«Invocar/evocar»

E os revisores, senhores?

      «Quem defende a extinção do MC [Ministério da Cultura] evoca muitas vezes o argumento da transversalidade» («Um ministério ou uma secretaria de Estado é só uma questão de palavras?», Lucinda Canelas, Público, 26.05.2011, p. 7).
      Se os jornalistas consultassem mais os dicionários, as gramáticas e fossem estudando a língua, sua ferramenta de trabalho, não erravam tanto, ou pelo menos em aspectos tão básicos. Sim, alguns sabem e acertam: «O argumento da falta de um “relatório social” e de uma “perícia sobre a personalidade” do arguido já tinha sido invocado na Relação e no Supremo Tribunal de Justiça (STJ)» («Isaltino alega nulidade por falta de perícia sobre a personalidade», José António Cerejo, Público, 26.05.2011, p. 13).

[Texto 61]

«Extra», «recorde», «ultravioleta»

A (quase) anómala invariância

      Primeiro: toda a língua portuguesa tende para a concordância. Segundo: excepções são casos anómalos que não deverão servir de paradigma. Terceiro: os adjectivos «extra», «recorde» e «ultravioleta» não são usados da mesma forma pelos falantes. Quarto: quando verifico que há hesitações, propendo sempre para a defesa dos princípios gerais da língua. Quinto: assim, defendo inequivocamente que «extra» e «ultravioleta» pluralizam em «extras» e «ultravioletas». «Recorde» é visto pela quase generalidade dos falantes como sendo invariável. «Dívidas recorde? Mas a que classe gramatical pertence “recorde”? Hum... talvez à dos advérbios...», tripudiava o leitor Montexto no Assim Mesmo. Bem, por muito que nos repugne, há adjectivos invariáveis quanto ao género e quanto ao número. Só não estranhamos se o próprio singular termina em s, como «pires» (que revela mau gosto; ridículo; vulgar; pretensioso). O que revela incompreensão da língua é grafá-lo como se fosse um determinante específico, o que de vez em quando no Público têm a infeliz ideia de fazer: «No final de 2009, mais de 563 mil pessoas estavam sem trabalho. Mas este número-recorde, que elevou para 10,1 por cento a taxa de desemprego, depressa foi ultrapassado» («Taxas-recorde de desemprego marcaram esta legislatura do PS», Raquel Martins, Público, 22.04.2011, p. 12).
[Texto 60]

«Porta do Sol»

Em português

      «Os manifestantes da Porta do Sol, em Madrid, estão agora divididos: há quem queira manter o protesto, mas há também quem diga que chegou a hora de arrumar o acampamento» (Noticiário das 8 da manhã, Alexandre David, Antena 1).
      Talvez o jornalista Alexandre David viesse aqui deixar um comentário em que nos diria se foi pela leitura do Linguagista que ficou desperto para esta questão, mas não terá ficado contente com as únicas duas referências (aqui e aqui) que lhe fiz no Assim Mesmo. Paciência. Parabéns.

[Texto 59]

Sobre «consigo»

A propósito de pronomes

      Em 1999, o leitor Faustino António Di, de Maputo, Moçambique, fazia esta pergunta ao Ciberdúvidas (aqui): «É correcto dizer “Depois falo consigo?” O meu professor de Português recomendou-me um trabalho de investigação no qual tenho de procurar saber porque é que a seguinte frase “Depois falo consigo” é incorrecta.» Resposta do consultor, um tal L. W.: «Num uso mais culto da língua seria preferível usar o verbo no futuro do presente: “Depois falarei consigo”. No entanto, está correcto utilizar o presente do indicativo para indicar um facto futuro, mas próximo. (Veja Celso Cunha e Lindley Cintra, “Nova Gramática do Português Contemporâneo”, Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1987: “Emprego dos Tempos do Indicativo”, página 448.).» Ter sido no século passado não é desculpa. Quase dez anos depois, a dupla Sandra Duarte Tavares/Carlos Rocha (aqui) perorava: «Em Portugal, o pronome consigo pode ter como referência o pronome você, pelo que é gramatical a frase “Eu caminhava e falava consigo sobre o que ocorreu ontem”, desde que a interpretemos do seguinte modo: “Eu caminhava e falava com você sobre o que ocorreu ontem.”» É idiotismo nosso, sem dúvida, mas umas décadas antes os professores de Português tachavam esse uso sem valor reflexo de idiotia, de solecismo imperdoável. A língua evolui mesmo, não há dúvida.
[Texto 58]

