Plural dos etnónimos

Perdeu, perdemos

      «Estudo na cama, estudo na lama», costumava dizer o Prof. Ruy de Albuquerque (com i grego, sim senhor). Mas Proust, enfermiço em busca da melhor posição, trabalhava sempre na cama, num quarto à prova de som. Ontem à noite, pus-me a estudar algumas questões na Moderna Gramática Portuguesa, de Bechara (37.ª ed. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2002), que já aqui citei hoje numa caixa de comentários. Ora vejam isto: «Por convenção internacional de etnólogos, está há anos acertado que, em trabalhos científicos, os etnônimos que não sejam de origem vernácula ou nos quais não haja elementos vernáculos não são alterados na forma plural, sendo a flexão indicada pelo artigo plural: os tupi, os nambiquara, os caiuá, os tapirapé, os bântu, os somali, etc.» (p. 129). Reparem: «Em trabalhos científicos», não no Público ou no Correio da Manhã. Na conferência em que se deliberou nesse sentido, o representante do Brasil ainda ponderou «que todos os escritores luso-brasileiros, inclusive um clássico da excelsitude de Vieira, sempre adoptaram a forma do plural nos nomes de tribos ou grupos indígenas, ad instar das demais coletividades humanas», mas ficou assim.

[Post 4741]

Sobre «savana»

Em maus lençóis

      E José Rodrigues dos Santos disse, no mesmo Telejornal, que o corpo de Bin Laden foi «despejado ao mar». É um grande escritor, conhecedor, como se vê, dos clássicos, que usaram a expressão despejar o inimigo para significar ir dando cabo deles. E também podia ter dito simplesmente que os Americanos se despejaram, o que significa desembaraçar-se de alguma coisa que estorva, incomoda. Mas isto agora não interessa.
      Para lá de Badajoz, os mais prudentes dão como incerta a etimologia do vocábulo «savana». Nós recebemo-lo do espanhol, sim, mas onde o foi buscar esta língua? Talvez, aventam alguns, a uma língua das Caraíbas. Há algo mais a dizer sobre «savana». Até falantes do espanhol confundem sabana, a nossa «savana», com sábana, o nosso «lençol» (proveniente do latim, e que no português antigo também se usava), pelo que não é muito surpreendente que Cândido de Figueiredo, no seu dicionário, tenha caído neste erro: «Assim se escreve e se lê geralmente, mas a pronúncia exacta é sávana.» E, em coerência com o aviso, dá-o como proveniente do espanhol sábana, «lençol». Mas isto foi no século XIX. Não afirmou Sá Nogueira que o Novo Dicionário, o melhor até então, era fraco nas etimologias?

 [Post 4740]

Como se fala na televisão

É da emoção

      Bin Laden lá pagou o tributo à Natureza, e a jornalista Márcia Rodrigues, em directo da zona de embate nas Torres Gémeas para o Telejornal, viu pessoas que «foram pagar um tributo às vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001». Imagino que só os sobreviventes dos atentados tenham recebido o tributo... Cara Márcia Rodrigues, não confunda as coisas: pagar um tributo é pagar uma taxa ou imposto; prestar tributo é prestar homenagem.
[Post 4739]

