De «mamarracho» a «mono»

Não valia a pena

      «O polémico projecto para construir um edifício de grandes proporções num dos cantos do Largo do Rato sofreu novo revés: uma associação cívica desencadeou uma acção popular destinada a anular o licenciamento camarário da obra, que ainda não arrancou» («Associação cívica desencadeia acção popular em tribunal contra o “mono do Rato”», Ana Henriques, Público, 14.04.2011, p. 28).
      Ao edifício demasiado grande ou de proporções desagradáveis (como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora) não se deu sempre o nome de mamarracho? Bem, é certo que «mono» quer dizer mais ou menos o mesmo. Querem fugir de um castelhanismo, mamarracho, para caírem nos braços de outro, mono. Sim, porque, apesar de os dicionários afirmarem que este último é de origem obscura, nos veio evidentemente de Espanha.

[Post 4689]



Léxico: «idadista»

Antes assim

      «Os portugueses são muito idadistas. Até os velhos mais malandros, mais magros e atilados do que eu, como o Marcelo Rebelo de Sousa, sempre que me vêem perguntam-me, cruel e gulosamente, com que idade é que estou. Logo de seguida informam-me que são (mas não estão, dizem eles) mais velhos do que eu. Mas estão. Estão porque são. Nunca a confusão portuguesa do ser e do estar foi mais acintosamente aproveitada» («Gostei de te ver», Miguel Esteves Cardoso, Público, 14.04.2011, p. 39).
      Ora, decerto que se lembram de eu aqui ter revelado que o neologismo «idadismo» já por aí corre. Talvez Miguel Esteves Cardoso se tenha lembrado.

[Post 4688]

«Trata-se de»

Cuidado com a língua

      «Por que razão não podemos ter a estrutura B, com o verbo tratar-se no plural? Porque, neste contexto sintáctico, o verbo tratar-se é um verbo impessoal, e sendo um verbo impessoal, nunca flexiona no plural. Aaa... com o significado de, de dizer respeito a, imagina que eu falo, que eu digo à Filomena: “Trata-se de”, estamos a falar de, de... candi... dum grupo de candidatos a determinado projecto, eu digo “trata-se de excelentes candidatos, de candidatos de alto nível”, e não “tratam-se”, porque eu estou a referir-me a eles, digo respeito a eles» (Jogo da Língua,  Sandra Duarte Tavares. Antena 1, 13.04.2011).
      «Digo respeito a eles»?! Vamos lá dormir, valha-me Deus, já chega de disparates.

[Post 4687]


Selecção vocabular

Puro, leal, franco

      «O que nem toda a gente sabe é que “sincero” tem a ver com “cera”. “Sincero” deriva do latim sincerus, que quer dizer “sem cera”. Ora, na Antiguidade clássica, quer no teatro quer em outras manifestações representativas, como cortejos ou pequenas encenações, os actores usavam máscaras feitas à base de cera» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 15.04.2011).
      Quando depara com a expressão «manifestações representativas», o ouvinte pensará em muitas outras realidades que não a da encenação, a dramatúrgica. Infeliz escolha de palavras. «Ter a ver» toda a gente agora diz e escreve, nanja eu. «À base de» melhor seria «na base de» ou «com base em». Isto para não deitar fora a «base», porque há outras formas de dizer o mesmo.

[Post 4686]



Tradução: «to question»

É só pensar

      Senhora tradutora, já é a terceira vez que traduz o verbo to question por questionar, e o contexto é sempre o mesmo: a polícia a submeter a interrogatório um suspeito. «De acordo com as leis contra o crime de terrorismo, é-nos permitida a utilização de técnicas optimizadas quando questionamos suspeitos, e isso é perfeitamente adequado.» «Questioning suspects». Então não é interrogar que se diz?

[Post 4685]

«Implantação/implementação»

Não aprendem

      Isso de tudo ter limites não se aplica à estupidez, acho eu. Todos ou quase todos os jornais têm uma secção ou mesmo um suplemento dedicado ao todo-poderoso sector do imobiliário. O meu também tem, claro. Ultimamente, os jornalistas trocam, confundem — agarrem-se bem! — «implantação» com «implementação». Um exemplo real: «A X anunciou o arranque da comercialização do Y em Cascais. O empreendimento é composto por 12 edifícios de apartamentos integrados numa área de implementação de 20 000 m2.» Ora, meus caros colegas e grandes melgas, a área de implantação de um edifício corresponde à área do solo (compreendido no lote) que é ocupada pelo volume total desse edifício. O que sobra, se sobrar, de espaço ao ar livre que não seja ocupado por esse volume denomina-se logradouro. Não me parece é que, como em tantos outros casos, os dicionários expliquem isto muito bem.

[Post 4684]

Sufixo «–(z)inho»

Mas depressa

      Em inglês: «Ar, come ’ead, Camilla, just give us a li’l blowie.»  Em português (mas com um erro): «Ah, ‘bora lá, Camilla, faz-me um brochesinho.» É óbvio que é com z, matéria comezinha mas afinal mal sabida ou ignorada mesmo por quem vive da escrita, da tradução. A questão, por ora, é diversa. Às paroxítonas terminadas em /i/ junta-se o sufixo –zinho (bulebulezinho), e mais raramente, -inho (não vamos agora discutir se se trata de dois sufixos ou de um e sua variante), como em dentedentinho. Em teoria, admitir-se-á brochinho. Falta saber se alguém usará este diminutivo. Voltarei ao tema, que já abordei aqui.

[Post 4683]


Só hoje descobri que a TVG, televisão galega, tem um programa diário (!) de cinco minutos, Ben Falado!, dedicado à língua, que já vai quase em 500 emissões. Já está aqui na barra ao lado.

«Tipo sarna»

Ovelha ronhosa

      Sem som, parecia mesmo bom. «Os 10 maiores mitos da Língua Portuguesa». Não faz a coisa por menos. Foi pena ter acabado o espectáculo com uma fífia das grandes: «Porque “ronhoso” deriva do substantivo “ronha”, é uma doença que os animais têm tipo sarna.» Como bordão, é dos mais irritantes da língua dos nossos dias. Onde posso reaver o preço do bilhete?

[Post 4682]

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