Sobre «sereia»

Não o ser lendário

      «Subitamente a sereia do barco apitou muito alto por duas vezes» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 20).
      Eis outro termo que, nesta acepção, está a cair em desuso, se não caiu já. Sereia. Ora vejam o que se passa com o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Regista esta acepção, sim, mas de uma forma muito ínvia. Não será, decerto, a segunda acepção: «Física aparelho acústico usado para determinar a frequência de um som.» Passemos ao verbete de «sirene», a variante mais usada: «instrumento que produz um sinal sonoro de alarme ou de chamada», como primeira acepção, e «sereia», como segunda. Todavia, esta «sereia» só pode ser o tal aparelho acústico usado para determinar a frequência de um som. De «sirene» não há, como devia, nenhuma remissão para «sirena», mas fomos consultar o verbete desta variante. «Sirena» não tem definição, apenas uma remissão → sereia. Agora pergunto: quem tem a desfaçatez de afirmar que isto está bem feito?
[Post 4596]

Sobre «desafio»

Desafiante

      «— E ela vai sempre aos desafios da escola e farta-se de gritar, não é, João? — interpôs-se Maria da Luz» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 45).
      Qualquer jornalista da secção de desporto sabe que deve usar de vários sinónimos para «jogo» como forma de evitar repetições. Jogo, encontro, partida e desafio são os principais. A verdade, porém, é que a palavra «desafio», nesta acepção, está a ser pouco usada actualmente.
[Post 4595]

Tradução: «gangway»

Todos a bordo

      «— Anda por aí — informou Filipe. — Creio que em breve estaremos a navegar. Repara, estão a retirar as pontes. Vamos já partir!» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 21). «Os garotos riram-se ao ver um rapaz alto e desengonçado subir a prancha» (idem, ibidem, p. 42).
      Tanto num caso como no outro, no original foi empregada a mesma palavra: gangway. Aliás, até já vi este termo ser traduzido de outra forma: escada do costado (como se lê em A História do Mundo em 10 Capítulos e ½, Julian Barnes. Tradução de José Vieira de Lima. Lisboa: Quetzal, 1990). Agora a questão é: são sinónimas estas três formas, ponte, prancha e escada do costado, de traduzir o vocábulo inglês? Paulo Araujo, o nosso homem da Marinha, poderá dar uma achega. E podemos complicar se indagarmos da forma de traduzir as expressões inglesas quarter ladder ou stern ladder.
[Post 4594]

Tradução: «er»

Em português, sff

      «‘Er — who won at deck tennis?’ he said feebly» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 75). Hoje em dia, não é raro os tradutores deixarem por traduzir — como se interjeccionássemos assim! — esta interjeição inglesa que expressa hesitação. Há quarenta anos, não era assim: «— Aa... quem ganhou o ténis? — perguntou ele com voz sem timbre» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 70). Aa¹ não está dicionarizada como interjeição, ao contrário, por exemplo, de ahn, que também serve para revelar hesitação.

[Post 4593]


¹ Mas temos o substantivo (!) aa, que designa uma espécie de lava máfica (ferromagnesiana e de cor escura), de superfície áspera, desigual, com fragmentos irregulares, vocábulo porventura só conhecido de geólogos e cruzadistas.


«Mogataz/mogataces»

Substantivo masculino plural?

      Boa questão, caro C. L., mas, tanto quanto sei, em português o vocábulo só está dicionarizado no plural, mogataces. José Pedro Machado redigiu assim o verbete: «Soldados indígenas de cavalaria, que constituíam guarnição dos antigos presídios espanhóis, no Norte de África.» Em espanhol, contudo, regista-se o uso do singular, mogataz. A meu ver, pode usar-se legitimamente o singular.

[Post 4592]

Léxico: «mauriciano»

Outra lacuna

      Consultamos o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, e só encontramos «mauritano». É mais uma lacuna de quase todos os dicionários: a designação dada ao habitante ou natural da ilha Maurícia (ou Maurícias ou Maurício) não tem aqui acolhimento. É mauriciano, claro, mas também já vi ser usado «maurício».

[Post 4591]

Ortografia: «Álbion»

O acento da pérfida

      Cara Maria Luísa: há-de ser porque o termo já vem dos Romanos, e por isso sem acento, e um espanhol, Augustin Louis Marie de Ximénèz, que lhe acrescentou o qualificativo «pérfida», escreveu com outro acento. Em português, porém, só pode ser Álbion, esdrúxulo como outros vocábulos terminados em –ion: astérion, córion, obélion... (Sim, porque terminados em –on temos também vocábulos graves.) Por isso a vacilação Albion, Albión, Álbion.


[Post 4590]

Gentílico: «laurentino»

Agora Maputo

      Relativo a Maputo: maputense. E relativo a Lourenço Marques? Temos dois: lourenço-marquino e laurentino. Parece que este foi forjado por Humberto Avelar, professor do Liceu 5 de Outubro, agora Escola Secundária Josina Machel. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista o gentílico «laurentino».

[Post 4589]


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