Amálgama: «prosumer»

Isto também passa

      Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me lêem, alguém que tenha lido a expressão «vórtice crísico», forjada pelo ex-presidente Ramalho Eanes? Com todo o respeito — é de estarrecer!
      Nem tudo, porém, é mau. Os jornais continuam de olhos extasiados nos luminosos estrangeirismos, mas, pelo menos, honra lhes seja, já vão explicando de que se trata: «O “jornalismo participativo” dos prosumers, pessoas que são simultaneamente produtoras e consumidoras de informação (caso dos blogues), tem uma importância crescente só ultrapassada pelo imparável movimento das fugas» («Guerrilha mediática», Cristina Peres, Expresso, 16.04.2011, p. 41). Já é um avanço, e avanço conspícuo. O próximo é deixarem de usar estrangeirismos escusados.
[Post 4727]

«Dívidas recorde»

Isso passa

      Ontem, num comentário ao texto «É brasileirismo?» de um anónimo que começava por me increpar por dizer mal dos revisores da imprensa diária e acabava com calúnias dirigidas à honra de minha mãe, pelo meio, e tudo numa escassa linha, ainda se me aconselhava a ir trabalhar. Em compensação, por assim dizer, no Público, onde anteontem se podia ler «número-recorde» e «taxa-recorde», o que condenei aqui asperamente, ontem já se escrevia assim: «Cortes cegos, dívidas recorde e reformas que ficaram a meio» (João D’Espiney e Alexandra Campos, Público, 25.04.2011, p. 10).

[Post 4726]

Tradução do inglês

Escrever é cortar palavras

      Na última Puntycoma, Juan Luis Conde, a propósito da perda da sensibilidade no uso dos pronomes por influência da exposição à língua inglesa, aduz um exemplo interessante. Nos mapas urbanos com que os transeuntes topam nas ruas de Madrid (e de Lisboa, para o nosso caso), encontrarão uma localização marcada com um ponto vermelho (ou um círculo) e a legenda «Você está aqui». Conclui Juan Luis Conde: «De nuevo ese texto delata una erosión en la capacidad para percibir diferencias en la posición de las palabras, causada por seguidismo perruno de mapas urbanos originales en inglés, donde el pronombre precede inexcusablemente al verbo en las oraciones enunciativas. Pero, no, en castellano no es lo mismo “Usted está aquí” que “Está usted aquí”». Para o que nos interessa, a simples omissão do pronome resolvia a questão. Pior é a superabundância, nada consentânea com o génio da língua portuguesa, de pronomes possessivos nas traduções, numa cópia servil e impensada do inglês. Disso também se ocupa Juan Luis Conde e já foquei aqui no Assim Mesmo. Não é raro ter de eliminar centenas — leu bem, centenas — de pronomes possessivos nas traduções que revejo.

[Post 4725]


Léxico: «hebetude»

Pouco vista

      «Provocadora, parou dias desses numa banca de revistas na Oscar Freire e deixou o pobre do vendedor em estado de hebetude ao indagar se não tinha adesivo também para a vovó cadeirante» («Desculpe tocar no assunto», Humberto Werneck. O Estado de S. Paulo, 24.04.2011, C8).
      É palavra mais que rara. Significa entorpecimento, letargia, torpor, e actualmente só no âmbito da medicina é usada. Só esporadicamente surge na literatura. 
      «E o Joanico, voltado para a janela, encadeado da luz, pasmado, perplexo, a bôca aberta numa expressão de hebetude, repetia sempre, respondia sempre, como um eco:
      — Não sei... Não sei...» (Pátria Portuguesa, Júlio Dantas. Lisboa: A. M. Pereira, 1914, p. 181).

[Post 4724]

«Call center/call-center»

Perguntemos a quem sabe

      «Mande fazer uma son­dagem aí a umas 200 pessoas com o nosso call‑center a ver o que dá.» Sigo o que se recomenda no Livro de Estilo do The Times: «Call centre noun, two words; hyphen as adjective, eg, call-centre manager». O mesmo se recomenda, já aqui o vimos, em relação a fast food/fast-food.

[Post 4723]

Léxico: «antibioterapia»

Ficamos a saber

      Que nome se dá ao uso de antibiótico(s) no tratamento de infecções causadas por bactérias? Antibioterapia ou antibioticoterapia. «O diploma define desde já, no entanto, que a dispensa “abrange os medicamentos prescritos no momento da alta” e “a quantidade deve ser suficiente para os primeiros três dias após a alta, incluindo o dia da alta, exceptuando os antibióticos, que devem ser dispensados em quantidade suficiente à duração da antibioterapia”» («Medicamentos gratuitos após internamento até Abril de 2012», João D’Espiney, Público, 22.04.2011, p. 10).

[Post 4722]

«Recorde» como adjectivo

Valha-vos Deus!

      O Público continua, absurdamente, a ligar com hífen o adjectivo «recorde» à palavra que qualifica: «No final de 2009, mais de 563 mil pessoas estavam sem trabalho. Mas este número-recorde, que elevou para 10,1 por cento a taxa de desemprego, depressa foi ultrapassado» («Taxas-recorde de desemprego marcaram esta legislatura do PS», Raquel Martins, Público, 22.04.2011, p. 12). Os copidesques, que por sua própria boca proclamam não estar lá para rever, não se enxergam. Ide em paz e continuai a viagem.

 [Post 4721]

Itálico

Mais, mas no sítio certo

      O Público anda a usar mais itálico — mas será no sítio certo? É o que vamos ver. O Banco de Portugal (agora referido pela absurda abreviatura BdP) publica todos os meses um boletim estatístico. Será então o Boletim Estatístico do Banco de Portugal. E como referimos o mês? Bem, parece-me simples: Boletim Estatístico do Banco de Portugal referente ao mês de Abril. Por exemplo. Ou edição de Abril do Boletim Estatístico do Banco de Portugal.
      «De acordo com o Boletim Estatístico de Abril, só nos últimos três meses, o total confiado aos bancos atingiu 875 milhões de euros, ou seja, mais do que o valor canalizado para os CT [certificados de aforro], apesar das elevadas taxas que este último produto, associado à evolução da dívida pública, está a oferecer» («Poupança dos portugueses está a fugir do Estado para os bancos», Rosa Soares, Público, 22.04.2011, p. 18).
[Post 4720]


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