Acordo Ortográfico

O vocalismo átono

      No Público, prossegue o debate em torno do Acordo Ortográfico de 1990. Do texto de Francisco Miguel Valada de hoje, extracto o que me parece mais relevante.
      «Lendo o texto de Jorge Miranda (escrito segundo o AO90), reparo que, relativamente às constituições americana e brasileira e para indicar os artigos correspondentes, utiliza o advérbio de modo “respetivamente”, sem C. Partindo do princípio de que o Diário da República a partir de 1.1.2012 utilizará esta grafia, convido Jorge Miranda a ler atentamente o Diário Oficial da União (o homólogo brasileiro do DR) e a verificar que “respectivamente”, com C, é a forma usada. A partir de 1.12.2012, teremos “respetivamente” no DR e “respectivamente” no DOU. Actualmente, temos “respectivamente” em ambos. A divergência entre grafias é criada pelo instrumento que Jorge Miranda imagina como a concretização de “ortografia com um mínimo de diferenças”.
      Espero que Jorge Miranda se tenha dado conta da simultaneidade da discrepância criada pelo AO90. Seria desnecessário repetir, mas por vezes é necessário: esta discrepância não existia antes do AO90. Além de “respectivamente” e “respetivamente”, temos também “receção” em Portugal e “recepção” no Brasil, “aspeto” em Portugal e “aspecto” no Brasil, “conceção” em Portugal e “concepção” no Brasil. Reparará que, actualmente e em ambas as costas atlânticas, se escreve “recepção”, “concepção”, “respectivamente” e “aspecto”. Estas divergências gráficas (fiquemo-nos por este aspecto e nem entremos no carácter irrestrito do conceito “facultatividade”) são criadas pelo AO90.
      Seguindo o raciocínio de Jorge Miranda, verifica-se que a aplicação do AO90 nos dois jornais oficiais conduzirá à situação contrária da por si defendida. Algo de errado se passa no raciocínio? Não. Algo de errado se passa no AO90. Entre a realidade das duplas grafias criadas pelo AO90 e o desiderato de Jorge Miranda “uma ortografia com um mínimo de diferenças revela-se indispensável” o fosso é enorme. Este fosso leva-me a partir do princípio de que a função de papel para forrar gavetas dos pareceres científicos solicitados pelo poder político foi devidamente cumprida: não foram lidos.
      Pergunta Jorge Miranda: “Por que razão havia de ser o português europeu a determinar a língua escrita em confronto com o português do Brasil, usado por quase 200 milhões de pessoas?”. O português europeu não deve determinar a forma escrita de qualquer outra das normas, nem qualquer dessas normas deve determinar a norma escrita do português europeu. Isto, em termos programáticos. Agora, quanto ao resto, no que diz respeito ao português europeu, já aqui se referiu o processo do vocalismo átono, factor importante e diferenciador de realidades da língua portuguesa.
      Para que Jorge Miranda perceba o que é o processo do vocalismo átono, convido-o a fazer como na Idade Média: em vez de ler silenciosamente este texto, leia-o em voz alta e verifique que as sílabas na sua maioria são átonas e que, dessas átonas, praticamente todas são reduzidas. Praticamente. Porque há excepções que podem ser marcadas por, imagine-se só, uma consoante não pronunciada. Como esta palavra que acabo de escrever: “excepções”. A palavra “excepções” constitui uma excepção à regra, tal como a palavra excepção. Parece complicado, mas não é. Agora, se Jorge Miranda convidar um falante de português do Brasil a ler este texto em voz alta, descobrirá um admirável mundo novo. E descobrirá o porquê de “exceção” no Brasil e de “excepção” em Portugal.
      Após nove anos de itinerância pela Europa institucional, confesso não ter percebido como é que através do AO90 se poderá “afirmar o português, o português internacional, na União Europeia”, como refere Jorge Miranda. Através da introdução de “aspetos” e “conceções” que eram “aspectos” e “concepções” em Portugal e no Brasil e que agora só são “aspectos” e “concepções” no Brasil? Confesso que não percebo e admito que gostaria imenso de perceber» («Aspectos & aspetos: a simultaneidade da discrepância», Francisco Miguel Valada, Público, 2.08.2011, p. 28).

[Texto 367]

Tradução: «test drive»

Fica a demonstração

      Sobre low cost já estamos conversados. Agora em relação a test drive, o que podemos fazer? Vejam esta frase: «It was a demonstrator, and would be driven by ***, the Cadillac distributor.» O tradutor verteu assim: «Era um carro que se usava para fazer demonstrações, e devia ser conduzido por ***, o agente da Cadillac.» Isto, porém, foi há cinco décadas, agora não resistiram a traduzir com recurso a... test drive! Fica a proposta: traduzir test drive por «demonstração». O contexto quase sempre guia o leitor para o sentido.
[Texto 366]

«Bem», adjectivo invariável

O desgosto do vilegiaturista

      Agora que Montexto está em vilegiatura, aproveitemos para falar desta questão. Lê-se no original: «Pretty soon there would be a whole colony of Jews in the neighborhood, and the *** children and all the other nice children in the neighborhood would grow up with Jewish accents.» A tradução, que data de 1963, diz o seguinte: «Muito em breve haveria, na vizinhança, uma autêntica colónia de judeus, e os filhos dos *** e as demais crianças bem adquiririam o acento semita.»
      Esta acepção do adjectivo invariável «bem» («criança bem»/crianças bem») ainda não estaria, certamente, registada no início da década de 1960, mas ei-la a ser usada numa tradução literária. «Bem»: conveniente; socialmente irrepreensível. Espero que a famigerada 8.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registe a acepção.
[Texto 365]

Pronome de tratamento

Oh, Senhor!

