Pronúncia

Ainda ganha um prémio

      É quase inacreditável, eu sei, mas basta ouvir: na emissão de ontem do programa Histórias Assim Mesmo (Antena 1, 8.04.2011), dedicado à lenda das maias de Portalegre, Mafalda Lopes da Costa, das seis vezes que disse a palavra «Portalegre», quatro soaram «Porto Alegre». (Ainda se se tratasse de Estremoz...) A determinada altura, disse também que o rei Lísias foi ver da filha, Amaia, «e só encontrou o corpo».

[Post 4717]

«Houve»/«ouve»

O fim do mundo

      «O papagaio bate as asas e empertiga o seu peito, o Ruca ri quando o houve falar.» Confundir houve com ouve? Se tivermos 7 anos, não me parece grave. Já me parece é o cúmulo da desvergonha e da torpeza que uma empresa como os CTT continue a vender aos seus balcões uns livrinhos do Ruca com seis selos e erros deste jaez. É o contributo da empresa para a defesa da língua portuguesa. E os jornais, que anunciaram a colecção, calam-se.
[Post 4716]

Verbo «encher»

Seis cestos cheios de enchidos

      «No século XVII, em Inglaterra, os termómetros eram cheios com brandy em vez de mercúrio.» (Sabia, caro Fernando Ferreira?) Bem, a dúvida está em saber se é «cheios» ou «enchidos». O verbo encher, como muito bem lembrou F. V. Peixoto da Fonseca, só tem um particípio passado — «enchido». «Cheio» é adjectivo. Não sei se é fácil encontrar uma gramática actual que corrobore a afirmação.
      «— Há quem diga que ele não está na cova absolutamente. Que o caixão foi enchido de pedras. Que algum dia ele voltar [sic] de novo» (Ulisses, James Joyce. Tradução de António Houaiss. Lisboa: Difel — Difusão Editorial, 2.ª ed., 1983, p. 114).
[Post 4715]

«Embaixadora/embaixatriz»

É a crise

      «O Ministério dos Negócios Estrangeiros suspendeu desde janeiro o pagamento de complementos de reforma a viúvas de ex-embaixadores e antigos funcionários. Em resultado, cerca de vinte ex-embaixatrizes — a quem era reconhecido um trabalho de utilidade pública — ficaram reduzidas a pensões de sobrevivência de valor muito escasso, que em alguns casos não alcançam mais de 70 euros» («MNE suspende pensão a viúvas de embaixadores», Expresso, 16.04.2011, p. 48).
      Já é pacífico que houve especialização de sentido, e que embaixatriz é apenas a esposa de embaixador? E já viram a definição de «embaixador» no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa? Ei-la: «Representante do chefe de um Estado numa corte estrangeira.» E na Sexta-Feira Santa não trabalham, claro.
      «Só quem ha tratado com exemplares da especie pode avaliar a dose de impafia que incha o peito constellado da farda de um embaixador de carreira. Não ha na creação animal mais vaidoso... a não ser uma embaixatriz» (Cousas Diplomaticas, Oliveira Lima. Lisboa: A Editora, 1908, p. 259).
[Post 4714]

Sobre «rabo-de-saia»

É brasileirismo?