Preposição comitativa

Sem tigo

      Claro que interessa saber que o pronome eu muda para mim depois das preposições a, de, em, para, por, contra, etc. Já tenho é dúvidas que interesse muito saber de cor — como homens da geração e formação do revisor antibrasileiro tanto valorizam — as formas pronominais -migo, nosco-, -tigo, -vosco, sigo-, pois usam-se sempre contraídas com a preposição com. Dantes, já aqui o escrevi, a preposição aparecia sempre assim: commigo, comtigo, comsigo, comnosco, comvosco. No português quinhentista, era assim, pois ainda estava viva a consciência da sua formação. Na língua arcaica, porém, dizia-se simplesmente migo ou mego, tigo ou tego, sigo, nosco e vosco, sem a preposição comitativa, e só depois se deu a reduplicação da preposição.
      Ouçam Francisco Louçã, ontem à noite no comício em Évora, a brincar com a língua: «Percorrem o País, estes homens que se apresentam: “Eu sou candidato a primeiro-ministro, eu vou governar talvez contigo, talvez sem tigo.”»
[Texto 57]

«Tentadero/tentadeiro»

Ao tentame

      «Em Santarém, terra de touros e toureiros, matou-se um porco e assou-se, havia vinho e cerveja para um fim de tarde taurino. No tentadero (arena), uma vaca foi toureada e pegada» (Público, 24.05.2011, p. 4).
      É um espanholismo do âmbito da tauromaquia muito usado entre nós. E tentadero é mesmo «arena», como o jornalista amavelmente quis explicar? Para a última edição do Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, coordenado por Álvaro Iriarte Sanróman, que veio fazer esquecer os muitos disparates e as incompreensíveis omissões da edição anterior, de Julio Martinez Almoyna, tentadero traduz-se por tenta: «curral fechado para experimentar a bravura dos bezerros». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «tenta» é a «lide especial para observação da bravura de novilhos ou novilhas, pouco tempo depois da ferra». Nenhum dicionário confirma que «tenta» é também o local onde se realiza essa lide.
      Ora, não seria esperar demasiado que os dicionários registassem o espanholismo — ou seria? O Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado não o regista, mas acolhe o aportuguesamento tentadeiro: «Lugar cercado, geralmente em forma circular, onde se procede às tentas do gado e onde o mesmo se ferra.»
      «É tão importante isto que em dias de vento ruidoso ou mesmo quando a brisa traga ao tentadeiro o perfume característico da campina, se devem evitar as tentas» (O Fado e as Touradas em Portugal, A. Martins Rodrigues. Lisboa: Publitur, 1969, p. 103).
[Texto 56]

«Bramir/brandir»

Ao vêr-te brandir o alphange

      A secção «O Público errou», nos actuais moldes, e com meia dúzia de linhas, é ridícula. Hoje ficámos a saber que, afinal Lobo Xavier não participou na arruada com Paulo Portas no Porto, como ontem o jornal divulgara. Disparates de alto coturno como confundir «brandir» com «bramir» nunca lá os veremos: «Agora já não é a modernidade das renováveis e do carro eléctrico, ou a plasticina da imagem e das estatísticas, agora Sócrates resolveu aparecer como um político socialista tradicional, defensor dos mais pobres e desvalidos, bramindo o estandarte da luta de classes» («Luta de classes», Pedro Lomba, Público, 26.05.2011, p. 40).
      «É o mesmo povo que durante séculos brandiu o estandarte da União Árabe» (Dois Caminhos da Revolução Africana, Moacir Werneck de Castro. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos, 1962, p. 26).
[Texto 55]

Aspas

Seu esquizóforo

      «Uma referência para identificar o presumível criminoso era uma “mosca” no queixo» («Duas pessoas mortas a tiro de caçadeira em casa de alterne de Vila Nova de Cacela», Idálio Revez, Público, 25.05.2011, p. 25).
      Somente as aspas e dizer que é no queixo é que põem o leitor — ignorante e desatento — na pista certa: olha, não é o insecto díptero esquizóforo da subordem dos ciclórrafos, com cerca de 80 mil spp. descritas, que se dividem em caliptrados e acaliptrados e numerosas famílias. Porra!

[Texto 54]

Arquivo do blogue