem mais exóticos, invulgares e usados com menos frequência nos dicionários.

[Texto 561]

«Não se o»

Olha, olha

      «La única excepción a este castigo por encubrimiento [...] en tal caso, si para acreditar la exceptio veritatis debe aportar documentos obtenidos mediante violación del secreto de la investigación, no se le persigue como encubridor». E os tradutores? «Não se o perseguirá pelo favorecimento pessoal». Onde é que eu já vi isto?

[Texto 560]

«Tranquilizador»/«tranquilizante»

Mas cada um

      «O primeiro-ministro, um ou outro ministro e vários comentadores voltaram a manifestar preocupação de que a crise pudesse degenerar em violência como na Grécia. Não há segurança nenhuma de que não degenere, mas talvez seja tranquilizante pensar que a Grécia é um país novo (até ao princípio do século XIX fazia parte do império turco), que recentemente sofreu uma invasão alemã (o que não o tornou muito germanófilo) e passou depois por uma resistência generalizada ao nazismo, por uma guerra civil e por uma ditadura militar» («Violência?», Vasco Pulido Valente, Público, 8.10.2011, p. 36).
      Há outros pares de adjectivos («contagioso»/«contagiante», v. g.) à primeira vista intermutáveis, mas depois verifica-se que cada um tem um uso mais específico. No caso, eu usaria «tranquilizador» e não «tranquilizante» (que, como substantivo, também é o medicamento de acção neurossedativa usado nas situações de ansiedade e de emotividade).
[Texto 559]

Garrett

Digam-lhe, que ela é nova

      «No Cartaxo, [o Presidente da República] citou uma conversa de Almeida Garrett com o dono do café da terra para deixar um aviso.» E a repórter da RTP, Daniela Santiago, quis que o nome do escritor rimasse com café: Garré. Este bem dizia que escrevia com dois tt para pelo menos lhe lerem um, mas a ironia não chegou a todos os ouvidos modernos.

[Texto 558]

Tradução

Omissões e comissões

      Ne sutor ultra crepidam, claro, bem sei — mas o original não está igualmente mal escrito? Um exemplo: «la comisión de una conducta punible, etc.». «Comissão de uma conduta»? Não deveria antes ser «comisión de un hecho punible»? É que, assim, nem tradutores bons fazem obra razoável, quanto mais maus tradutores. E agora, corrijo o original (oh sacrilégio!) ou vou à praia?
[Texto 557]

Tradução: «gnocca»

Por aí

      «Povo da Liberdade, o nome do partido de Silvio Berlusconi, já não satisfaz. “Vamos mudar o nome, as pessoas não gostam. Aceitamos sugestões”, disse o primeiro-ministro de Itália. Depois acrescentou: “Dizem-me que teríamos sucesso com ‘Forza Gnocca’”, termo coloquial que pode ser traduzido como “Força, boas”» («Mais uma piada sexista de Silvio Berlusconi», Público, 7.10.2011, p. 38).
      Estes apontamentos linguísticos têm sempre a sua utilidade. «Boas» parece-me fraco. Gnocca é uma «bella ragazza, sensuale e procace». E também é — preparem-se! — «cona». (Aos 110 leitores em simultâneo das 23h24 de ontem já lhes cheirava...)
[Texto 556]

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