«Flamenco/flamengo»

Depende, não é?

      «A mestiçagem cultural pode ser criativa. Tomemos um exemplo que me apraz particularmente: o flamengo. Eis uma música que expressa a alma do povo cigano, uma música simbiótica, enriquecida pelas suas influências indiana, árabe, judia, celta... fundidas num som original.»
      O leitor Rui Almeida acabou de ler este excerto na página 17 da obra Como Viver em Tempo de Crise?, «um conjunto de dois textos», escreve-me, «um de Edgar Morin e outro de Patrick Viveret, traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e editado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (Junho de 2011). A julgar por uma referência que encontrei online, o termo usado por Morin no original é “flamenco”. Consultados os dicionários cá de casa, não tenho dúvidas de que o tradutor confunde uma dança com uma língua (ou será com um queijo?...).»
      Creio já ter escrito sobre esta confusão. Mas será mesmo confusão? A julgar pela maioria dos dicionários, assim é. Consulto, porém, um dicionário publicado no Brasil — onde, como decerto saberão, se fala português —, o Dicionário de Termos e Expressões da Música, de Henrique Autran Dourado (São Paulo: Editora 34, 2008, 2.ª ed., p. 132), e vejo que o autor considera que a música e a dança da Andaluzia se chamam, indiferentemente, flamenco, flamengo ou flamingo.

[Texto 485]

«Eu saibo»

Porque eu saibo-te a pouco

      O empregado de uma empresa têxtil (hum...) errou: «A 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo saber com o significado de ter o sabor ou gosto de é “sei”, ou “saibo”, ou não existe essa forma verbal?» «A resposta correcta é “eu saibo”. Ora, o verbo saber, como os nossos caríssimos ouvintes sabem, pode significar duas coisas. É um verbo que tem dois significados. Ou ter conhecimento ou ter sabor. É curioso que no paradigma de conjugação deste verbo, só nesta 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo é que nós temos diferença nas formas. Se se trata de ter sabor, se se trata de ter conhecimento. Se for ter conhecimento, como nós sabemos, a forma que corresponde à 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo é “eu sei”. Se for o saber de ter sabor, é efectivamente “eu saibo”. “Eu saibo” é a forma do presente do indicativo do verbo saber com o significado de ter sabor» (Sandra Duarte Tavares, Jogo da Língua. Antena 1, 16.09.2011).
      Perante a estranheza, a absoluta anomalia desta forma verbal, faltou dizer o principal: que se formou por analogia com caibo, do verbo «caber».

[Texto 484]

Como se fala por aí

Sonhos inarticulados

      Catarina Furtado foi fazer uma reportagem à Ilha de Moçambique. Ouçam-na: «“Desta vez vamos para um sítio que eu sempre sonhei ir e tenho como imagem a grande reportagem que o meu pai fez para a RTP, há muitos anos, era eu uma miúda. Lembro-me de que me fascinou imenso. É daquelas curiosidades que ficam”, contou» («Em Nampula a cumprir um sonho de criança», A. F. S., Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 51).
      Só não sabemos se Catarina Furtado se exprimiu assim ou se é tudo da lavra do jornalista. Claro que isso é o menos importante — por muito que alguns, habitualmente os visados ou anónimos sem procuração, pretendam ver o contrário —, pois não uso de argumentos ad hominem (nem ad feminam). Temos é de meter na cabeça que é errado e que fica mal na boca de uma comunicadora ou na pena de um jornalista.
[Texto 483]

Como se escreve nos jornais

Uma tentativa

      «Alvejado em órgãos vitais, Hilário Soares acabaria por morrer no local. Depois de consumar o homicídio, Adelino Almeida regressou à sua vivenda. Terá esboçado o suicídio, mas entretanto chegaram os bombeiros» («Discussão de honra acaba com morte a tiro», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 18).
      Um dos sentidos figurados de esboçar é iniciar uma acção ou gesto sem o completar, mas não deixa de ser estranho escrever «terá esboçado o suicídio».

[Texto 482]

Léxico: «alíquota»

Só se explicarem

      «Os relatores consideram mesmo que não é possível “determinar se a causa das lesões dos ofendidos resultou da troca do fármacos [sic], se existiu troca e em que momento é que a mesma ocorreu”. O relator, o presidente do Conselho Jurisdicional Regional de Lisboa, Joaquim Marques, apoiado pela consultora jurídica Ana Varejão, detectou “fragilidades” naquele serviço hospitalar, como o facto de não existirem regras escritas para a utilização de sobras de medicamentos (tecnicamente designados de alíquotas)» («Ordem arquiva caso dos cegos de Santa Maria», Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 14).
      O primeiro obstáculo para a compreensão é logo a falta de concordância — pois não é aos medicamentos, mas às sobras destes, que se dá a designação de alíquota. É acepção, da gíria médica, que os dicionários não registam. Alíquota — é a única acepção dicionarizada — é a parte que está contida num todo um número exacto de vezes. Não deveria figurar entre as falhas nas «Expressões médicas: falhas e acertos»?
      Mas, entretanto, registe-se. Alíquota: sobra de fármaco extraído da embalagem original.

[Texto 481]

«Pôr em causa»

Mudança de paradigma

      Jornalista Nuno Rodrigues, no noticiário das 8 da manhã na Antena 1: «Tudo isto numa altura em que a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, fala da necessidade de combater a dívida, mas sem colocar em causa o crescimento económico, Teresa Correia.»
      «Não obstante as liberdades concedidas pelo Decreto, era exigido ao matador deixar o chão bem limpo e sem sinais de violência, tanto quanto o necessário para não pôr em causa a moral ou a aparência de alguns costumes» (Entre Pássaro e Anjo, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1993, p. 18).
[Texto 400]

Sul do Sudão/Sudão do Sul

Do Sul

      A propósito de tio Google: este senhor, com uma memória prodigiosa mas um pouco desatinado, diz-me que Sul do Sudão é quase tão usado como Sudão do Sul. Ora, tendo em conta que boa parte das ocorrências (somente páginas de Portugal) dirá respeito à independência deste território do Sudão, pergunto a mim mesmo se esta polarização não é enganadora. Explico-me. Na minha ideia, devia usar-se Sul do Sudão apenas quando nos referimos ao território como parte integrante do Estado sudanês. Quando nos referimos ao novo Estado, usaremos Sudão do Sul – à semelhança de Coreia do Sul, Dacota do Sul, Carolina do Sul, Ossétia do Sul...
[Texto 399]

Entre 20 e 40 mil

Duas grandes verdades

      Jornalista Nuno Felício, no noticiário das 2 da tarde de hoje na Antena 1: «Numa visita a Gouveia, esta manhã, o ministro [Nuno Crato] reconheceu que entre 20 a 40 mil professores não vão ser avaliados, e adiantou ainda que, mais do que computadores ou quadros interactivos, o que faz falta nas escolas é empenho.»
      «É a base; é a basezinha!», disse o abade sobre o latim, o latinzinho, mas saber português ainda faz mais falta.
[Texto 398]

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