Ainda sobre «botar»

Botar discurso

      A propósito da obra de Antenor Nascentes Tesouro da Fraseologia Brasileira, já aqui referida, escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Devo confessar que não gosto de tal chamadoiro. Tratando-se de frases e expressões da língua portuguesa, embora registadas algumas peculiares ao Brasil, o título exacto seria Tesouro da Fraseologia Luso-brasileira. A maior parte das dições desta fraseologia partiram um dia nas caravelas portuguesas para Vera Cruz» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, pp. 212-13). Embora afirme que é obra meritória, também adverte que «elogios incondicionais não serei eu quem lhos dê». E escreve mais à frente: «No artigo de alma, ensina que — Botar a alma no inferno é “praticar pecado mortal”. Ora, há uma acepção muito importante que se devia mencionar, e de certo ocorre no Brasil.
      Qualquer pessoa arreliada com outra diz que essa outra lhe põe a alma no inferno, se ela a exaspera muito, fazendo-a irar-se a pontos de se perder, indo parar ao inferno» (idem, ibidem, p. 214). Sempre ouvi minha mãe usar a expressão «meter a alma no inferno». Pôr, meter... Botelho de Amaral prossegue: «Ainda outro dia, certa mãe, atarantada e zangada com o barulho dos filhos, lhes gritou que estivessem quietos, que lhe “metiam a alma no inferno”. O sentido não é o vago significado de “praticar pecado mortal”.» Aqui, Antenor não dormitou, asneou.

[Post 4733]

Sobre «usucapião»

Uso campeão

      Em Portugal e no Brasil, o bom povo — ou, para sermos mais precisos, um ou outro beira-corgo — diz «uso campeão» querendo dizer «usucapião» (aquisição pelo uso), esse termo da linguagem do Direito. Até se lê em certos requerimentos: «Fulano vem requerer uso campeão…» É a lei do mais forte. Ah, e não existe o verbo *usucapiar, mas usucapir. E «usucapião», como a maioria das nossas palavras em –ão, é feminino, ao contrário do que se escreve até em manuais de Direito e do que defendem alguns, como Edite Estrela e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. No Brasil, creio que é maioritário o uso do género masculino, seguindo, aliás, o que ali era oficial, consignado no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguêsa de 1943, por sua vez mera adesão à correcção que Rui Barbosa, esse génio (aqui a dormitar), fez no parecer sobre a redacção do Código Civil.
[Post 4732]
Actualização no dia 30 de Abril de 2011

      Como sou sempre o primeiro a afirmar, não é nada de decisivo, mas reparem que usucapião é do género feminino em italiano (usucapione), francês (usucapion), espanhol (usucapión) e inglês (usucapion). Em latim, ūsūcapĭō, -ōnis, donde nos chegou por via erudita, é palavra composta (usu+capio) e do género feminino. Talvez se possa atribuir a vacilação de género em português ao facto de usu, «uso», ser masculino.

«Beira-»

Por corgos e alcantis

      Beira-mar, beira-campo, beira-rio. Não conheciam a segunda, «beira-campo»? Ficam a conhecer. E «beira-corgo»? Corgo ou córrego, o caminho apertado entre montes. Não, não: beira-corgo é o homem rural, rude, sem instrução. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que ainda não esgotou os lusismos, já chegou a este brasileirismo: «indivíduo atrasado, inculto; caipira». «Homem atrasado»… é forte.
      Eu nem queria estas divagações. Beira-mar, beira-campo, beira-rio… mas beira Tejo? O Acordo Ortográfico de 1990 não sistematizou o uso do hífen.
      Não temos «beira-corgo», mas temos beira Corgo, o afluente do Douro que nasce na serra da Padrela: «Não há dúvida: — a prosa de Camilo, opulenta e vigorosa, simples e fraterna, tu cá tu lá com o trágico e o idílico, é a expressão natural da voz do seu sangue — pelo sangue paterno, voz da montanha, ora arrogante como se rompesse do seio dos alcantis, ora terna, como se viesse das belgas da beira Corgo; pelo sangue materno, voz do mar — bramido de vaga, no tumulto do desafio ou da peleja; ciciar de espuma, brando roçagar de cetim aos pés de Ângela ou de Raquel…» (Camilo no Drama da Sua Vida, Alberto de Sousa Costa. Lisboa: Livraria Civilização, 1959, p. 60).
[Post 4731]

Léxico: «melodismo»

A mesma cantiga

      «Este ano, a cantora [Poly Styrene] chegou a editar um álbum de originais, intitulado Generation Indigo, disco que, apesar de revelar heranças da música punk que a caracterizou no final dos anos 70, também evoca algum melodismo pop e uma aproximação à estética de bandas como os Gossip ou New Young Pony Club, que em muito foram beber ao trabalho de Poly Styrene» («Uma das vozes da primeira geração ‘punk’ britânica», Diário de Notícias, 27.04.2011, p. 47).
      Mais uma vez, nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam um termo que o Dicionário Houaiss acolhe: melodismo. Designa a preponderância do carácter melódico na composição musical.

