Acordo Ortográfico

O denunciante denunciado

      Hoje já ninguém se lembrará, mas ontem não terão sido poucos os leitores do Público que terão pensado como o texto de Nuno Pacheco estava escrito assim-assim mas mal pensado. E, por paradoxal que possa parecer afirmá-lo aqui, teria sido preferível o contrário. Vejamos. O título já prometia vindicta ou denúncia: «O caçador caçado». Começa assim: «Há muitas maneiras de dizer isto. Buscar lã e ser tosquiado, virar-se o feitiço contra o feiticeiro, caçador caçado. O significado é o mesmo, só as palavras mudam. No caso, retrata bem uma polémica que estalou no Brasil há mais de um mês e que ainda se desenrola, com estrondo mas sem desfecho à vista.» Refere depois o tal livro de que já aqui falei e entra então o «caçador caçado»: «Francisco Marins, presidente da Academia Paulista de Letras, escreveu e fez divulgar um texto inflamado onde acusa a “infeliz publicação” de aconselhar a que os alunos brasileiros escrevam, “sem nenhum castigo, mesmo em provas escolares, palavras e expressões de linguagem oral, chula, como estas: os menino pega peixes ou nois vai, nois vem, nois fica”.» Bem, parece-me meritório que alguém chame a atenção para os disparates que se vão fazendo. Nuno Pacheco, neste ponto, não parece divergir desta opinião. Introduz outra personagem secundária e prossegue assim: «O curioso é que tal polémica surja em plena aplicação do Acordo Ortográfico, pretensamente assinado para “facilitar” o ensino (no Brasil, dir-se-ia aprendizado).» Dá depois um exemplo irrelevante, para atingir o número de caracteres que lhe fora atribuído, e eis o parágrafo final: «Ora Francisco Marins, que tanto se indigna com o duvidoso livro, orgulha-se, na mesma missiva, de ter colaborado em Lisboa no Acordo Ortográfico, que mais não é do que, a pretexto da unificação linguística, a caixa de Pandora ideal para todos os erros, tergiversações e analfabetismos. É o caçador caçado. E na armadilha que montou.»
      Querem ver que a colaboração, independentemente de qual tenha sido, de Francisco Marins na redacção do Acordo Ortográfico deslegitima, para todo o sempre, qualquer intervenção sua relacionada com a língua no espaço público? E, vamos lá, não sou defensor do AOLP90, de que já apontei erros e lacunas e não estou sequer a aplicar, e preferia mesmo nunca ter de vir a fazê-lo, mas esta implicação (refiro-me à relação de consequência, não à embirração, que também transparece) não tem pés nem cabeça.
[Texto 191]

Sobre «recente»

Que aconteceu há pouco

      «“Utópico” deriva de “utopia”, que por sua vez é uma palavra relativamente recente. Foi inventada pelo filósofo Thomas More em 1516 e deu título ao livro Utopia. […] E foi do impacto deste livro que derivou o “ser utópico” enquanto ser irrealista, quimérico, acreditar no irrealizável» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa. Antena 1, 20.06.2011).
      A percepção do tempo, já sabemos, é eminentemente subjectiva, mas não abusemos. «Relativamente recente»! Se Mafalda Lopes da Costa estivesse a escrever no século XVII, ainda se compreendia a afirmação. A segunda frase só com muito boa vontade se compreende. Decorre do defeituoso cumprimento do objectivo inicial do programa: divulgar e explicar expressões. «Ser utópico» é então a expressão... Um absurdo. O serviço público no seu melhor.
[Texto 190]

«Eldorado»

Olha quem fala!

      «Há quem acredite que, com jeito, o país pode tornar-se um centro mundial de tecnologia, há quem acredite que a agricultura tem condições para garantir a auto-suficiência em produtos básicos como os cereais, há quem acredite que no mar pode estar o eldorado que durante séculos os portugueses não foram capazes de descobrir em terra firme» («Um olhar inteligente sobre o mar», Público, 20.06.2011, p. 34).
      Se se argumenta que deve ser grafado em itálico porque vem do castelhano — então milhares de outros vocábulos teriam de passar a ser grafados da mesma forma. E logo no Público, que até o negregado media grafa sem aspas nem itálico, nem mais. «Eldorado» é português, não precisa por isso de ser grafado em itálico.

