Léxico: «buliço»

Vai aparecendo

      «Longe do buliço habitual, quando as salas de audiências estão repletas, assumiu ser o autor dos delitos cometidos. E não terá sido apenas na zona de Telheiras (bairro que acabou por lhe ficar associado à alcunha), mas ainda noutros locais, como Alfragide, Linda-a-Velha ou Olivais, onde supostamente cometeu crimes idênticos, que só não vão a julgamento por não existirem participações» («“Violador de Telheiras” confessa crimes e diz-se arrependido», José Bento Amaro, Público, 25.03.2011, p. 16).
      Buliço é variante de bulício pouco usada. Nos últimos tempos, só num texto da autoria de Sofia Lorena (a jornalista da «cidade-berço») no Fugas, numa tradução e hoje neste texto. E quanto a dicionários? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a regista. Em contrapartida, tanto o Dicionário Houaiss como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acolhem-na, registando tratar-se de termo antigo. Sim, mas subsiste. Ademais, percebe-se melhor a ortografia de «buliçoso» através desta variante.

[Post 4612]

«Dição», de novo

Que já nos ocupou

      Vasco Botelho de Amaral, acabei de o descobrir agora, explicou porque usava «dição» e não «dicção»: «Em reforço do que escrevi no vol. I dos Estudos Críticos (em análise às Bases da Ortografia Luso-brasileira), ao responder em A Voz (n.º de 22-III-47) ao Prof. Sá Nunes, fiz observar: “Note-se que as outras línguas mantêm o c tanto no termo primitivo como no derivado: diction, dictionnaire; diction, dictionary; diccion, diccionario. O italiano e o português, porém: dizione, dizionario; dição, dicionário.” Portanto, cientificamente, a “dicção” do Acordo é inaceitável como forma obrigatória» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 175).
      Não nos leva esta argumentação a pensar no caso da queda do p em Egipto, porque mudo, e a sua manutenção nas derivadas?

 [Post 4611]

«Khadafi/Kadhafi»

Se forem coerentes

      «Depois de terem atacado posições de Khadafi na estrada que liga Ajdabiya a Bengasi — cidade-berço da revolta que estava sob cerco quando a operação internacional começou, sábado —, assim como bases militares ao longo da costa, os aviões estrangeiros concentraram-se nos últimos dias em Misurata, tentando impedir o coronel de ali fazer chegar reforços» («França abate avião de Khadafi em Misurata», Sofia Lorena, Público, 25.03.2011, p. 19).
      Não, não vou tecer mais comentários em relação a «cidade-berço». Que se enxerguem. Sobre o nome do ditador líbio, sim. No Público, é Khadafi. No Diário de Notícias, é Kadhafi. Está tudo bem, desde que escrevam sempre da mesma forma. Também pode escrever-se Cadáfi, Kadafi, Gadhafi, al-Khaddafi, al-Qadhafial-Khadafi...
      Multímodo, multifário, como o próprio homem.
[Post 4610]


«Dignar(-se)»

Resta indignarmo-nos

      Nas «Cartas à Directora» do Público de hoje, podemos ler uma resposta do Centro de Estudos do Curso de Relações Internacionais, da Universidade do Minho («na qualidade de representante dos alunos de Relações Internacionais desta instituição») a um artigo de 13 do corrente de Maria Filomena Mónica. Eis um excerto dessa carta: «A segunda pergunta é, no mínimo, irónica. E nós respondemos-lhe com outra pergunta: será que a doutora Maria Filomena Mónica se deu ao trabalho de olhar para o conteúdo e para o plano curricular das licenciaturas em Relações Internacionais? Quanto à qualidade dos docentes nem dignamos essa pergunta com uma resposta, por considerarmos que é demasiado desrespeitosa, ainda para mais vinda de alguém que também é docente.»
      Tiveram quase duas semanas para escrever a resposta, mas saiu isto. Nem dignar nem dignificar. Dignar-se é um verbo pronominal, regular, da 1.ª conjugação. Há verbos que guardam a forma reflexa facultativa, como ir-se ou ir, rir-se ou rir, sorrir-se ou sorrir, mas não este. Dignar-se, à semelhança de muitos outros, como abster-se, arrepender-se, ater-se, atrever-se, esforçar-se, queixar-se, etc., trazem preso a si, como disse o gramático Rocha Lima, um pronome reflexivo fossilizado. São, como alguns autores os classificam, verbos pronominais essenciais, por oposição a verbos pronominais acidentais. Terão já reparado que a forma pronominal é utilizada na maior parte dos verbos que indicam sentimentos.
      Esta é também a oportunidade para dizer que antigamente a gutural g não era articulada neste verbo e em vozes como benigno, maligno, etc. (E, por vezes, surgiu mesmo uma variante sem essa consoante, como «malino», ainda hoje usada e dicionarizada.)
      Já agora, as perguntas de Maria Filomena Mónica eram estas: «Os promotores da manifestação de ontem são todos licenciados em Relações Internacionais. Isto habilita-os a quê? Alguém se deu ao trabalho de olhar o conteúdo destes cursos? Os docentes que os regem sabem do que falam? Duvido» («Os mitras, os boys e os betos», Público, 13.03.2011, p. 3).

