«Herculano», pronúncia

Repita lá

      No programa Páginas de Português desta semana, que acabei de ouvir, alguém (um actor, decerto) leu a carta premiada do mês, na rubrica «Uma Carta É Uma Alegria da Terra». O texto referia Alexandre Herculano. «Olha o Hérculano...», ouviu-se. Leiam e digam-lhe, por caridade.

[Post 4532]


Ortografia

Um pouco de severidade

      «O Parlamento açoriano, através do PS, rejeitou a proposta do CDS-PP que visava a criação de um pacote “atractivo” de viagens a São Jorge, destinado aos caçadores das outras ilhas do arquipélago e do Continente, para incentivar o abate do coelho bravo, que tem vindo a causar severos danos à agricultura local» («O coelho que aflige a ilha de São Jorge», Paulo Faustino, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 44).
      Às vezes, também lhes chamam, neste mesmo jornal, coelhos-bravos: «Dissimulado entre a erva alta, bem camuflado na sua pelagem castanho-acinzentada, um coelho-bravo pasta calmamente, mas sempre atento aos predadores» («A fuga aos ziguezagues da extinção», Mariana Correia de Barros, Diário de Notícias, 26.07.2009, p. 60). Mas esquecem-se, coitados.
      E os «severos danos» são, logo seis linhas mais à frente, «sérios prejuízos».

[Post 4531]

«De forma a/por forma a»

Sendo assim

      «Por forma a» ou «de forma a»? Responde Sara Leite: «O problema — que não é um verdadeiro problema — está na escolha entre uma e outra, quando o objectivo é usar correctamente a nossa língua: é que a locução de forma a é desaconselhada pelos puristas, que a consideram um galicismo desnecessário (ver Ciberdúvidas) mas, por outro lado, a expressão por forma a ainda não foi dicionarizada, portanto também não será 100% correcta, se quisermos ser completamente rigorosos.»
      Ai isso é assim? «Não foi dicionarizada, portanto também não será 100% correcta»? Para sermos rigorosos, cara Sara Leite, há outras formas de dizer o mesmo.

[Post 4530]


Léxico: «recuperador»

Por um triz

      «Numa pequena sala da base aérea militar do Montijo, três homens vestem-se para entrarem em acção. Fatos de neoprene, capacetes, coletes de salvamento, faca na perna. Na manga salta à vista o emblema da Esquadra 751 com o respectivo lema: “Para que outros vivam”. São recuperadores da Força Aérea Portuguesa (FAP), pescadores de vidas em mares revoltos. Foi graças a estes homens, que trabalham pendurados por cabos presos a helicópteros, que 2520 vidas foram salvas pela Força Aérea Portuguesa ao longo dos últimos 33 anos» («Homens que salvam vidas pendurados em helicópteros», Luís Fontes, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 22).
      O príncipe William (ou direi melhor Guilherme, como se lê na Infopédia?) é co-piloto de um helicóptero de resgate. Os colegas serão recuperadores. A acepção ainda não chegou aos dicionários. Felizmente, ninguém se lembrou (e até eu devia estar caladinho, mas os meus leitores são sensatos) de dizer que são rescuers.

[Post 4529]

«Mandado/mandato»

N.º tal, mas ordem

      «Renato Seabra pode ser extraditado para Portugal? Embora penda já sobre o ex-manequim um mandato para deportação [n.º 88441941], tal só terá efeito quando for libertado» («Dúvidas jurídicas ensombram o futuro de Renato Seabra», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 69).
      Só não aprende quem não quer, e alguns jornalistas recusam-se a aprender. Julgam que aprenderão fazendo. Tudo o que outros já pensaram é-lhes irrelevante. Quantas vezes já aqui falei da confusão entre «mandato» e «mandado»? E mais: não deveria ser ordem de deportação?


[Post 4528]

Linguagem

Estágio na primária

      Alberto Gonçalves conseguiu ver a última emissão do programa Prós e Contras, e sobreviveu para nos contar alguns momentos: «Por regra, as criaturas em questão [os jovens convidados] comunicavam através de lugares-comuns do género “O futuro é nosso!”, ou de puros disparates, de que a insistência na palavra (?) “proactividade” era um dos mais irritantes. Não vi os infelizes que, na tese dos Deolinda, estudaram para ser escravos. Vi meninos estragados pelos pais e pelo ensino indigente a reclamar os privilégios que supõem beneficiar as gerações anteriores e que, a julgar pela retórica pedestre, estudaram pouco. Um deles evocou a queda de Mubarak. Outro proclamou solene: “Não ‘deiem’ estágios mal remunerados.” É improvável que lhes ‘deiem’ estágio algum» («Basta de realidade», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 71).
      É também a tese de João Pereira Coutinho: esta geração quer a vida que os pais e os avós tiveram, a mesma segurança e certeza. Não há-de é haver divergência sobre a ignorância com que falam e escrevem. «Deiem» existe — mas em catalão: deia, deies, deia, dèiem, dèieu, deien. Logo, em catalão todos dirão, e bem, «dèiem», em português só os ignorantes. E não apenas dizem, senão que escrevem, é ver por essa Internet fora. Da evolução do latim para o português sim, a epêntese, o fenómeno fonético que consiste no acrescentamento de fonema ou sílaba no meio de palavra, foi crucial.

[Post 4527]


Ortografia: «bicha-de-rabear»

Carnavalesco

      «A coisa atingiu tais proporções que a municipalidade reagiu com uma série de posturas muito severas, que acabaram com esse Carnaval vândalo que já vinha de muito longe na capital. Os estalinhos, as bombinhas de mau cheio [sic], as bichas de rabiar e as bisnagas de água da minha juventude eram os sucedâneos mais industriais do vasto arsenal improvisado e de fabrico caseiro dos carnavais alarves» («O Carnaval que Lisboa já não tem», Eurico de Barros, «DN Gente»/Diário de Notícias, 5.03.2001, p. 9).
      Caro Eurico de Barros, é «rabear» que se escreve. Rabear, agitar o rabo ou a cauda. Rabiar é parónimo: ser tomado por sentimento de raiva; enfurecer-se, enraivecer-se. Não se envergonhe, por quem é, de consultar dicionários e prontuários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e outros dicionários mandam escrever com hífenes, «bicha-de-rabear». Mas vai passar, com o Acordo Ortográfico de 1990, a ser grafado «bicha de rabear».

[Post 4526]


Como se escreve nos jornais

De calças curtas

      «[Umberto Eco] Confirma com o interlocutor qual é a língua em que se vai falar. A resposta é o francês, que, aliás, tinha sido solicitado via agente anteriormente. De vez em quando, colocar-se-ão algumas palavras britânicas pelo meio, quando falta a expressão gaulesa exacta» («O terrorista intelectual», João Céu e Silva, «DN Gente»/Diário de Notícias, 5.03.2001, p. 2).
      «Via agente», «palavras britânicas», «expressão gaulesa»... E «colocar», meu Deus...
      E mais: «Ele é piemontês porque eu precisava de o pôr numa época histórica. Seria incapaz de me enfiar nas calças de um estrangeiro, enquanto nas de um piemontês isso é-me muito mais fácil.»

[Post 4525]

Arquivo do blogue