«Wrap sb (up) in cotton wool»

Mal sabido

      «Got to be wrapped in cotton wool and all that, sir», lia-se no original. Parecia mesmo um dos tais holismos de que já aqui falámos, e por isso o tradutor verteu assim: «Tem de ser tratado com paninhos quentes e tudo isso, senhor.» Mas não: wrap sb (up) in cotton wool é trazer ou andar com alguém nas palminhas, ou seja, apaparicar, tratar com meiguice, com muito carinho (como se lê na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira). Eça de Queirós usou muito a expressão. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista «trazer (alguém) nas palmas». Vai um exemplo de um coetâneo, D. João de Castro: «— Não sei lá de isso! — exclamou. — O caso é que o trazem nas palminhas, lá por Lisboa. Até querem (mas isto é segredo...) até querem fazel-o barão!» (Morte de Homem. Lisboa: Empreza da História de Portugal — Sociedade Editora, 1900, p. 7).
     Os paninhos quentes fazem parte de outra expressão: não estar com paninhos quentes, ou seja, não ter contemplações, não transigir. A lã enganou o tradutor.
[Post 4709]


Tradução: «by heart»

De cor

      Assim, humildemente, cumprem-se logo de uma assentada três das sete obras espirituais de misericórdia: dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram. «Gael», lia-se no original, «knows these hypocrites off by heart.» Como era previsível, o tradutor verteu desta maneira: «Gael conhece estes hipócritas de cor.» Pergunto: alguém alguma vez ouviu ou leu a expressão referida a pessoas? Sim, by heart é habitualmente traduzido por de cor, mas decerto que é preciso pensar. De qualquer modo, de maneira geral, os falantes confundem de cor com de cor e salteado. Na tradução, não seria melhor usar a expressão de ginjeira? Coloquial também, significa conhecer muito bem e já há muito tempo. De cor conhecer-se-ão poemas, uma oração, uma carta recebida da nossa namorada (quando ainda se escreviam cartas), a primeira crítica num jornal, etc. De ginjeira conhecemos alguns dos nossos amigos, parte da nossa família, o fideputa do vizinho de cima, etc.
[Post 4708]

«Um dos que/uma das que»

Uma das causas… que estão

      A emissão de ontem do Jogo da Língua não merece ser vilipendiada. Mas… «A frase correcta é a B: “Essa é uma das causas que estão na origem da doença.” E porquê? Portanto, hoje no nosso Jogo da Língua temos uma questão sintáctica. O verbo estar deve ser conjugado no plural, portanto, estão, uma vez que esta frase contém dois verbos, o verbo ser e o verbo estar, que têm sujeitos diferentes. O sujeito do verbo ser é o demonstrativo “essa”, e o sujeito do verbo estar é o relativo “que”, referente ao nome “causas”. Ora, uma vez que este substantivo “causas” se encontra no plural e esse relativo “que” se refere a “causas”, então o verbo tem de ser conjugado também no plural. Se nós invertermos a ordem dos elementos da frase, perceberemos melhor. “Das causas que estão na origem da doença, essa é uma delas.” Portanto, sempre que temos a expressão um dos que/uma das que, temos sempre de ter o segundo verbo no plural» (Jogo da Língua, Sandra Duarte Tavares. Antena 1, 18.04.2011).
      Já aqui tínhamos visto esta questão, também tratada por Napoleão Mendes de Almeida, que escreveu: «Um dos que — O verbo vai para o plural ou fica no singular conforme a ação verbal se refere a todos os indivíduos ou a um só» (Napoleão Mendes de Almeida, Gramática Metódica da Língua. São Paulo: Saraiva, 3.ª ed., 1965, p. 404).
[Post 4707]

«Tulipa/túlipa»

«Tulipa» ou «túlipa»?

