Regência de «ajudar»

Qual coroinha

      «O LIP, Laboratório de Instrumentação e Física de Partículas, criado para ajudar à participação portuguesa no CERN, organização europeia de investigação nuclear, assinalou ontem, em Coimbra, os seus 25 anos» («LIP criado há 25 para relançar ciência», Diário de Notícias, 10.05.2011, p. 32).
      Ajuda-se à participação como se ajuda à missa? Duvido. O verbo «ajudar» tem dupla regência: ajudar a («ajudar alguém a» + infinitivo) e ajudar em («ajudar em alguma coisa»: «ajudar em» + substantivo).
      «Pouco e pouco, obtive que ella viesse á igreja de quatro em quatro semanas, e n’essas occasiões já ella sabia que o seu filho era o menino que me ajudava á missa» (Novelas do Minho, Vol. 1, Camilo Castelo Branco. Lisboa: A. M. Pereira, 1922, p. 112).

[Post 4765]

Léxico: «palangreiro»

No mar

      Como decerto saberão (ou pelo menos Miguel Esteves Cardoso e Rui Tavares saberão), a Comissão Europeia remeteu para aprovação no Parlamento Europeu o novo protocolo assinado ao abrigo do Acordo de Parceria de Pesca (FPA) entre a União Europeia (UE) e Cabo Verde, que deverá ser votado esta semana. Este acordo autoriza a pesca de navios europeus, entre eles portugueses, em águas territoriais cabo-verdianas: 28 atuneiros cercadores, 35 palangreiros de superfície e 11 atuneiros com cana. Quanto aos primeiros e aos últimos, creio que não há dúvidas — mas o que é um «palangreiro» e de onde veio o termo? Os dicionários gerais da língua portuguesa não o registam. A suspeita de que era vocábulo espanhol levou-me a consultar o DRAE: cá está: palangrero é o barco de pesca com palangre, que é o cordel comprido e grosso de que pendem de espaço a espaço uns cordéis mais finos com anzóis nas extremidades. O étimo do espanhol é o vocábulo catalão palangre: «Ormeig que consisteix essencialment en una corda llarga, anomenada mare, de la qual pengen unes altres cordes més primes, anomenades braçols, cadascuna de les quals va proveïda d'un ham al seu extrem lliure

[Post 4764]

«Fora-da-lei»

A desacautelada

      «Ora, perante o grande número de foras-da-lei que aterrorizavam a zona [Carolina do Sul] em determinada altura, a população deu ao juiz Lynch carta branca para passar aquela que ficou conhecida como a lei de Lynch e que consistia na execução imediata do réu, dado como culpado, sem possibilidade de apelo e como parte integrante da sentença, execução essa que era feita nas instalações do tribunal e à vista de todos. Como se imagina, a injustiça, pela sua crueldade, passar desapercebida e o juiz que a praticou, John Lynch, deu origem ao verbo “linchar” e à expressão “ser linchado”» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 9.05.2011).
      Fora-da-lei é invariável, como se pode ver em qualquer dicionário: um fora-da-lei, mil fora-da-lei. Quanto a «desapercebida», é erro muito comum e já aqui tratado mais de uma vez. «Homem desapercebido, meio combatido», diz o adágio.

[Post 4763]

Regência de «induzir»

Como os partos

      A frase é inventada, mas talvez todos os dias seja escrito algo semelhante pelos jornalistas económicos: «Analistas consultados pelo nosso jornal afirmam que a necessidade de consolidação fiscal nas grandes economias ocidentais, incluindo EUA, Reino Unido e França, vai induzir a um crescimento reduzido da economia.» Ora, na frase o verbo induzir não é bitransitivo, como é nestoutra: «Os remorsos, e a vergonha do vil officio que exercitava o induziram a tentar uma empresa gloriosa, cujo feliz resultado lhe servisse de rehabilitação moral» (História de Portugal, Livro II, Alexandre Herculano. Lisboa: em casa da Viúva Bertrand e Filhos, 1853, p. 399). Na frase do nosso jornalista, induzir é causar, provocar, originar.
      Outra vez: «Analistas consultados pelo nosso jornal afirmam que a necessidade de consolidação fiscal nas grandes economias ocidentais, incluindo EUA, Reino Unido e França, vai induzir um crescimento reduzido da economia.»