[Post 4730]

Sobre «botar» e arcaísmos

Muito me conta

      No Portugal em Directo de ontem, na Antena 1, foi entrevistado o presidente de uma câmara municipal. Discurso normal, linguagem corrente, mas, de súbito, inesperado, sai um «botar». Regionalismo, claro, e não, como alguns crêem, arcaísmo. Isto mesmo afirmou F. V. Peixoto da Fonseca, mas acrescentou isto: «Só seria arcaísmo se se tivesse deixado por completo de usar a partir de 1500, mais ou menos.» Alguém sabe alguma coisa destas contas? Para mim, e decerto que para a maioria dos leitores, arcaísmos são palavras, formas ou expressões antigas, que deixaram entretanto de ser usadas. Podemos depois acrescentar que uns são arcaísmos lexicais e outros são sintácticos.
 [Post 4729]
Actualização no mesmo dia

      «Dizem que o português é o único idioma em que se botam as calças e se calçam as botas» (Os Pecados da Língua: Pequeno Repertório de Grandes Erros de Linguagem. 2.º Vol., Paulo Flávio e Paulo Sampaio. Porto Alegre: AGE, 6.ª ed., 2002, p. 40). No Brasil, é assim.

«Viste-la/viste-a»

A todos os reinícolas

      Na última emissão do programa Hotel Babilónia, a propósito de uma canção de Chico Buarque que foi censurada nos idos de 1975, disse João Gobern: «A parte instrumental passou; a parte da letra, viste-a.» Corte abrupto e de entono pedagógico de Pedro Rolo Duarte: «Viste-la
      Já sabemos que a conjugação dos verbos transitivos, seguidos do pronome o, a, os, as, obriga a substituir esta forma do pronome pela forma lo, la, los, las sempre que a flexão verbal termine em r, s, ou z. Ora, só pressupondo que João Gobern se estava a dirigir a várias pessoas é que seria essa a forma do pronome. Mas o programa é quase sempre um diálogo, um tu cá, tu lá que deixa os ouvintes de fora, não raro com piadas que só os próprios entendem.
      Leio em Sousa da Silveira (Obras de Casimiro de Abreu: revisão do texto, escorço biográfico, notas e índices. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1955, p. 3): «Bocage, em vez de vós viste-los, que corresponde a vós vistes-los, usou vós viste-os, suprimindo a vistes o -s final.»
      Vejam este texto de Vasco Graça Moura sobre o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa: «Fui também aos autores que constam das fontes. O Garrett escreveu “cordura ousada” (Camões, I, VI). A “cordura” evaporou-se. Do Camilo, ocorreram-me “reinícola”, “tabardão”, “gasofilácio”, “às canhas”, “regambolear”. Nicles. Do Aquilino, foi a vez de “coitanaxa”. Salvo erro, é o Malhadinhas quem diz, às tantas, que da coitanaxa fez dona. Pois a coitanaxa tinha-se posto ao fresco, a ingrata. Procurei “mátria”, termo tão prezado por Natália Correia.  Viste-la. Mário de Carvalho emprega “ergástulo”. Ó Mário, a palavra evadiu-se...»
      «Gasofilácio» não está em nenhum dicionário recente — nem devia estar. A etimologia obriga-nos a escrever «gazofilácio» (lugar onde se recolhiam as esmolas para o culto, no Templo de Jerusalém), e é esta a grafia que se vê em todos os dicionários.

[Post 4728]

Amálgama: «prosumer»

Isto também passa

      Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me lêem, alguém que tenha lido a expressão «vórtice crísico», forjada pelo ex-presidente Ramalho Eanes? Com todo o respeito — é de estarrecer!
      Nem tudo, porém, é mau. Os jornais continuam de olhos extasiados nos luminosos estrangeirismos, mas, pelo menos, honra lhes seja, já vão explicando de que se trata: «O “jornalismo participativo” dos prosumers, pessoas que são simultaneamente produtoras e consumidoras de informação (caso dos blogues), tem uma importância crescente só ultrapassada pelo imparável movimento das fugas» («Guerrilha mediática», Cristina Peres, Expresso, 16.04.2011, p. 41). Já é um avanço, e avanço conspícuo. O próximo é deixarem de usar estrangeirismos escusados.
[Post 4727]

«Dívidas recorde»

Isso passa

      Ontem, num comentário ao texto «É brasileirismo?» de um anónimo que começava por me increpar por dizer mal dos revisores da imprensa diária e acabava com calúnias dirigidas à honra de minha mãe, pelo meio, e tudo numa escassa linha, ainda se me aconselhava a ir trabalhar. Em compensação, por assim dizer, no Público, onde anteontem se podia ler «número-recorde» e «taxa-recorde», o que condenei aqui asperamente, ontem já se escrevia assim: «Cortes cegos, dívidas recorde e reformas que ficaram a meio» (João D’Espiney e Alexandra Campos, Público, 25.04.2011, p. 10).

[Post 4726]

Arquivo do blogue