Sobre «pedofilia»

Tome um lenço, vá

      Por vezes, ouço o Jogo da Língua, na Antena 1, ultimamente com a participação de Sandra Duarte Tavares, professora de Língua Portuguesa no Instituto Superior de Educação e Ciências (ISEC) e consultora do Ciberdúvidas. Dirigido ao ouvinte comum, com escassos conhecimentos linguísticos, umas vezes com erros, quase sempre com inanidades, o programinha lá vai dando a conhecer um pouco melhor a língua. A emissão de hoje era sobre o elemento de composição filo-. «Vou falar só… vou terminar, fazer um remate com uma palavra que eu detesto, e que possivelmente a maiori… toda a gente detesta, que é o substantivo “pedofilia” ou “pedófilo”, são ambos substantivos, e que o seu… cujo significado original era “amigo da criança”. [...] Convém esclarecer também, acerca desta palavra, que nós não gostamos.»
      Tanta emoção e tanta confusão... Pois eu gosto das palavras «pedofilia» e «pedófilo», são eruditismos que honram a matriz da língua.

[Post 4677]

«Para além de»

Também tu

      «Acontece que a assinatura Kindle do FT, para além de não ter contrapartida impressa, em papel cor-de-rosa e bem ilustrado, só nos deixa as últimas sete edições no disco. Depois, somem. As edições do FT são-nos emprestadas. Podemos guardá-las, se quisermos, mas dá trabalho. É como assinar um jornal e entregar-lhes a chave de casa para virem buscar os exemplares antigos. Poupa árvores e reconhece que a inércia da papelada é um vício que nos prejudica mais do que nos dá prazer» («Como assinar?», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.04.2010, p. 31).
      Nem Miguel Esteves Cardoso evita estas perluxidades na escrita. Caro Miguel, alivie-se do para, basta escrever além de. «Acontece que a assinatura Kindle do FT, além de não ter contrapartida impressa, etc.»


[Post 4676]



«Enformar/informar»

Dar forma a

      «É evidente que dentro de um critério estritamente formal é isto um pecado contra a economia que deve enformar qualquer sequência narrativa e a fluência do plano que esta pressupõe» (Vida e Obra de Raul Brandão, Guilherme de Castilho. Lisboa: INCM, 2006, p. 234). «Ferrerinha, primeira vinicultora do Alto Douro, dera o nome à firma, e assim se chamava desde longe e se chama ainda. A designação, pelo feminino, participava ao tempo do espírito que enformava as coisas inglesas sob o signo da rainha Vitória» (O Romance de Camilo, II, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 271).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, enformar é «dar forma a» — e só se pode, nesta acepção, escrever assim, ficando o parónimo informar reservado para outras acepções. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, esta acepção é partilhada por ambos os verbos, ou seja, «dar forma a» é indiferentemente «informar» e «enformar». Nesta acepção, sempre usei somente o verbo «enformar». E os meus leitores?

[Post 4675]



«Considerar como»

E em Camilo?

      «A humanidade, que toma cada dia consciência da unidade dos valores humanos, considera-os como um património comum e, face às gerações futuras, reconhece-se solidariamente responsável pela sua salvaguarda.» É um excerto da Carta Internacional sobre a Conservação e o Restauro dos Monumentos e dos Sítios, de 1964.
      Intuitivamente, omitiria a partícula «como». Consultemos, agora que está tão à mão, a Sintaxe Histórica Portuguesa, de Epifânio Augusto da Silva Dias. (Actualizarei sempre a ortografia.) «Imitando a sintaxe francesa, o português moderno constrói frequentemente o verbo considerar com a partícula como:
      o numeroso clero das paróquias vizinhas considerava-o como o mais venerável entre os seus irmãos no sacerdócio (Herc. Eurico, 18)» (p. 38). 
      Estará legitimado e explicado, mas pergunto-me se Camilo também usou a partícula nesta construção.

