Ortografia: «bejeca»

Com os copos

      No Verão, escreve o nosso autor, a venda de «bujecas» dispara. Mas não: é bejeca que se diz e escreve. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista que é alteração de «[cer]vejeca, diminutivo de “cerveja”», e que é vocábulo «informal». É calão, lê-se no «Temanet», no sítio do Instituto Camões. O seriíssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não se mete nestas coisas.
[Texto 200]

Léxico: «sinobloco»


Assim percebemos


 


 

      Vou comprar um BMW ActiveHybrid X6. (Branco, é mais barato.) Não tenham inveja, não é para já. Primeiro tenho de gastar o Škoda. Na oficina disseram-me que tenho de mudar os sinoblocos. «Repita lá, por favor.» Repetiu. «Essa não está no dicionário.» «Desculpe?» Não está mesmo registado em nenhum dicionário que eu tenha. (E amanhã não vai para o Priberam, porque é feriado, Corpus Christi.) Os sinoblocos são peças de borracha que servem para absorver as vibrações da suspensão. Em inglês, silent block, «bloco silenciador». Ora, era demasiado complicado para a maioria dos mecânicos portugueses. Ficou «sinobloco».

[Texto 199]

«Reverter uma decisão»!

É bárbaro

      Vejam esta: «O Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu ontem, por unanimidade, reverter uma decisão de um tribunal de recurso da Califórnia e impedir que as funcionárias da cadeia de distribuição Wal-Mart pudessem apresentar uma acção colectiva por alegada discriminação com base no género contra a empresa» («Supremo recusa queixa por discriminação contra Wal-Mart», Público, 21.06.2011, p. 21).
      Reverter é voltar ao ponto de partida; retroceder; regressar — o que certos jornalistas deviam fazer, regressar às carteiras da escola primária. Então o verbo adequado no contexto não é «anular»? No nosso sistema judicial, o Supremo Tribunal de Justiça, através de um acórdão, anularia a decisão recorrida e ordenaria a baixa dos autos a um tribunal da Relação. Algum jurista nos confirmará se é assim exactamente.
[Texto 198]

«Si mesmo»

Themselves

      «Qualquer frase pode conter uma falsidade. Mas as palavras em si mesmo não mentem.» Há muito venho reparando que mesmo falantes que deviam ser qualificados, como tradutores e jornalistas, entendem «si mesmo» como sendo invariável. Santo Deus, não é! Si mesmo, si mesma, si mesmos, si mesmas. Na oralidade, é tolerável, mas na escrita, é imperdoável.
      «Porém todas estas coisas, verdadeiramente grandes e espantosas e nunca vistas, ainda que na primeira apreensão parecem muito para temer, bem consideradas em si mesmas, e em seus efeitos e fins, antes são muito para sossegar, e aquietar os ânimos, que para intimidar ou perturbar» (Sermões, tomo III, António Vieira. Lisboa: Editores J. M. C. Seabra & T. Q. Antunes, 1854, p. 339 [Actualização ortográfica minha]).

[Texto 197]

Ortografia: «maria-vai-com-as-outras»

Ora pois

      «Foi o meu grande amigo Rui Zink, corrigivelmente de esquerda, o primeiro a descobrir Pedro Passos Coelho como um agente do nosso futuro. Foi no Algarve, há muito tempo. Convenceu não só a Maria João, já convencida, como o Manuel Serrão e eu — que sou uma Maria-vai-com-as-outras, nem que seja por uma questão de educação» («Ora pois», Miguel Esteves Cardoso, Público, 21.06.2011, p. 39).
      A frase fica assim: «Convenceu não só a Maria João, já convencida, como o Manuel Serrão e eu»? No texto todo (citei somente um excerto), também faltam algumas vírgulas. E é maria-vai-com-as-outras que se escreve — temos de impedir que os computadores nos ensinem a escrever. (É pena os revisores continuarem a ter medo do simpático Miguel Esteves Cardoso.)

[Texto 196]

Tradução: «night club»

Os morfinómanos do clube nocturno

      Aqui a nossa protagonista cantava «folksongs in a night club». O tradutor quer que seja numa discoteca. Há trinta anos, teria certamente traduzido por «boîte» (ou «boate», como também se lê por aí, adaptado pelos Brasileiros). Mas no caso, a história passa-se nos anos 30, dir-se-á melhor «clube nocturno», creio. São, decerto, os três locais de recreio onde se pode ouvir música, dançar e tomar bebidas, mas há diferenças quanto aos períodos em que se usaram ou usam.
      «O palco desta mudança era o clube nocturno. Se, até à guerra, “o máximo de desequilíbrio boémio de Portugal era o abuso de licores”, depois “e com o falso e verdadeiro cosmopolitismo […], importamos um carregamento completo de drogas”» (Os Nightclubs de Lisboa nos Anos 20, Júlia Leitão de Barros. Lisboa: Lucifer Edições, 1990, p. 76).

[Texto 195]

Tradução: «mansions»

Porque há quem se esquece

      Muito bem: mansion é, além de casa senhorial, termo que se começou a usar no século XIV, também, no plural, sabe-se lá porquê, prédio de apartamentos. Contudo, na tradução, é preciso ver se não é no singular (e habitualmente é) que se tem de traduzir: «o prédio». Quanto a «block of flats», dir-se-á melhor «prédio de apartamentos».
[Texto 194]

«Brande/brandy; uísque/whisky»

No brandy this time, dear?

      Já sabem, porque eu já contei, que em certas editoras se proíbe o aportuguesamento «uísque». Em relação a «brande», nunca vi nada. Mas agora pensem: na mesma página o tradutor escreveu «uísque» e brandy. «Uísque» será mais usado do que «brande»? É motivo suficiente para se admitir, numa tradução do inglês, o primeiro e rejeitar o segundo? Uma boa questão. Brande, só se for Brande-Hörnerkirchen.

[Texto 193]

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