Tradução: «chiller»

Frio, frio

      «A trigeração é um processo em que se faz o aproveitamento total da energia produzida pelos motores. Como o nome indica, esta é usada em três vertentes: energia eléctrica, aquecimento e arrefecimento. “Os três motores a gás natural que vão ser instalados terão uma capacidade total de produção de energia de 7,3 megawatts, algo que dá para alimentar o equivalente a 15 mil habitações”, referiu João Oliveira. Parte desta energia será vendida à Rede Eléctrica Nacional e a outra parte será usada para aquecimento dos edifícios e de águas. Vão ser ainda instalados dois chillers de absorção, com uma potência total de 4,3 MW e um chiller eléctrico de 3 MW, para arrefecimento do edifício durante o tempo quente» («Nova central no Hospital de São João evita lançar 3700 toneladas de CO2 para a atmosfera», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 42).
      E não se podia — o que acha, caro Fernando Ferreira? — traduzir por «arrefecedor»? O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — oh vergonha — não regista «co-geração», quanto mais «trigeração». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por sua vez, acolhe somente «cogeração», assim, sem hífen.

[Post 4556]

«Sumô/sumo»

相撲 

      Ainda Jacques Chirac: «É um bon vivant, que aprecia a boa comida, o desporto (é conhecida a sua paixão pela modalidade do sumô), foi um feroz consumidor de cigarros e não se amedronta em dizer em público frases pouco simpáticas para países ou líderes políticos, como sucedeu durante o período da segunda guerra do Golfo» («Um presidente francês sem vergonha nem glória», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 12.03.2011, p. 44).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «sumo», a grafia mais habitual. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa por esse nome só conhece o líquido orgânico extraído ou libertado de uma matéria vegetal ou animal ou o cume, o cimo. É grafia preferencialmente brasileira, como judô, metrô, puré, bebê, canapê, bidê... Está registado com esta grafia no Dicionário Houaiss.


[Post 4555]

Uso do latim

De pé atrás

      Abel Coelho de Morais traçou hoje, no Diário de Notícias, o perfil (mais um termo com uma definição deficiente no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa) de Jacques Chirac. Eis um excerto: «Noutra ocasião, menosprezou a gastronomia britânica ao dizer que um povo que cozinha assim “não é de confiar”. O que, cum grano salis, não deixa de ter algum fundo de verdade» («Um presidente francês sem vergonha nem glória», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 12.03.2011, p. 44).
      Posso estar a avaliar mal, mas creio que o jornalista apenas quis alardear que conhece uma expressão latina, mas saiu-se mal. Cum grano salis traduz-se, literalmente, por «com um grão de sal». Dito por outras palavras, significa que se deve temperar o que alguém disse ou escreveu, porque revela um exagero de qualquer natureza. Ou seja, sem ser falso, é conveniente que seja visto com algumas reticências. Aderir, da forma que o jornalista o fez — «não deixa de ter algum fundo de verdade» — mesmo que com tais arrevesadas cautelas, à afirmação de Chirac é inconcebível. 

[Post 4554]

Sobre «intergeracional»

Para rever

      Mário Rui Cardoso, no noticiário da 5 da tarde na Antena 1: «Prossegue o protesto da Geração à Rasca, um protesto que junta gerações. Tem sido assim na manifestação em Lisboa, Olívia Santos, um protesto intergeracional.»
      O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o único que regista o adjectivo «intergeracional», define-o como o que é «relativo às relações entre gerações (ex.: conflito intergeracional)». Mas será uma definição correcta? Pensemos noutro adjectivo semelhante: «intergovernamental». A definição daquele dicionário é a seguinte: «Realizado entre dois ou mais governos.» É o uso mais frequente a condicionar a definição. A clarividência louca de um Dr. William Chester Minor atinaria com (a) melhor definição.

[Post 4553]


Sobre «camuflado»

Escondido, disfarçado

      Sempre dissemos, como Montexto, «dicionários, por melhores que sejam, nenhum suficiente, todos necessários». Por estes dias, a surpresa foi não ver registado em nenhum dicionário — com excepção, mais uma vez, do Dicionário Houaiss — o substantivo «camuflado». Nem sequer nesses dicionários que há por aí que acolhem acriticamente tudo, quais albergues espanhóis. «Roupa, geralmente de carácter militar, com cores e padrões que permitem fácil camuflagem.» O galicismo camouflage, «disfarce», entrou na língua portuguesa durante a Grande Guerra. No século XVI, pelo contrário, é que, como já aqui vimos, os soldados, que não eram obrigados a um modelo uniforme, usavam trajes vistosos, garridos.


[Post 4552]

Sobre «charuto»

Etimólogo/tarólogo Dr. Caos

      Está aqui uma crioula imensa e velha e nua a fumar charuto. Está, salvo seja, é literatura. E a propósito, trago aqui Agostinho de Campos: «A primeira conclusão [de que em Portugal se chamou algum tempo cigarro ao charuto, como nas mais línguas europeias] deve estar certa e confirma-a a expressão castelhana puro, que neste caso é a abreviatura de cigarro puro (todo de tabaco), por oposição a cigarro de papel (enrolado em papel, e não em tabaco)» («Os belos charutos e as míseras “ilhas” do Pôrto», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 31—32). Pois é, charuto parece que veio do tâmil através do inglês cheroot, e apenas no início do século XIX. Isto dizemos nós, que os Ingleses afirmam, numa humildade rara neles, que receberam a palavra do tâmil através do português no fim do século XVIII.

[Post 4551]


Português arcaico

Quamdo foi sabudo pello reino

      Hans Christian Andersen também era «moço de corda» (sem ser títere...). Por causa do medo de incêndios, andava sempre com uma grande corda na mala. A ideia era, ao mínimo sinal de fogo, poder descer por uma janela. Só falo em cordas, porém, por propósitos suicidas ou homicidas. Vejam: no laboratório, foi apresentado um texto eciano e uma professora, que aparenta ter saído há menos de dez anos da faculdade, considerou-o «fácil, porque apresenta um Português arcaico fácil de identificar». Eça de Queirós, português arcaico... Que dizem os meus leitores destes sólidos conhecimentos de parte do nosso professorado?
[Post 4550]

Regência do verbo «presidir»

Presidir 

      «Apesar de ter nascido em Weehawken, na Nova Jérsia, EUA, os pais de Owen Jacob Laster eram imigrantes da Polónia e da Ucrânia. […] Pouco depois acabaria por “herdar” muitos dos seus escritores e em 1989 presidia todas as operações literárias da empresa, a nível mundial» («Dos mais poderosos agentes literários da sua geração», Diário de Notícias, 11.03.2011, p. 47).
      No sentido de dirigir como presidente, alguns autores clássicos usaram-no assim, sem preposição. A regência mais usada, porém, é a que recorre à preposição: «Este reconhecimento fe-lo nas mãos de Guido, ou anteriormente á partida do legado, nos fins de novembro de 1143 para presidir ao synodo de Gerona, ou depois d’isso, supondo que elle veiu a Portugal antes de regressar para Roma» (História de Portugal I, Alexandre Herculano, 3.ª ed. Lisboa: Bertrand e Filhos, 1863, p. 341). No excerto do artigo do Diário de Notícias, contudo, a acepção que se infere é a de orientar, nortear, superintender (semelhante, sim, mas não igual) e esta pede preposição: Presidia a todas as operações literárias da empresa.

[Post 4549]

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