[Post 4609]


Léxico: «acantonar»

Quem se queima que assopre

      Garrett usou assossegar; Herculano, Camilo, Antero de Figueiredo e outros usaram também assossegar e asserenar, lançando mão de um recurso, a próstese, de origem claramente popular. No adagiário não faltam estes verbos, e sobretudo assoprar. Jorge Mourinha, na sua crónica de hoje no Público, no que me parece uma espécie de hipercorrecção (outros virão atrás de mim increpar-me a complacência), usou o verbo «cantonar»: «E falar dele [Artur Agostinho] como “homem da rádio”, como alguns noticiários fizeram, equivale a cantoná-lo num papel que, se foi o mais importante da sua carreira, foi apenas uma parte dele — e, ironicamente, a parte que menos dirá a muitos daqueles que hoje se recordam dele das novelas ou dos talk-shows onde era convidado regular» («Artur Agostinho», «P2»/Público, 24.03.2011, p. 10). (Quanto à substância da crónica, se é que pode descortinar algo remotamente parecido, pode ser resumida no último parágrafo: «Mas é significativo que tanto Júlia Pinheiro como Jorge Gabriel estivessem verdadeiramente emocionados ao encerrarem as suas emissões da manhã de terça-feira: isso diz mais sobre Artur Agostinho do que dezenas de obituários.»)
      Em espanhol, sim, existe o verbo cantonar, que significa o mesmo que o nosso «acantonar» (e acantoar, variante). Quanto às formas prostéticas, não faltam, mormente na oralidade: alevantar, amostrar, alimpar, abaixar... E, imorredoiro, aquase.


[Post 4608]

«Pago/pagado»

Sua Excelência o Gosto

      Tem muita razão no que escreve, caro M. L., mas veja o que já Vasco Botelho de Amaral escreveu sobre o assunto: «Devemos fugir às extravagâncias da expressão, ainda que tenhamos por nós a licença da veneranda Gramática.
      Esta ensina que pagado é um particípio regular com legítimo emprego, principalmente com os verbos ter e haver. No entanto, a linguagem tem os maiores imprevistos. E assim é que se está a assistir à preferência por antigas formas participiais, como pago, tinto, escrito, etc., e ao desprezo das regulares, como pagado, tingido, escrevido, etc.
      Tenho aqui a Lírica, de Camões. Abro-a, à pág. 40 (ed. de 1932), e leio: “Um amor tão mal pagado.”
      Hoje, porém, o nosso gosto o que levaria a dizer seria — um amor tão mal pago.
      É que Sua Excelência o Gosto é muito despótico, e, por isso mesmo, inconstante, contraditório.
      E as línguas obedecem-lhe cegamente, no que ele tem de bom e no que tem de mau.
      Camões gostou do pagado. Mas nós agora não gostamos; preferimos pago.
      Não vai nisso nenhum mal ao Mundo nem à língua» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 292).


[Post 4607]

Sobre «confecção»

Isso depende

      O original dizia que, quando a personagem voltou, «she set herself up making wedding cakes». Na tradução, lê-se que se «dedicou à confecção de bolos de noiva». Ora, o mais habitual é ouvir o vocábulo «confecção» para referir o fabrico e o próprio vestuário de senhora ou de homem. Como é? Nesta última acepção, «confecção» é galicismo evitável (mas que, porém, não foi evitado). Na acepção de acto de confeccionar, o seu uso é correcto. Se não tivesse incorporado, ao longo dos séculos, vocábulos de outras línguas, o português seria hoje um idioma muito mais pobre, sem dúvida. Todavia, o falante responsável sabe que somente quando os recursos próprios faltam é que deve lançar mão de vocábulos de outras línguas.


[Post 4606]

Como se fala na rádio

À empreitada

      «Ser um velho do Restelo. De uma pessoa conservadora, antiquada, ultrapassada, parada no tempo, de alguém que resiste à mudança e para quem qualquer empreitada parece impossível de realizar, de alguém que apregoa a desgraça, diz-se que é um velho do Restelo» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 24.03.2011).
      Vasco Botelho de Amaral tinha sempre a preocupação, não apenas de apontar o erro, mas de tentar explicá-lo, o que nem sempre é possível, convenhamos. Neste caso, julgo perceber porque foi usado o vocábulo «empreitada» em vez de, por exemplo, «empresa» ou «empreendimento». Como «empresa», como o passo claramente exigia, na acepção de obra ou desígnio levada a efeito por uma ou mais pessoas; trabalho, tarefa para a realização de um objectivo, tem um recorte literário e clássico, é muitas vezes substituído por outro termo; «empreendimento», por seu lado, que passou nos últimos tempos a designar quase exclusivamente a organização formada para explorar um negócio, foi evitado. Não direi, como Fernando Venâncio, que Mafalda Lopes da Costa está a falar para gente já salva, mas não é com erros que se ensina ou informa ou deleita.
      A última vez que aqui referi mais um deslize ouvido naquele programa, um anónimo deixou o comentário, que não publiquei, pois claro, em que afirmava que eu tinha um problema mal resolvido com Mafalda Lopes da Costa. Uma análise de génio, de que não quero continuar a privar os meus leitores. Há-de ser a conclusão de todos os visados (família e amigos) nos meus textos.

[Post 4605]

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