      Se o sábio Gonçalves Viana escreveu nas Apostilas aos Dicionários Portugueses (II, 511) que o acento não deve recair no i porque é vogal epentética, temos de nos calar. Ou talvez não. Vejamos. Não é nada de decisivo, mas, se vejo muitas vezes escrito com acento, não me lembro de alguma vez a ter ouvido ser pronunciada como esdrúxula. (Primeira ilação: dou-me com as pessoas erradas.) Cheguei a esta reflexão porque estava aqui a ver que o tradutor verteu Flat Place por País das Túlipas. E cá está, esdrúxula, dactílica ou proparoxítona no venerando Morais. Que achais?
[Post 4706]

«Ódio de estimação»

Controversos, pois

      «Controversos dá nome à novidade que irá girar em torno de “figuras que são mais polémicas, não tão lineares como as anteriores”. “São figuras de que eu gosto, mas são figuras polémicas que suscitam paixões e alguns ódios nem que sejam de estimação”, reconhece Goucha, admitindo que desconfia sempre “daquelas pessoas de que toda a agente gosta”» («“Quero entrevistar o Pinto da Costa”», Sara Oliveira, «Notícias TV»/Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 80).
      Saberá o “grande comunicador” o que são ódios de estimação? Pergunta retórica, claro. É muito interessante o sentido que o vocábulo «estimação» tem numa frase como esta: «Não posso, a minha hérnia de estimação não me deixa.» Como é que se passou de algo positivo, agradável, para algo negativo, desagradável? Mistérios da língua.

[Post 4705]


Maiúscula

Senhor engenheiro

      «Por outro, a força e magnetismo da sua música eram tais que muitos reagiram por antinomia, indo buscar elementos a universos exteriores à tradição erudita e, inclusivé, europeia, ou então recuperando elementos caídos em desuso, inaugurando as várias tendências que lançaram um olhar retrospectivo e selectivo sobre a música de épocas prévias ao Romantismo» («As seis décadas que mudaram a face e a geografia da música», Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 51).
      Sem acento, senhores jornalistas: inclusive. E o romantismo não precisa de aparecer assim grelado, já que os nomes de movimentos artísticos, literários, políticos, etc., terminados em –ismo se escrevem com minúscula inicial: romantismo. Uma empresa de engenharia (posso dizer o nome?) anda aqui no prédio e, numa das reuniões (gostam muito de reuniões, estes tipos), o chefe disse que faltavam /aitens/ no caderno de encargos. Ri-me, mas disfarcei bem.

[Post 4704]

Sobre «workshop»

Uârkchopes

      Outra coisa irritante: escrever-se, a torto e a direito, workshop. Não há edição de jornal que não traga pelo menos um workshop. E como o País tem muito que ensinar e que aprender, é todos os dias. Agora, porém, vai-se insinuando, ainda a medo, claro, um termo português: oficina. «Prática de primeira hora é a programação de oficinas dirigidas aos mais novos (desde bebés até aos 11 anos), que decorrerão na Fábrica das Artes, frente ao Jardim das Oliveiras [no Centro Cultural de Belém]» («Oficinas, concertos narrados e mais», Bernardo Mariano, Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 51). Diz rigorosamente o mesmo, reparem, e é nosso, não precisa nem de aspas nem de itálico. E toda a gente percebe. Entretanto, deixemos que discutam e queiram saber o género do anglicismo.

[Post 4703]

Miscelânea

Três coisinhas

      1. Lusitania, Ok! teleseguros, Açoreana… São nomes próprios, sim, mas forjados, inventados. Logo, porque não Lusitânia, Telesseguros, Açoriana? Seria menos rendoso.
      2. O chefe, muito reputado, mandou dizer que era mesmo «abóbora Hokkaido bebé» que queria escrever, e não «abóbora-menina». (Nem potimarron, supomos.) Seria menos saborosa.
      3. Num espaço aberto (open space, como agora se acha inevitável dizer e escrever), até o paginador se intromete na conversa do director. Este falava em CDS (credit default swaps, uma espécie de seguro que os credores contratam para se protegerem de perdas no caso de os Estados não cumprirem as suas obrigações de reembolso dos títulos) e do valor que dantes tinham. «O Partido do Táxi», comenta o paginador. Espaço compartimentado seria menos democrático.

 [Post 4702]



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