Infinitivo pretérito

Quando, exactamente?

      «Relendo o número 13 [de A Bem a Língua Portuguesa], de Janeiro-Fevereiro de 1972, lembrei-me de lê-lo e comentá-lo com o meu pai. Como jovem arquitecto naval, ele tinha desenhado vários cacilheiros e fascinava-o a dificuldade de arranjar palavras portuguesas para ferry-boat. Cacilheiro era uma solução engraçada mas desgraçadamente local. Como chamar as ferribotas com outros destinos que não Cacilhas?» («O canal da Manga», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.07.2011, p. 31).
      Quando é que Miguel Esteves Cardoso leu o boletim da SLP ao pai? Em 2011, tempo da escrita, ou antes? A dúvida levou-me a pesquisar na internet. Cá está: Joaquim Carlos Esteves Cardoso † 1994. A crónica começa assim: «A Bem da Língua Portuguesa: assim se chama, com justiça, o Boletim [sic] da Sociedade de Língua Portuguesa. Esta semana um amigo nosso deu-nos uma dúzia deles.» (Se escreveu a crónica no domingo, 24, quer dizer que lhos tinham oferecido nesse mesmo dia, porque a semana começa no domingo. Logo, em princípio, se não é ficção, terá sido na semana anterior. Mas a questão não é esta.) Como está escrito, o leitor é levado a pensar que, relendo agora, em Julho de 2011, o boletim n.º 13, se lembrou de o ler ao pai — o que sabemos ser impossível porque este já faleceu. Ora, só podemos concluir que o tempo verbal não é o correcto. Correcto seria ter usado o infinitivo pretérito impessoal: «lembrei-me [então] de o ter lido e comentado [antes] com o meu pai».
      «Lembrei-me de ter lido nos jornais locais que o grande ator e sua companhia davam espetáculos em Lima» (Solo de Clarineta, Érico Veríssimo. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1984, p. 334).

[Texto 357]

O valor dos nomes

Perto ou longe

      Os nomes valem o que valem. Ao comando do exército prussiano (ou «prusso», como leio aqui e também é correcto mas pouco empregado) estava o marechal Blücher, que queria que a que ficou conhecida como Batalha de Waterloo ficasse conhecida como Batalha de La Belle Alliance. Wellington, à frente do exército anglo-holandês, insistiu em manter o seu hábito de nomear as batalhas em função do lugar onde tinha pernoitado na véspera.
      Há uma polémica, virulenta e escarninha, de Camilo, de que me recordo apenas vagamente, sobre determinada livraria (de Viterbo?) não estar localizada onde o nome fazia supor que devia estar. Alguém se lembra em que obra se encontra? E alguma vez teremos toda a obra de Camilo digitalizada e disponível na internet?
[Texto 356]

«O Público errou»

E voltou a errar

      Página 32 da edição de hoje do Público: «No texto “Pouca obra para um projecto ambicioso”, publicado ontem no Local Lisboa, saiu incompleta a frase “Os custos mensais de funcionamento da estrutura da Frente Tejo rondam os 60.000 euros por mês”.» Está a revelar-se uma vocação, isto de não perderem uma oportunidade de errar.
[Texto 355]

Uma frase

Economiza, pá

      Como me apareceu aqui uma semelhante, escrita por um filósofo, retomo a frase já analisada no Assim Mesmo: «Inicialmente, a definição de “malabarismo” remetia apenas para a prática de determinados movimentos de contorcionismo e de jogos de grande destreza física como, por exemplo, manejar vários objectos ao mesmo tempo, como se podem ver fazer nos circos» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 3.05.2011).
      Correcto é, como vimos então, com o verbo na 3.ª pessoa do singular. Observem, contudo, que não é necessário, nesse tipo de estrutura, incluir o verbo “fazer”, pois ele está subentendido pelo contexto. Outra vez e melhor: «Inicialmente, a definição de “malabarismo” remetia apenas para a prática de determinados movimentos de contorcionismo e de jogos de grande destreza física como, por exemplo, manejar vários objectos ao mesmo tempo, como se pode ver nos circos.» Aliás, até o plural é escusado: «como se pode ver no circo».
[Texto 354]


Léxico: «abatis(es)»