      O Frente-a-Frente de terça-feira passada, entre o senhor Alfredo Barroso e a senhora Teresa Caeiro, na SIC Notícias, aqueceu, tudo porque estes senhores se ofendem se alguém os trata por senhor. Oh, Senhor! «Eu não fui indelicado. A senhora já foi indelicada comigo. Já me começou a tratar por senhor Alfredo» (Jornal das 9, SIC Notícias, 28.07.2011). Estas altas personagens ficam ofendidas com um pronome de tratamento que indica delicadeza!
[Texto 364]

 

Linguagem

Assim fala Passos Coelho

      «Por momentos, ontem, o Parlamento entrou num pronto-a-vestir, pela voz do cantor de fado, como em tempos lhe chamou a revista brasileira Veja. “Fiquei satisfeito de saber que a Europa se estava a vestir de mecanismos mais eficientes contra o risco sistémico.” Os deputados entreolharam-se a pensar que estranha marca de vestuário seria aquela, mas logo tiveram uma possível resposta. É roupa preparada para o Outono/Inverno: “Hoje, a Europa está em condições de se resguardar melhor”, explicou Passos Coelho. As metáforas com roupa atraem o primeiro-ministro. Antes de o ser, em Março, já dizia que “se fosse primeiro-ministro, não estávamos hoje com as calças na mão, a impor mais um plano de austeridade porque o Estado não cortou onde era necessário”. O imposto extraordinário é outro retalho, está visto» («O pronto-a-vestir da Europa para não ficar de calças na mão», Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 13).

[Texto 363]

Linguagem

Cresceu

      Há largos meses que eu o tinha recomendado, agora aconteceu: «Valter Hugo Mãe está sempre “à procura” de formas de reinventar a prosa. Com lançamento previsto para Setembro, o novo romance, O Filho de Mil Homens (Objectiva/Alfaguara), é, segundo o escritor, “um livro diferente dos outros” que já publicou. Para começar: um adeus às minúsculas. “Acredito que as pessoas vão reconhecer o meu estilo, mesmo com as maiúsculas e com dois pontos; antes só usava ponto e vírgula”. Estética à parte, até porque, diz, não é o mais importante, aqui é campo de experimentação, este é o seu livro “mais cândido”» («Agora com maiúsculas», Vanessa Rodrigues, Notícias Sábado, 30.07.2011, p. 42).
      Os aspectos formais da escrita, de uma obra literária, são mera estética, Vanessa Rodrigues?

[Texto 362]

Ensino e literatura

Uma barbaridade

      «Um dos primeiros comentários foi o que a presidente da Associação de Professores de Português entendeu fazer, salvo erro no dia seguinte a serem conhecidos os resultados. Comentário a todos os títulos lamentável, porque uma classe (a de professores de Português – a nossa língua!) não pode rever-se nas observações quase indigentes que foram feitas sobre o facto de os professores continuarem a “perder” muito tempo a dar textos literários (que, subentende-se, não serviriam para nada – quando servem para aprender a pensar, senhora presidente da associação, e aprender a sentir, e a saber o que tem sido e é a cultura portuguesa!) como, entre outros, O Auto da Alma, de Gil Vicente, ou Padre António Vieira» («Há que deixar de manipular os resultado e os factos», Helena Carvalhão Buescu, Público, 31.07.2011, p. 54).
       O excerto é suficiente para mostrar, mais uma infausta vez, a que estado chegou o ensino. Como se pode prescindir da literatura no ensino e aprendizagem da língua? Já vêem a gravidade da afirmação, mormente vinda de quem vem, nada mais que a presidente da Associação de Professores de Português.

[Texto 361]

«Pôr a leitura em dia»

Agora é assim, Filomena Araújo?

      Lá ficámos a saber, mesmo sem nos interessar minimamente, que Luís Marques, director-geral da SIC, voltou a escolher o Algarve para uns dias de férias em Agosto. As páginas dos jornais têm de aparecer escritas, seja lá com o que for. Isto, todavia, já nos interessa: «Nas férias, Luís Marques aproveita sempre “para colocar a leitura em dia”, o que não consegue fazer durante o resto do ano» («Luís Marques dedica-se à lavoura», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 51). Ainda virá alguém lembrar-nos que o giro tem consagração legal.

[Texto 360]

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