Sobre «abater»

Entre mortos e abatidos

      «Um português de 46 anos, a sua mulher e o filho adolescente foram abatidos a tiro na casa onde viviam, a sul de Joanesburgo, África do Sul. De acordo com a polícia sul-africana, o principal suspeito é o filho da empregada doméstica da família, detido poucas horas depois» («Família portuguesa abatida a tiro na África do Sul», Público, 4.10.2011, p. 8).
      Se fosse jornalista, não sei se alguma vez usaria o verbo «abater» como sinónimo de «matar, assassinar» — mas, se usasse, não abusaria, como se vê na imprensa portuguesa.

[Texto 547]

«Imunológico/imunitário»

Ninguém está imune

      Não foi o caso da imprensa portuguesa, mas no Brasil, o que boa parte dos leitores puderam ler foi que Bruce Beutler, Jules Hoffmann e Ralph Steinman foram ontem distinguidos em Estocolmo com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina 2011 por terem permitido perceber como o sistema imunológico é activado quando surge uma ameaça patogénica. Ora, «imunológico» está relacionado com a ciência da imunologia, ao passo que para o que se relaciona com a imunidade se usa o adjectivo «imunitário». Na Antena 1 também disseram — mas esse foi mero lapso — «sistema humanitário».

[Texto 546]

Evacuar prédio/retirar pessoas

Não está tudo perdido

      «Um incêndio que deflagrou ontem à tarde num apartamento da Avenida do Uruguai, em Benfica, Lisboa, obrigou a evacuar o edifício. “Tivemos de retirar três pessoas do primeiro andar, onde ocorreu o fogo, e outras sete dos andares superiores, mas ninguém ficou ferido”, informaram os bombeiros» («Fogo obrigou a evacuar prédio em Benfica», Público, 3.10.2011, p. 19).
      Aqui está muito bem: os bombeiros evacuaram o prédio, as pessoas foram retiradas. Acontece que, ainda na semana passada, me disseram para «esquecer esse preciosismo».

[Texto 545]

«Jeremíada/jeremiada»

Eu também insisto

      A crónica de Rui Tavares na edição de hoje no Público tem como título «Uma jeremíada». No fim do texto, esclarece: «Nota: sei que a maior parte dos dicionários indica que “jeremiada” se escreve sem acento, por influência da língua francesa, mas é intencionalmente que escrevo, como digo, “jeremíada”.»
      Ainda se lembra, é claro, do comentário que fiz a outra crónica no Assim Mesmo: «Tenho um peso na consciência. Na última crónica usei a certa altura a expressão “pessimistas jeremíadas” para me referir às crónicas de Pacheco Pereira, Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares. Peço desculpa. Trata-se de uma redundância: uma jeremíada é, por natureza, pessimista. Ainda tentei corrigir enviando uma emenda de última hora para “amargas jeremíadas”. Felizmente, não fui a tempo: uma jeremíada é sempre amarga; outra redundância. Quais eram as opções corretas? Repetitivas jeremíadas. Preguiçosas jeremíadas. Em última análise, redundantes jeremíadas» («Redundâncias», Rui Tavares, Público, 19.5.2010, p. 44).
      Consultei, num assinalável excesso de zelo, doze dicionários apenas para concluir o que já sabia: só jeremiada existe. Lamente-se, pois, Rui Tavares na próxima crónica pelos erros da penúltima e da última, reflexo, decerto, de uma silabada. O vocábulo chegou-nos da língua francesa, jérémiade, que também tem, como nós, o respectivo verbo, jérémier/jeremiar. Foi forjada com base no nome do profeta Jeremias.

[Texto 544]

O Público errou

Colonia e colónia

      «Um erro na revisão final do texto “O poder de Alberto João Jardim à lupa”, publicado ontem, levou à colocação de um acento na palavra “colonia”, transformando esta em “colónia” e deturpando as duas referências feitas nesse texto ao “regime de colonia” que, segundo um dicionário, foi “um contrato entre o colono e o proprietário, na Madeira, pelo qual o colono perdia o direito às benfeitorias prediais”. As nossas desculpas aos leitores e ao advogado Cabral Fernandes» («O Público errou», Público, 3.10.2011, p. 30).
      Não corrigem as «exonerações da culpa», mas atrevem-se a pôr acento onde não devem. A ignorância dá nisto. Claro que o vocábulo não estar registado em alguns dos dicionários mais usados também contribui, e de que maneira, para estes disparates. E aquele «segundo um dicionário» também tem muito que se lhe diga. A citação é do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — e deviam tê-lo referido.

[Texto 543]

Tradução: «exoneration»

E ainda falam

      «Há quatro desfechos possíveis para o caso de Amanda Knox, uma estudante norte-americana condenada pelo assassínio da sua colega de quarto na cidade italiana de Perugia, em Novembro de 2007. Mas só um é aquele [sic] que Amanda espera ouvir hoje, quando o tribunal de recurso anunciar a sua decisão: a exoneração das queixas, que lhe permitirá sair em liberdade» («Amanda Knox sabe hoje se sai em liberdade ou fica presa», Rita Siza, Público, 3.10.2011, p. 11).
      A falta de ponderação quando se está perante um falso cognato leva a estes disparates. Rita Siza e os copidesques do Público acham que em português é assim que se diz? Então, traduzam também esta frase: «The accused was exonerated by the Grand Jury.»
[Texto 542]

«Alma mater»

De alma penada

      Se alguém apresenta certa característica peculiar, dizemos que é a sua marca de água (ou marca d’água, como decerto os Brasileiros preferirão) ou a sua marca registada? Pois é, consultem um dicionário, por exemplo, o da Porto Editora, e depois dizem-me. Ah, as expressões... No Império dos Sentidos, da Antena 2, Paulo Alves Guerra volta não volta refere-se à pessoa que criou ou dinamiza um determinado acontecimento cultural (festival de música, por exemplo), agrupamento (Shostakovich Ensemble, por exemplo), etc., como a alma mater do referido acontecimento ou agrupamento. Caro Paulo Alves Guerra, então a expressão latina não é usada hoje em dia exclusivamente para designar a universidade que nos formou? A mãe que nos alimentou ou nutriu. A expressão começou a ser usada na língua inglesa logo no início do século XVII, ao que parece. A propósito, vale a pena lembrar que alumnus (alumni) em inglês, não é aluno — mas ex-aluno. Mais um falso amigo a fazer escorregar em falsas traduções.
[Texto 541]

«Deprimido/depressivo»

Antidepressivos e ansiolíticos

      No Telejornal de hoje: «No corre-corre da incerteza, mais de 700 mil portugueses sofrem da doença. O País regista assim a maior taxa da Europa, e no mundo, só mesmo os Americanos andam mais depressivos.» São sinónimos, «deprimido» e «depressivo»? Parece que sim. Pelo menos é o que se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «indivíduo com tendência para a depressão».

[Texto 540]

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