«Casa-barco/barco-casa»

Serve inverter os termos?

      A propósito do plural de «barco-casa», o leitor Montexto comentou: «Eu esse tipo de palavras evito-as.» O que me parece é que, se eu quisesse fazer o mesmo, me era impossível. O exemplo de hoje não implica o uso do plural, mas lá aparece a palavra: «One day in my grandfather’s rowboat she points to a red boathouse across the lake.» Como podia o tradutor evitar a palavra? Como poderia eu fazê-lo? Bem, o tradutor pelo menos inverteu a ordem dos elementos: «Um dia no barco a remos do meu avô, aponta para uma casa-barco vermelha do outro lado do lago.»
[Texto 341]

Ortografia: «casa de banho»

Agora e sempre

      «Os motoristas da Carris enfrentam diariamente dificuldades para irem à casa-de-banho porque não existem instalações próprias nos terminais. Para contornar esta situação, a empresa estabeleceu protocolos com alguns cafés em troca de passes gratuitos» («Carris dá passes em troca de casas-de-banho», Marina Almeida, Diário de Notícias, 22.07.2011, p. 21).
      Há quem pense que é preciso aderir às novas normas ortográficas para nos vermos livres desta palermice (só de pensar que têm o aval de pares meus me arrepia) dos hífenes em vocábulos como este. Ora, isto nunca teve pés nem cabeça.
[Texto 340]

Ortografia: «terra-nova»

A terra pelo cão 

      O pai da nossa personagem principal pôs «the last Newfoundland back in its bed of shavings». O tradutor verteu «o último Terra Nova na respectiva caminha de aparas de madeira». Quanto a «respectiva», já se deixa ver que é desnecessário. Quanto à raça canina, já duas vezes, pelo menos, tratei da matéria (aqui e aqui). Escrever-se-á correctamente terra-nova, que pluraliza (ah sim, outro erro comum) em terra-novas.
[Texto 339]

Acordo Ortográfico

O que fazia falta

      A escritora e ensaísta brasileira Maria Lúcia Lepecki morreu ontem, domingo, acabei de ouvir na Antena 1. «Em 2008», lê-se na edição em linha do Público, «por ocasião do encontro literário Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, manifestou-se publicamente contra o novo acordo ortográfico. “Eu sempre achei que o acordo ortográfico não é preciso: um brasileiro lê perfeitamente a ortografia portuguesa e um português lê perfeitamente a ortografia brasileira”, sustentou na altura.»
      É esta, parece-me, a grande e simples verdade. Se algo era preciso fazer, era seguramente uma reforma ortográfica bem estudada.
[Texto 338]

Infinitivo

Área crítica da língua

      «Líderes europeus sob pressão para arranjar uma saída para a crise» (João Francisco Guerreiro, Diário de Notícias, 21.07.2011, p. 4).
      O sujeito não está claríssimo? Nestes casos não é obrigatório flexionar o infinitivo? Ou, porque se trata de uma construção indirecta, com preposição, não se pode flexionar o infinitivo? Terceira regra: na dúvida, não se flexiona o verbo.
[Texto 337]

Ortografia: «Buçaco»

Wellington escreveria o mesmo

      «A Comissão Europeia aprovou ontem o financiamento de perto de duas centenas de novos projectos ambientais na União Europeia, um dos quais de protecção da mata do Bussaco, ao qual atribuiu 3 milhões de euros» («UE dá 3,5 milhões a projectos ambientais portugueses», Diário de Notícias, 20.07.2011, p. 14).
      Fundação Mata do Bussaco (FMB) — é o nome da fundação criada para preservar a mata do... Buçaco, grafia que se pode ler na restante página da internet. Idiossincrasias... Leiam aqui a etimologia do topónimo de que faz eco Forjaz de Sampaio.
[Texto 336]

Ortografia: «gim-tónico»

Um gim, dois gins

      Experimente o leitor pesquisar «gin-tónico» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em linha. O que julga que aparece? «Sintónico» («sintônico» para os Brasileiros). Ah, sim, «gin» está registado neste dicionário. E até «gim», que remete para aquele. Só no Dicionário Houaiss vejo registado — «gim-tónico». Estivesse no plural e não saberíamos qual o singular em mente.
      «Usa os fatos no corte o mais banal possível, põe a primeira gravata que lhe aparece no caminho, faz os nós mal feitos, anda quase sempre desfraldado, liga pouco à forma física, gosta de conversar pela noite fora com os amigos enquanto bebe gin-tónicos, é desorgarnizado [sic], desarrumado, despreza algumas exigências do jornalismo (entrevistas de carácter pessoal, perfis em família, reportagens para as quais os políticos enviam as suas fotos de infância), prefere tascas a restaurantes ‘finos’. Diz-se adepto do FC Porto» («O que os une e o que os separa», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 20.07.2011, p. 10).
      Uma vez que estou neste capítulo etílico, aproveito para lembrar que o nome do coquetel feito com gim e vermute branco se escreve martíni. Que o comedido Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não regista.
[Texto 335]

Léxico: «canastro»

Coisas antigas

      «As eiras tradicionais e os canastros, ou espigueiros, são outro ponto de interesse, porque estas estruturas ainda hoje servem para o armazenamento de espigas e outros produtos que a terra, fértil e ribeirinha, brota» («Ciclo do linho em Várzea de Calde», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 20.07.2011, p. 49).
      Sim, canastro é sinónimo de espigueiro, o que todos os dicionários registam. O que poucos registam é caniceiro, o nome por que na serra do Soajo são conhecidos os espigueiros, aqui não de granito mas de vergame das carvalheiras.
      N’A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós fala num espigueiro: «Ao fim da vinha, junto aos milheirais, uma figueira brava, densa em folha, alastrara dentro dum espigueiro de granito destelhado e desusado.»
[Texto 334]

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