«Banco dos réus»?

Não é imutável

      «O ex-criador da Casa Dior vai sentar-se no banco dos réus, ainda antes do Verão, onde terá de responder pelo crime de injúrias raciais ao casal judeu que se encontrava na esplanada do café La Perle, no bairro Le Marais, em Paris, no dia 23 de Fevereiro. John Galliano arrisca-se a uma pena de prisão que pode ir até aos seis meses e ao pagamento de uma multa cujo valor máximo é de 25 mil euros» («John Galliano será julgado por “injúrias raciais”», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 4.03.2011, p. 59).
      Algo mudou: a jornalista já situou o incidente noutro espaço, uma esplanada, e o bairro parisiense já é Le Marais. E já há jornais, incluindo, noutros artigos, o Diário de Notícias, a sentar esta gentinha no banco dos arguidos. Os dicionários ainda ignoram a locução, mas lá chegaremos. (As aspas nas «injúrias raciais» são escusadas.)


[Post 4516]

Como se fala na rádio

Ser uma messalina

      «De uma mulher devassa, promíscua, de má índole e intriguista diz-se que é uma messalina. A expressão deriva de uma figura histórica, a imperatriz romana Valéria Messalina Augusta, mulher do imperador Cláudio e mãe de Britanicus. […] E foi precisamente por conspiração e adultério que Messalina acabou por ser ela própria condenada à morte e executada após ter sido descoberto que tencionava matar o marido e colocar o amante no lugar do imperador» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 4.03.2011).
      Há aqui pábulo para muito mais, mas só dois reparos. Primeiro: se disse Britanicus em vez de Britânico, também deveria ter dito Claudius, Suetonius e Tacitus. Segundo: não deveria ter bem assente, antes de ler, qual a pronúncia de «Messalina»? É que, se ouvi bem (ouçam aqui), pronunciou-o de três formas diferentes.

[Post 4515]

Pronúncia

Lisboetês vulgar

      «Trauliteiros. Era a designação dada aos acompanhantes de Paiva Couceiro durante as incursões monárquicas no Norte no início da I República. De tal forma que ao período político entre 19 de Janeiro e 13 de Fevereiro de 1919, presidido precisamente por Paiva Couceiro, e com sede no Porto, a chamada Monarquia do Norte, foi também apelidada de Traulitânia» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 3.03.2011).
      E como pronunciou o numeral 13? Ora, /treuze/, pois claro, com ditongação do e. E quem fala assim muitas vezes também diz /númaro/. Apre.
      «Razão tinha o Afonso Lopes Vieira. Lisboa corrompe a linguagem. Mas, se há duas Lisboas, a culta e a ignara, deve-se a esta última a corrupção, nódoa que alastra pelo País fora, porque nós, os provincianos, só conhecemos a Lisboa inculta» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo, p. 101).

[Post 4514]

Léxico: «ecossistémico»

Primeira vez

      Referente a ecossistema? Ecossistémico. Exemplo de uso: «Haverá aqui espaço para a criação de empresas ligadas não apenas à protecção da natureza, mas essencialmente ao aproveitamento dos serviços ecossistémicos que ela nos presta.» Estranho é que mesmo dicionários mais sôfregos como o... ahn, esqueci-me... não registem o adjectivo. Vejam se faz falta.

[Post 4513]

Lexicografia

Se

      Se Portugal fosse mesmo multicultural, como alguns juram que é (aqueles, professores, que vão agora, com o AO90, passar a admitir que os seus alunos escrevam «fenômeno» «bebê», «anistia»...), de fora dos dicionários da língua portuguesa não ficariam as acepções de termos como «gasosa», «refresco» e mesmo «propina», todas formas coloquiais de referir o suborno, a corrupção, respectivamente, em Angola, em Moçambique e no Brasil. As nossas luvas. Ah, mas dispensamos o cosmopolitismo de kickback, bustarella, bakchich e outras. (Talvez aqueles professores passem também a dizer e a escrever, como pouquíssimos brasileiros fazem, «corrução»...)

 [Post 4512]

Regência de «sobrepor»

Enfatuamentos

      A edição de ontem do programa Histórias Assim Mesmo, de Mafalda Lopes da Costa, foi dedicada à história da cortiçada da Lua de Proença-a-Nova. Um excerto: «Da escolha de Cortiçada [antiga designação de Proença-a-Nova] para designar a povoação, surge como óbvio que terá tido tudo a ver com a grande riqueza corticeira da região, mas o que por Proença-a-Nova se conta é toda uma outra história. Segundo a lenda, em tempos muito remotos, a população da vila ter-se-á enfatuado de tal forma com a Lua, que, querendo alcançá-la, construíram uma gigantesca torre, sobrepondo cortiço sobre cortiço.»
      Já aqui (e aqui) vimos a construção «todo um». E é claro que a regência do verbo sobrepor está errada: sobrepõe-se isto àquilo, não sobre aquilo.


[Post 4511]

Acordo Ortográfico: o trema

Isso é o que vamos ver

      Na edição de ontem do programa Histórias Assim Mesmo (isto é comigo?), dedicado à história do topónimo São Lourenço de Mamporcão, Mafalda Lopes da Costa usou o vocábulo «sanguinário» e pronunciou o u. E bem, como bem teria pronunciado se não tivesse lido o u. Com a eliminação do trema, no Brasil, é muito provável que a médio/longo prazo se percam estas duplas pronúncias.


[Post 4510]

«Miséria franciscana»

Com digresso

      «Perante uma situação de grande precariedade, de aflição financeira, de pobreza extrema, fala-se em “miséria franciscana”. A expressão é também hoje em dia usada para designar um salário baixo, um pagamento de pouco valor, uma soma de pouca monta. “Miséria franciscana” deriva obviamente de uma analogia com os Franciscanos e a Ordem Franciscana, fundada por São Francisco de Assis no século XIII. Ora, uma das particularidades desta congregação é o facto de esta ser uma ordem mendicante, ou seja, uma ordem religiosa cujos filiados faziam voto de pobreza, vivendo da caridade das doações» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 1.03.2011).
      Sim, mas... Filiado é o «que ou o que está agregado, unido a corporação, agremiação, grupo social etc.; afiliado» (na definição do Dicionário Houaiss), mas o termo mais específico (agora nunca usado) é professo, que ou aquele que professa ou professou uma ordem religiosa. Tal como egresso é o indivíduo que largou o convento e confesso o monge que vivia em mosteiro.

[Post 4509]


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