[Post 4674]

Sobre «desagarrado»

Livre, solto

      «Entretanto, o político mais “desagarrado” do poder (desculpem a palavra) ia a Matosinhos tratar da sua periclitante situação. “O PS está todo comigo?”, perguntou ele. O PS estava fervorosamente, absurdamente, histericamente com ele. Este jornal classificou a coisa como “um extraordinário momento de propaganda”; e com razão. Não me lembro de ouvir nenhum primeiro-ministro pedir com tanto descaro num congresso a confiança pessoal, que Sócrates pediu» («Uma crise de nervos», Vasco Pulido Valente, Público, 10.04.2011, p. 36).
      Homessa, pedir desculpa porquê?! Desagarrado é portuguesíssimo. Camilo usou-o a flux. Vá um exemplo colhido nas Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado: «Se eu não fosse tão desagarrado do alheio, há muito que a nossa filha estava casada com ele; mas tu embirraste com o rapaz, e fizeste aquele despautério quando íamos para Santa Ana de Oliveira... Valha-te Deus, valha-te Deus!...» Eu teria tido mais pruridos em usar «descaro». Sim, parece derivado regressivo de «descarar», mas vejo-o muito mais em obras espanholas que portuguesas. Ou será uma questão de sobrevivência: em espanhol persiste, é ainda agora usado, ao passo que em português quase o deixou de ser.

[Post 4673]


«Manilargas»?

O mãos-largas

      «Vêm aí dias sovinas. Os manilargas de outrora, dos grandes projectos e das obras do regime, vão ser substituídos (às vezes sem ser preciso mudar de pessoal) por forretas públicos, que cortam e contam todos os cêntimos que se atrevam a ser avulsos» («O futuro forreta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 9.04.2011, p. 35)
      Miguel Esteves Cardoso também poderia ter escrito large-handed ou openhanded — mas preferiu o termo espanhol. Manilargo(a) é espanhol e significa o que tem mãos compridas. Em sentido figurado, é liberal, generoso. Também em sentido figurado, mas não registado no DRAE, é o ladrãozeco (ladronzuelo), que não o ladravaz. (E lembram-se de Artaxerxes Longímano?) Quando li a crónica, julguei recordar que José Pedro Machado registara a palavra, mas não. Regista, isso sim, manilongo, e a Real Academia Española devia copiar o verbete: «Manilongo, adj. e s. Que ou o que tem mãos longas.║Fig. Influente, poderoso.║Larápio.» Não me surpreendia que tivesse sido usado por algum autor português (e agora por dois), mas manifestamente não precisamos do vocábulo. Temos um só nosso.

[Post 4672]





(A propósito de coisas nossas: já está na barra do lado direito a hiperligação para a Sintaxe Histórica Portuguesa, de Epifânio Augusto da Silva Dias, um dos heróis de Montexto. Descarreguem e leiam-na.)


«Compactidade»

Qualidade do que é compacto

      A língua é o que é e não aquilo que queremos que seja. Ontem perguntaram-me que nome se dá àquele que revela bonomia. Pois é. Agora, trata-se de algo semelhante, mas já resolvido (veremos se bem ou mal). Que nome se dá à qualidade ou estado daquilo que é compacto? Ocorre-nos logo, se tivermos a cabeça no lugar, compactidade. Foi o termo a que chegou — sem mérito especial, pois é a forma encontrada por Rebelo Gonçalves no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa — Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca numa consulta no Ciberdúvidas. Mas estará dicionarizado? Não me parece. O termo que por aí corre — e tenho as provas de uma obra sobre urbanismo à minha frente em que se usa — é compacticidade. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e o Dicionário Houaiss registam compacidade, mera colagem ao francês compacité, derivado irregular. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora deixa tudo nas mãos do leitor: regista compacidade, compactidade e compacticidade. A escolha está feita.


[Post 4671]


Como se fala na rádio

Precipitar-se no abismo

      Numa composição, uma aluna escreveu que as colegas «aficçaram um cartaz com os trabalhos do Carnaval». Uma colega declarou todos os rapazes «maliducados». Jornalistas em embrião. Mas vamos ao que interessa.
      «[…] e reza a lenda que terá sido erguida sobre as ruínas de uma outra, de uma pequena ermida dedicada a uma imagem de Nossa Senhora que terá misteriosamente aparecido no promontório do cabo Espichel, isto, claro está, há muitos, muitos anos atrás. […] Pouco depois, um clarão de enormes proporções, uma luz intensíssima iluminou toda a costa, vinha do alto de um promontório, e graças a ela o navio viu com clareza a costa, conseguiu evitar despenhar-se nas rochas e chegar a bom porto» (Mafalda Lopes da Costa, Histórias Assim Mesmo, 8.04.2011).
      Sobre «uma outra» e «há anos atrás» já adverti várias vezes. Um navio pode despenhar-se nas rochas? Despenhar-se não é precipitar-se, cair de grande altura? Só se fosse uma lancha voadora! Junto à costa há bons despenhadeiros, sim, mas para quem está em terra.



[Post 4670]


(A propósito: actualizei a hiperligação aqui ao lado para os dicionários de Bluteau e de Morais, verdadeiros monumentos da língua portuguesa.)  

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