      «Mais grave foi a cena de ciúmes no Boujis em finais de Março de 2007. Kate detestava ver o príncipe no papel de ‘rabo de saia’ e, nessa noite, a reacção foi sair porta fora depois de se fartar de olhar para um ‘Crackbaby’, o seu cocktail preferido. As fotografias da humilhação motivaram queixa dela à Press Complaints Comission. Durante três meses não se terão encontrado, mas o amor acabou por vencer» («Ciúmes: Príncipe abandonado duas vezes», João Vaz, Correio da Manhã, 20.04.2011, p. 26).
      A acreditar no que registam os dicionários que consultei, que dão rabo-de-saia como sinónimo de mulher, habitualmente jovem, o senhor redactor principal teria errado. O príncipe William no papel de mulher... Posso estar enganado, mas é a única acepção usada em Portugal. Se consultarmos a Enciclopédia Brasileira Mérito (São Paulo: Editora Mérito, 1967, p. 464), vemos que «rabo-de-saia» tem essa acepção e a que foi usada no texto acima: «indivíduo que vive perto de mulheres». As aspas são tontice que só na cobardia do revisor encontram explicação.
      «Tinha, porém, umas bugigangas curiosas, esporões de galo, pés de galinha secos, medalhas, pólvora e até um chicote feito de rabo-de-raia, que eu li rabo-de-saia, coisa que me espantou, porque estava, estou e morrerei na crença de que rabo-de-saia é simples metáfora. Vi depois que era rabo-de-raia» (Diálogos e Reflexões de Um Relojoeiro, Machado de Assis. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1966, p. 298).

[Post 4713]

«Low tea»/«high tea»

E um pouco de Everclear

      Astronauta, cosmonauta, taiconauta... A próxima designação para o mesmo virá da Índia? O quê?! O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista o termo «taiconauta»?! Mas não venho aqui apenas por isto.
      Embora muitos ingleses não saibam distinguir low tea de high tea, nós sabemos. E como se vê traduzido? «It wasn’t an ordinary afternoon tea, it was a high tea.» «Não se tratava de uma merenda vulgar, era quase uma merenda-jantar» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 37). Sim, merenda-jantar: «Um paio apetitoso e rosado. Um empadão de carne. Manteiga em pratos de cristal. Uma leiteira azul cheia de leite. Mel. Uma compota caseira de morangos. Pastelinhos. Torta de frutas. Ovos. Chá, cacau e chocolate» (idem, ibidem). Hoje em dia, contudo, já poucos usam o termo «merenda».
[Post 4712]

«White as a sheet»

Há de tudo

      «She’s white as a sheet...» «Ela está branca como a cal…» Mas já uma vez vi a expressão traduzida por «branca como uma folha»... Ah, pois. E a expressão, variante daquela, «branco como a cal da parede» será mais encontrável no Alentejo, como se sugere pela sua inclusão na obra A Linguagem Popular do Baixo Alentejo e o Dialecto Barranquenhode Manuel Joaquim Delgado (Beja: Assembleia Distrital de Beja, 1983, p. 132)?
      «O Carvalho sabia pior do que isso: um amigo dele, o Pinheiro, não o magro, o outro, o picado das bexigas, que tinha estado escondido num curral de porcos seis horas. Ia morrendo. E quando via um porco punha-se branco como a cal» (Alves & Ca., Eça de Queirós. Lisboa: INCM, 1994, p. 114).
[Post 4711]

Emprego do artigo definido

Com ou sem artiguinho?

      Original: «Everyone gets in position...» Tradução: «Todos tomaram as posições...» Lembrei-me logo de um comentário verrinoso de Camilo a uma obra em que lera que alguém «cortara as relações» com certo indivíduo. Como quem «corta as unhas», zombou Camilo. Ora leiam o que mestre Aquilino escreveu precisamente na obra O Romance de Camilo: «Quando hospedada em casa do negociante Agostinho Francisco Velho, Rua de D. Maria II, Ana Plácido era visitada por uma criatura, que se dizia prima dela e chamar-se Cândida. Viria ela convencer a pecadora a cortar as relações com o romancista, a título de que ainda era tempo de arrepiar caminho, perdoando Pinheiro à transviada» (O Romance de Camilo, 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Gleba, 1957, p. 322).
      Tomar posição: «Desceram de rondão as escadas, e no atrio para onde davam as portas ameaçadas, tomaram posição e ordenança de guerra» (O Arco de Sant’Ana, II, Almeida Garrett. Lisboa: Imprensa Nacional, 1859, p. 232).

[Post 4710]

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