[Post 4762]

Sobre «calaça»

Vem do porco

      «“Calaceiro” vem de “calaça” e a palavra, de origem grega, designava muito especificamente as partes da carne do porco que não eram aproveitadas para o consumo. Como se imagina, deviam ser muito poucas, pois que do porco, como bem se sabe, tudo se aproveita, até os pezinhos. De qualquer forma, calaça eram pois estes restos do porco e terá assumido o significado de “preguiça”, “mandriice”, porque os mendigos, ao baterem à porta das casas, pediam por calaça, ou seja, pediam as sobras, os restos quer de carne quer de outros alimentos. E da parte pelo todo, surgiu o termo “calaceiro” como aquele que pede calaça, sinónimo de mandrião, preguiçoso, que não trabalha e vive da mendicidade, à custa dos outros» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 6.05.2011).
      Lá terá as suas fontes. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não contribui para a elucidação da questão. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista a acepção antiga «foro que consistia numa porção de carne», mas trata-se de óbvia má interpretação do que diz Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo no seu Elucidário. Para o honesto Morais, calaça era a «costela de porco, ou banda». Quanto a «calaceiro», dá-o como derivado, provavelmente, do espanhol calabacero. «Parece ser a costa, ou banda de um porco» registou Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo.

[Post 4761]

Como se escreve nos jornais

A desorbitada

      «O arraso que os vários discursos presidenciais fizeram aos “políticos” e aos “partidos” pareceu-me também muito desadequado: todos eles foram e são políticos (sim, Eanes e Cavaco também).
      Além disso, não conheço democracias sem partidos. E, acima de tudo, penso que estas figuras de referência têm a obrigação de incentivar as novas gerações para a generosidade da política» («25 de Abril», Inês Pedrosa, Sol, 29.04.2011, p. 12).
      «Arraso» só pode ser linguagem de telenovela brasileira. A escritora não encontrou nada mais português. Sobre «desadequado», já aqui disse alguma coisa. E a regência do verbo incentivar é outra: incentivar a.
[Post 4760]

Como se escreve nos jornais

O orbícola

      «A filha de D. João VI, nascida em 1638, casou com Carlos II de Inglaterra em 1662. O matrimónio consolidou a aliança anglo-portuguesa, especialmente importante nas décadas subsequentes à Restauração. […] A estátua foi encomendada à escultora Audrey Flack, que concebeu uma enorme Catarina em bronze, com jóias, uma orbe nas mãos e uma tiara na cabeça» («Catarina e a estátua», Pedro Mexia, «Atual»/Expresso, 30.04.2011, p. 3).
      Todos erramos, eu sei — mas nem todos temos um revisor a corrigir-nos. D. Catarina de Bragança era filha de D. João IV, o Restaurador (1604-1656). D. João VI, o Clemente, nasceu mais de século e meio depois (1767-1826). São ambos reis muito marcantes para serem confundidos, de qualquer modo. Consultei doze dicionários da língua portuguesa, e em todos «orbe» é registado como pertencendo ao género masculino.
[Post 4759]

Catacrese

São só favas

      «Para quem ficou com água na boca, Hélio Loureiro revela os melhores truques para realçar o sabor das favas, como retirar-lhes a ‘camisa’, para ficarem mais macias. “A gordura e um toque de açúcar são também importantes”, lembra» («Malditas favas», Joana Ludovice de Andrade, Sol, 29.04.2011, p. 40).
      Quanto à gordura e ao açúcar, confirmo, a minha mãe ensinou-me o truque. Em relação à «camisa», parece-me catacrese escusada, pois sempre ouvi que as favas têm casca e pele. Porque, se a pele é a camisa, a casca é o casaco.
      A fava, sabiam?, é rica em iodo, e quem fala em iodo lembra-se de Marinho e Pinto e da recomendação que fez ao cronista Manuel António Pina (que aqui nos asseguram «que por acaso é um dos maiores portugueses vivos» — como é por acaso, custa menos a acreditar): «Senhor Manuel António Pina, não se atormente mais. O seu mal cura-se com uma dose apropriada de iodo. Trate-se! Vá para uma boa praia e... Ioda-se!»
[Post 4758]

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