Mais para trás

      «Uma das técnicas utilizadas pelos guerrilheiros para dificultar o avanço das tropas portuguesas era derrubar árvores sobre picadas, os abatises» (Guerra Colonial: um repórter em Angola, Carlos de Matos Gomes e Fernando Farina. Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p. 55).
      Palavra quimbunda? Ná. Portuguesa, importada de França: de abatis (ou abbatis), «obstacle artificiel formé d’arbres abattus». É, com mais rigor, o obstáculo defensivo feito de troncos e galhos aguçados de árvores abatidas, destinado a dificultar o avanço do inimigo. Para o Dicionário Houaiss, o primeiro registo na língua é de meados do século XIX, erro óbvio que atribuo à variante antiga do vocábulo ser «abatiz(es)». Assim, talvez «abatis» tenha sido usado pela primeira vez no século XIX, mas encontraremos «abatiz» uns bons séculos atrás. Não raro, a intuição anda muito longe da academia...

[Texto 353]

Etimologia: «britânico»

Nem eles saberão

      Li algures, não sei onde: «The Britons (meaning ‘painted ones’, as they painted themselves blue) fought in the sea to prevent the landing, accompanied by huge dogs.» Sabia, caro Francisco Agarez? Bem, mas isto não nos interessa muito: somos «lusos», como os jornais gratuitos não se cansam de nos lembrar. Recebemos o vocábulo «britânico» do latim, britannĭcus.
[Texto 352]

Concordância

Ora toma: verbo identificacional

      Filomena Crespo não se conteve: «Isto hoje não é difícil. Pode baralhá-la um bocadinho, mas não é difícil.» «Qual destas frases é que está gramaticalmente correcta? «a) O que o turista pretende é apenas informações. b) O que o turista pretende são apenas informações.»
      «Dra. Sandra, ajude-nos lá nesta resposta. Será que está correcta, não está correcta...» «A frase correcta é a frase b: “O que o turista pretende são apenas informações.” No nosso Jogo da Língua de hoje, mais uma questão sintáctica. Regra geral, o predicado concorda com o sujeito. Portanto, o sujeito desencadeia a concordância verbal. Mas quando nós estamos perante o verbo “ser” identificacional, que é o caso, há uma regra sintáctica da língua que diz: o sujeito concorda com o elemento... o verbo, aliás, o verbo “ser” vai para o plural se houver um elemento no plural, mesmo que seja o predicativo do sujeito, que é o caso. “Informações” não é o sujeito da frase. “Informações” é o predicativo do sujeito. Mas como estamos perante o verbo “ser” identificacional, o verbo ser vai concordar, neste caso é uma excepção na língua, concorda com o predicativo do sujeito. Querem mais exemplos? “A vida não são rosas” e não “a vida não é rosas”. “A vida”, que é o sujeito, perde aí o... o... autoridade sobre a concordância. “A vida não são rosas.” “O casamento não são rosas”. “O que o turista pretende são informações.” Alínea b).»
      Não há unanimidade em relação a esta questão, apesar do que possa parecer. Queiram ver as páginas 22 e 23 da Sintaxe Histórica, aqui ao lado, e as páginas 558 e seguintes da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 37.ª ed., 2002).

[Texto 351]

«Deduzir acusação»

Induzir o parto

      «Resta ao Ministério Público “valorizar esses mesmos indícios e induzir a acusação ou, então, optar por arquivar o processo”. A actriz, que “não deverá ser ouvida pela PJ mais nenhuma vez”, vai agora ter de esperar “poucas semanas até que o processo esteja totalmente concluído”» («Sónia Brazão foi constituída arguida por crime de explosão», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 48).
      Então não é deduzir acusação, isto é, propor em juízo, que se diz? Quem sabe se a «fonte da PJ» não foi um porteiro. A locução de uso jurídico fez-me lembrar o comentário do leitor C. Ferreira a propósito do espúrio «colocar em perigo»: «Esta última locução tem, aliás, consagração normativa, v.g. no Código Penal, pelo que o seu uso pelo advogado referido não será despropositado.» Talvez tenha razão neste ponto, mas não apenas a lei «consagra» outras formas espúrias, como «implementação» e quejandos, como quem diz «colocar em perigo» também dirá «colocar o dedo no nariz», «colocar em fuga» e mais algumas dezenas de idiomatismos assim barbaramente desfigurados.
[Texto 350]

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