[Texto 189]

Endereço electrónico

@ de razão

      Na sua crónica de hoje, Nuno Pacheco ocupa-se de uma questão que já aqui foi tratada: a publicação, pelo Ministério da Educação e Cultura do Brasil, de uma obra, Por uma Vida Melhor, em que se defende o indefensável. Escreve, a determinado passo, Nuno Pacheco: «No endereço electrónico do ministério, a polémica favorece o livro. A professora que o escreveu é bem-intencionada, os que criticam o livro não o leram bem, etc.» («O caçador caçado», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 20.06.2011, p. 3).
      É uma confusão já nossa conhecida: quer escrever-se «sítio» e sai «endereço electrónico». Ou terá sido porque, querendo evitar — o que é mais que louvável — o anglicismo site, pensou em «página electrónica»? Há-de ser lapso, mas, para o caso de subsistir alguma dúvida, deixo a definição da Infopédia: «Endereço utilizado para envio de mensagens pela Internet. É constituído pelo nome do utilizador, o símbolo @ (“arroba”), seguido do nome do fornecedor de serviços de acesso à Internet e o símbolo . (“ponto”) com a zona. Exemplo: utilizador@fornecedor.pt».
[Texto 188]

Tipos de frase

Interrogativa ou imperativa? Ou?...

      «Depois chega o momento alto da obra [Felizmente Há Luar!], quando Matilde, uma das personagens principais, veste a sua saia verde para assistir à execução do seu amado, o general Gomes Freire. “Digam lá o que simboliza a saia de Matilde?”» («Apostas em Sttau Monteiro, Pessoa e José Saramago», Romana Borja-Santos, Público, 20.06.2011, p. 9).
      A professora está a fazer uma pergunta ou um pedido? (Alguns dirão que é antes uma ordem.) É adequado, no contexto, o uso do ponto de interrogação? Fica resolvido se usarmos outra pontuação, dando-a como interrogativa parcial? Assim: «Digam lá: o que simboliza a saia de Matilde?» Digam o que acham, não se acanhem.

[Texto 187]

Superlativo hebraico

É só repetir

      «Há 21 anos nesta escola [Escola Básica e Secundária de Carcavelos], para Leonor Brazão o único segredo para os exames nacionais é trabalhar, trabalhar, trabalhar» («Apostas em Sttau Monteiro, Pessoa e José Saramago», Romana Borja-Santos, Público, 20.06.2011, p. 9).
      Em literatura, diz-se logo que se trata de repetição com valor expressivo. Quem já leu composições de alunos do 2.º ciclo, de crianças de 11 ou 12 anos, sabe que a repetição de uma palavra é, pela sua simplicidade, um dos recursos que mais usam. «E depois o príncipe foi andando, andando, andando...» Nunca mais parou. Isto fez-me lembrar outro recurso, também fundado na repetição. Ainda se ensina na escola o superlativo hebraico? Decerto que não. Nem a maioria dos professores mais novos saberá do que se trata. Rei dos reis, vaidade das vaidades, cânticos dos cânticos... Estão a ver agora? É uma construção enfática que consiste na intensificação do substantivo pela sua repetição no plural como adjunto adnominal. Veio do hebraico, pela Bíblia, directamente para o português, para o castelhano, para o francês, para o italiano, para o inglês. Em alemão, muito antes de qualquer vaga de anti-semitismo, o Cântico dos Cânticos passou, no século XVI, de Lied der Lieder para Hoheslied ou das Hohelied. «A vista repousava, bêbeda de luz, na confiança das confianças», escreveu Aquilino Ribeiro.

[Texto 186]

Ortografia: «hidático»

Um caso clínico

      Então aqui o nosso autor escreveu que não sei quem tem «um quisto hidáctico». O Acordo Ortográfico de 1990 vai fazendo estragos insuspeitáveis há meia dúzia de anos. «Hidático», caro senhor, «hidático», nunca teve c — nem mudo nem falante. Ter-nos-á vindo do francês hydatique. Está, assinala o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por «hidatídico». Este quisto é causado por uma ténia, a hidátide. Se quiserem ficar maldispostos, pesquisem «hydatic» nas imagens do Google. Não, não precisam de acrescentar «cyst». Uma doença terrível, parece.

[Texto 185]

«Tirar prazos»

Justiça medieval

      Nos tribunais brasileiros também se tiram prazos, sabiam? Ah, não sabem o que é tirar prazos... Estes métodos de trabalho irracionais, ineficazes, deixámo-los nós lá. Em alguns tribunais, cá e lá, de vez em quando, os funcionários judiciais retiram todos os processos pendentes — que estavam a aguardar o decurso de certo prazo, por exemplo, ou a acumular actos praticados pelos diferentes intervenientes — das estantes e armários para analisar o que é necessário fazer neles. E lá vão os processos em massa da sec­ção para o gabinete do juiz, onde ficam a aguardar despacho. É a esta actividade, que não se extinguiu com o advento da informática, que se dá o nome de tirar prazos.
[Texto 184]

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