Tradução: «white horses»

Estamos no mar

      «Andros pôs o motor em andamento. O gasolina dirigiu-se para fora do pequeno porto, deixando para trás o Estrela dos Mares, belo, mas silencioso. Em breve se encontraram no mar alto, avançando aos pulos sobre os carneirinhos brancos que se levantavam de vez em quando» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 139).
      No mar, sim, mas por cima: carneirinhos (que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa ignora o que seja) são certo tipo de nuvens. Carneiro é cada uma das pequenas ondas de uma carneirada, que é um conjunto de pequenas ondas espumantes. E em inglês, sabem qual a palavra para «carneiros» naquela acepção? Talvez algum animal, também? Sim: white horses.

[Post 4568]


«Terremoto/terramoto»

Perdulária

      «No Financial Times de sábado, alguém comparava os terramotos no Japão com o de Lisboa, de 1755. A lição era que Lisboa sofreu e pagou muito mais, em pessoas e dinheiro» («As marés pretas», Miguel Esteves Cardoso, Público, 15.03.2011, p. 31).
      O P. António Vieira, que Miguel Esteves Cardoso leu, empregou também terramoto. A 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL — oh vergonha! — esqueceu-se de registar esta variante. Vejam a riqueza da nossa língua: terremoto, terramoto, terromoto, sismo, abalo sísmico, tremor de terra... Sim, excessiva, bastava um. Curiosamente, talvez o último, «tremor de terra», seja tão pouco português como «sismo», pois vem do francês tremblement de terre. Na escrita não sei, mas na oralidade quase de certeza «terramoto» é o mais frequente.

[Post 4567]

«A braços com»

Digam-lhe

      «O quinto maior sismo de que há memória na Terra, com uma magnitude de 8,9 graus na escala de Richter, seguido de um tsunami devastador, na sexta-feira, deixou o Japão também a braço com uma crise nuclear, principalmente na central de Fukushima 1,250 quilómetros a norte de Tóquio» («Crise nuclear no Japão não deverá ser igual ao acidente de Tchernobil», Teresa Firmino, Público, 15.03.2011, p. 4).
      Pois é, mas a locução é a braços com, ou seja, em confronto com, envolvido com. De uma maneira geral, os jornalistas não prezam tanto a língua que se dêem ao trabalho de consultar dicionários.

[Post 4566]

Tradução: «exciting»

Heavens!

      «It all sounded very exciting. They went round the ship, thrilled with everything» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 16). «Tudo parecia emocionante. Andaram por todo o barco, encantados com tudo» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 20).
      Se fosse agora traduzido, era inescapável: «exciting» seria «excitante». Na televisão, em todos os canais infantis, ouço constantemente a interjeição «Céus!». E há anos que não se assente de outra forma que não dizendo «certo». Há quem ache tudo isto normal, sobretudo assistentes universitários.

[Post 4565]

Modismos

Se me provarem que

      Já em 1969: «— Oh, o João fica contente logo que visiona qualquer coisa que lhe proporcione pássaros — comentou Maria da Luz a rir. — Ao pensar em Filipe, com a sua loucura por toda a espécie de bichos, e em João, com a sua paixão por pássaros, sinto-me contente por nós, raparigas, não termos paixões por qualquer outra coisa. Tia Lia, que belo plano o seu! Quando partimos?» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, 14).
      Já andou aí pelo ar este modismo de «visionar» em vez de «ver». Não, é claro, na acepção de entrever com dificuldade, pressentir, avaliar (também para esta temos sinónimos melhores), mas no sentido de examinar (um filme, diapositivo, etc.) num aparelho óptico. E o que diz o original? Isto, tão-somente: «‘Jack’s happy so long as he’s somewhere that will provide him with birds’, said Lucy-Ann with a laugh. ‘What with Philip whit his craze for all kinds of creatures, and Jack with his passion for birds, it’s a good thing we two girls haven’t got crazes for anything as well. Aunt Allie, it’s a wizard plan of yours. When do we go?’» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 9).

[Post 4564]

Tradução: «earwig»

Hum...

      «What about those earwigs you had once — that escaped out of the silly cage you made for them? Ugh! And that stag beetle that did tricks? And that—» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 4). Como teria sido traduzido aquele earwigs para português? Vamos ver. «— E aqueles fura-olhos que tiveste uma vez e fugiram da porcaria daquela gaiola que fizeste para eles? Ui! E aquele escaravelho que fazia habilidades? E aquele...» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, pp. 10-11).
      Só queria chegar a isto: fico quase sempre de pé atrás, como revisor e como leitor, quando nas traduções aparecem nomes comuns de animais e de plantas. Earwig será mesmo fura-olhos? Este é o nome comum das libélulas. O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora regista como tradução de earwig «bicha-cadela». O Michaelis dá como equivalentes «forfícula» e «lacrainha», e comprovo no Dicionário Houaiss que «bicha-cadela» é a designação equivalente em Portugal para «lacrainha».

[Post 4563]

«Tsunami/maremoto»

Falha do Marquês de Pombal

      É digno dos tempos que se vivem, com a tecnologia de que se dispõe: no sábado, estranhava aqui que os dicionários, com excepção do Houaiss, não registassem o substantivo «camuflado». Hoje, segunda-feira, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa passou a acolhê-lo. Como adjectivo: «Mil. Diz-se de ou fardamento que pode ser usado para camuflagem em operações militares.» Como substantivo: «Peça de vestuário, geralmente em tons de verde e castanho, semelhante a esse fardamento militar.»
      Bem, mas não vim aqui ufanar-me de nada. Queria apenas reflectir sobre a necessidade de se usar «tsunami» em vez de «maremoto». «A zona de maior risco sísmico para Portugal está localizada a sul de Sagres, na denominada Falha do Marquês de Pombal, justamente porque foi ali que ocorreu o sismo de 1755, seguido de um maremoto, que hoje todos designamos como tsunami» (Gualter Ribeiro, Portugal em Directo, 14.03.2011). Tanto quanto pude pesquisar, ora se afirma categoricamente que são conceitos diferentes, ora que são sinónimos. D’Silvas Filho, que sugeriu a forma «sunâmi» (!), ouviu certa vez um sismólogo explicar (só não revelou o nome) a diferença entre tsunami e maremoto.

 [Post 4562]


TCIC: Ticão

Superjuiz no Ticão

      «Direcção-Geral ainda não terá pago um complemento ao magistrado por acumular o ‘ticão’ [Tribunal Central de Instrução Criminal] com a jurisdição militar» («Juiz sem parte do ordenado», C. R. L., Diário de Notícias, 14.03.2011, p. 28).
      De uma tiçoada precisava o jornalista (e de duas o revisor): então só por ser grande, um aumentativo, deixa de ser nome próprio? Ticão escrevem, e escrevem bem, a revista Sábado e o i. Quando os meus olhos pousaram na palavra, pensei que tivesse caído a cedilha ao pedaço de lenha ou de carvão aceso ou meio queimado. Invulgar, aqui, é somente a adjunção do sufixo de sentido aumentativo a um acrónimo.


[Post 4561]

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