Estágio na primária
Alberto Gonçalves conseguiu ver a última emissão do programa Prós e Contras, e sobreviveu para nos contar alguns momentos: «Por regra, as criaturas em questão [os jovens convidados] comunicavam através de lugares-comuns do género “O futuro é nosso!”, ou de puros disparates, de que a insistência na palavra (?) “proactividade” era um dos mais irritantes. Não vi os infelizes que, na tese dos Deolinda, estudaram para ser escravos. Vi meninos estragados pelos pais e pelo ensino indigente a reclamar os privilégios que supõem beneficiar as gerações anteriores e que, a julgar pela retórica pedestre, estudaram pouco. Um deles evocou a queda de Mubarak. Outro proclamou solene: “Não ‘deiem’ estágios mal remunerados.” É improvável que lhes ‘deiem’ estágio algum» («Basta de realidade», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 71).
É também a tese de João Pereira Coutinho: esta geração quer a vida que os pais e os avós tiveram, a mesma segurança e certeza. Não há-de é haver divergência sobre a ignorância com que falam e escrevem. «Deiem» existe — mas em catalão: deia, deies, deia, dèiem, dèieu, deien. Logo, em catalão todos dirão, e bem, «dèiem», em português só os ignorantes. E não apenas dizem, senão que escrevem, é ver por essa Internet fora. Da evolução do latim para o português sim, a epêntese, o fenómeno fonético que consiste no acrescentamento de fonema ou sílaba no meio de palavra, foi crucial.
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