«Às mil maravilhas»

Mais um holicismo?

      «Elles riaient et visiblement s’entendaient à merveille.» O tradutor verteu como seria de esperar e está correcto: «Riam-se e era visível que se entendiam às mil maravilhas.» Em francês é, como se vê, à merveille; em castelhano, a maravilla. Escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Esquece-se, às vezes, que a correspondência formal não acompanha a correspondência semântica. Direi, pois, em parêntese, que o castelhano a maravilla traduz o francês à merveille, enquanto à las mil maravillas traduz em bom castelhano o fr. à ravir, em bom português às mil maravilhas» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 26). À maravilha, em português, é arcaísmo que não valerá a pena fazer revivescer.
[Texto 300]

Tradução: «cartouche»

Só para caçadores francófilos

      Paris, início da década de 1920. Uma senhora visita um museu na companhia de um amigo. Nas salas dedicadas às estátuas, o amigo, que conhece línguas antigas, «traduit les cartouches». «Traduz os cartuchos», verteu o tradutor. As acepções do cartouche francês são mais ou menos as mesmas do português «cartucho». E, em português, «cartucho» também é «cartela», que é o nome que se dá ao pergaminho, muitas vezes destinado à inscrição de uma legenda. O que me parece é que «inscrição» ou «legenda» traduziriam muito melhor o que se pretende dizer.
[Texto 299]

Acordo Ortográfico

Os velhos argumentos

      O Prof. Jorge Miranda publicou hoje no jornal Público «Brevíssimas notas sobre três questões sérias» (p. 36). Só nos interessa a segunda: «Tenho lido neste jornal, ultimamente, vários artigos a atacar o Acordo Ortográfico e a pedir que seja suspensa a sua aplicação. Não posso concordar.
      Não sou especialista em linguística e não pretendo que o Acordo seja perfeito. Contudo, o que está em causa situa-se muito para além de qualquer deficiência ou erro que contenha ou de qualquer gosto estético. O que está em causa é a afirmação da língua portuguesa como grande língua internacional — a terceira língua de matriz europeia mais falada e falada em quatro continentes; e, para esse efeito, uma ortografia com um mínimo de diferenças revela-se indispensável.
      Por que razão havia de ser o português europeu a determinar a língua escrita em confronto com o português do Brasil, usado por quase 200 milhões de pessoas? Pretendê-lo seria totalmente inviável e acabaria por reduzir o português europeu à dimensão do húngaro, do checo ou do sueco, quando, bem pelo contrário, se mostra também necessário afirmar o português, o português internacional, na União Europeia. E não houve reformas muito mais radicais de ortografia do que esta, a começar pela precipitada reforma de 1911, que provocou o corte com o Brasil? Espero bem, por isso, que finalmente, em 1 de Janeiro de 2012, se cumpra o que foi convencionado há mais de 20 anos!
    A verdadeira defesa do português não pode consistir no conservadorismo ortográfico, mas sim na exigência da qualidade do seu ensino e da sua prática na comunicação social, no ensino universitário por professores portugueses para alunos portugueses em português (ao contrário do que sucede em algumas faculdades), no não uso de designações estrangeiras, em suma, na aplicação rigorosa do art. 11.º da Constituição, que o declara língua oficial da República.»
[Texto 298]

Linguagem

Olha quem

A minha filha costuma rezar uma ou duas jaculatórias antes de adormecer. Ontem, surpreendeu-me ao acrescentar-lhes os números (ela ainda não anda na escola, graças a Deus) até dez — em inglês! Antes de os saber bem, sem se enganar, em português. Começa mal, a rapariguinha, já troca os idiomas. Hoje de manhã inquiri-a. «Foi um menino que me ensinou no jardim.» A mãe confirmou. Que espécie de diálogos ou oaristos mantém ela já, com 4 anos, com os marmanjos? E eu que pensava que ela aprendia (e desaprendia) tudo na televisão.

[Texto 297]

Tradução: «noceur»

Em francês agora

      O original fala no «instinct de noceur» de alguém, e foi vertido como o «instinto de boémio inveterado». O registo, contudo, é mais familiar ou popular. Faire la noce, diz-se em francês. «Andar na pândega, fazer a festa». O vocábulo «boémio» tem vários sentidos figurados. O Dicionário Houaiss regista três: «que ou quem leva uma vida hedonista, alegre e livre»; «que ou quem leva uma vida erradia e incerta, fora de padrões»; «que ou quem leva vida desregrada, dissipada». «Boémio», porém, transmite sempre (ou transmite-me) um sentido mais positivo. Digamos que boémio é o estroina fino. Também sentem o mesmo? Noceur é mais o estroina, o pândego.
[Texto 296]

Sobre «olheiro»

Para mais clareza

      «O nome da praia dos Olhos d’Água, contam os populares, deve-se ao facto de rebentarem na areia e no mar mais de centena e meia de olheiros de água-doce. O mais famoso, conta Jorge Baptista, proprietário do restaurante O Caixote, chama-se olheiro da cabra» («Olhos d’Água perdeu o ícone da praia com a queda do penedo Gago Coutinho», Idálio Revez, Público, 13.07.2011, p. 24).
      «Água-doce»! Deve ser confusão com «agro-doce», se não for com «arroz-doce». Ora, se os olheiros ou olhos-d’água também rebentam no mar, isso quer dizer que os dicionaristas têm de corrigir os verbetes nos dicionários. Em rigor, a definição «sítio onde brota água do solo» não o exclui, mas, por clareza, devia contemplar estes casos.
[Texto 295]

«Stricto sensu/statu quo»

Não liguem

      Acabo de ler aqui numa revisão, e mais de uma vez, strictu sensu e status quo. É demasiado latim derrancado para ficarmos calados ou quietos. Do último já tinha tratado, tendo então escrito que devemos escrever statu quo, no ablativo do singular. É abreviação da expressão latina statu quo ante bellum, o «estado em que as coisas estavam antes da guerra». Quanto ao primeiro, é stricto sensu que devemos escrever, também no caso ablativo. É o inglês a ensinar-nos a escrever latim... (Numa reunião em que estive recentemente, com economistas e engenheiros, nem sequer um dizia outra coisa que não fosse «aitem»...) Leio, com estupefacção, na página 182 da 2.ª do Livro de Estilo do Público, que é strictu sensu que se deve escrever. Na versão em linha, ainda não foi — nem nunca será, decerto — corrigido o erro, que, ironicamente, se encontra na secção «Erros e vícios de linguagem mais frequentes». Aí está uma boa ilustração.
[Texto 294]

«Desde Madrid/de Madrid»

Que desgosto

      Ora leiam com atenção: «Para aquele perito, que testemunhou desde Madrid por videoconferência, a morte do jovem foi causada por um golpe de calor» («Óbito de escuteiro está em tribunal: morte súbita ou golpe de calor?», Licínio Lima, Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 21).
      Não escreva assim, ¡caray!, caro Licínio Lima. Então não sente que isso não é português? O uso da preposição «desde» em vez da preposição «de» nesta construção é tipicamente castelhano. Eu já tinha falado neste erro, mas os jornalistas ainda eram novos.

[Texto 293]

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