«Livre-pensador»: plural

O autor de Os Burros ensina

      «Mais tarde, em França, passaram a ser designados por libertinos os chamados livre-pensadores, e sobretudo aqueles que defendiam o fim do regime monárquico e que ditaram o fim da monarquia com a Revolução Francesa» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 2.05.2011).
      Vê-se e ouve-se muito por aí. Nome composto de adjectivo + substantivo: pluralizam ambos. Livres-pensadores. Oh, diabo!, ainda alguém virá dizer-me que «livre» é advérbio, e por isso não pluraliza. Livre-pensador é quem pensa livremente, logo será «livre-pensadores». Solto, sem hífen, ainda era mais fácil tirar esta conclusão: livre seria, sintacticamente, complemento circunstancial de modo. Há aqui, porém, pseudocircunstância, como afirma José R. Macambira (A Estrutura Morfo-Sintática do Português: Aplicação do Estruturalismo Lingüistico. Fortaleza: Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 1974, p. 304). Mas não, é adjectivo. Livre porque, em matéria religiosa, tem o poder de decidir por si próprio, porque pensa apenas segundo a razão, sem subordinação dogmática. Porque é que os dicionários, mormente os disponíveis em linha, não registam o plural dos vocábulos? Sr.ª Eng.ª Helena Figueira, é o próximo passo?
      «O homem sisudo não pode olhar sem indignação para essa interminável coorte dos que neste século se dizem livres pensadores, quando contempla o soberbo, e ultrajante gesto, ou amargo sorriso com que eles olham para o homem de bem, que fiel a seus princípios, e consequente em sua crença, e conduta, respeita sua Religião, e a reconhece divina em sua fonte, e sua origem» (Sermão contra o Filosofismo do Século XIX, José Agostinho de Macedo, Lisboa: Impressão Régia, 1811, pp. 7-8 [actualização ortográfica minha]).
[Post 4738]

O feminino de «todo-poderoso»

Quem fez isto?

      Talvez F. V. Peixoto da Fonseca tivesse razão: o feminino (e o plural) oficial de «todo-poderoso» é um disparate. «Todo» é advérbio? Recuamos e o que se lê sempre é (esqueçamos agora o hífen) todo poderoso, todo poderosos, toda poderosa, todas poderosas. Temos de esperar que se legisle noutro sentido.

[Post 4737]

Como se escreve nos jornais

O do triunvirato

      «O anúncio do grupo francês surgiu a poucas horas do início da cimeira bilateral entre a Itália e a França, em Roma, que promete ficar ensombrada por esta jogada gaulesa nada desejada pelo Governo romano» («Lactalis lança OPA à Parmalat para reagir a lei de Berlusconi», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 27.04.2011, p. 34).
      «Governo romano»: pensamos logo em Marco António, em Lépido e em Octávio, por exemplo. É uma figura de estilo, bem sei, mas vai a par do uso imoderado do termo «luso» na imprensa gratuita. «Jogada gaulesa» é outro produto do excesso de imaginação.
[Post 4736]

Léxico: «paparote»

Língua de sogra

      Está aí alguém que saiba — sem consultar nenhum dicionário — o que significa «paparote»? A minha sogra diz que dantes fazia muitos. Os dicionários mais antigos dão «piparote» e «paparote» como sinónimos. Contudo, actualmente, nem todos registam «paparote», como acontece com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Eu digo, eu digo: paparote é um caldo de castanhas piladas. Nenhum dicionário actual diz que «paparote» é a pancada com a cabeça do dedo médio ou indicador.
      (Quer rir-se, Fernando? O Flip 7 emendou repetidamente para «paparrote»; quando eliminei o sublinhado vermelho, apareceu a sublinha verde: «Regionalismo (sem sugestões).»)

[Post 4735]

«Seco/secado»

Não valia a pena

      Falava-se de uma semente, e depois dizia-se isto: «É salgada e secada ao sol.» Quatro cabeças, duas sentenças, com a maioria a afirmar que a frase citada está correcta. Que deva ser «salgada» não há dúvida, pois é verbo com um só particípio. Já o verbo «secar» tem dois particípios, secado e seco. Ora, como com os auxiliares ter e haver se utiliza a forma regular (em –ado ou –ido), e com os verbos ser e estar se usa, regra geral, a forma irregular, mais curta, correcto seria «seca», por se subentender ali a forma verbal «é»: «É salgada e [é] seca ao sol.» No dicionário de Morais lê-se, em abono desta interpretação: «Carvão, s. m. Matéria disposta para se acender, e conservar o fogo, ou sejam pedaços de madeira queimada, e apagada; ou a que se tira de minas sulfúreas, dita carvão de pedra; ou de uma espécie de terra pingue feita em talhadinhas, ou tijolinhos, e seca ao sol, a que os estrangeiros chamam turba, os Castelhanos; tourbe os Franceses.»
      A forma «secada» há-de estar ali por atracção: como o outro particípio tem a forma (única, como já vimos) regular, «salgada», este assume-a.

[Post 4734]

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