Lexicografia

Se

      Se Portugal fosse mesmo multicultural, como alguns juram que é (aqueles, professores, que vão agora, com o AO90, passar a admitir que os seus alunos escrevam «fenômeno» «bebê», «anistia»...), de fora dos dicionários da língua portuguesa não ficariam as acepções de termos como «gasosa», «refresco» e mesmo «propina», todas formas coloquiais de referir o suborno, a corrupção, respectivamente, em Angola, em Moçambique e no Brasil. As nossas luvas. Ah, mas dispensamos o cosmopolitismo de kickback, bustarella, bakchich e outras. (Talvez aqueles professores passem também a dizer e a escrever, como pouquíssimos brasileiros fazem, «corrução»...)

 [Post 4512]

Regência de «sobrepor»

Enfatuamentos

      A edição de ontem do programa Histórias Assim Mesmo, de Mafalda Lopes da Costa, foi dedicada à história da cortiçada da Lua de Proença-a-Nova. Um excerto: «Da escolha de Cortiçada [antiga designação de Proença-a-Nova] para designar a povoação, surge como óbvio que terá tido tudo a ver com a grande riqueza corticeira da região, mas o que por Proença-a-Nova se conta é toda uma outra história. Segundo a lenda, em tempos muito remotos, a população da vila ter-se-á enfatuado de tal forma com a Lua, que, querendo alcançá-la, construíram uma gigantesca torre, sobrepondo cortiço sobre cortiço.»
      Já aqui (e aqui) vimos a construção «todo um». E é claro que a regência do verbo sobrepor está errada: sobrepõe-se isto àquilo, não sobre aquilo.


[Post 4511]

Acordo Ortográfico: o trema

Isso é o que vamos ver

      Na edição de ontem do programa Histórias Assim Mesmo (isto é comigo?), dedicado à história do topónimo São Lourenço de Mamporcão, Mafalda Lopes da Costa usou o vocábulo «sanguinário» e pronunciou o u. E bem, como bem teria pronunciado se não tivesse lido o u. Com a eliminação do trema, no Brasil, é muito provável que a médio/longo prazo se percam estas duplas pronúncias.


[Post 4510]

«Miséria franciscana»

Com digresso

      «Perante uma situação de grande precariedade, de aflição financeira, de pobreza extrema, fala-se em “miséria franciscana”. A expressão é também hoje em dia usada para designar um salário baixo, um pagamento de pouco valor, uma soma de pouca monta. “Miséria franciscana” deriva obviamente de uma analogia com os Franciscanos e a Ordem Franciscana, fundada por São Francisco de Assis no século XIII. Ora, uma das particularidades desta congregação é o facto de esta ser uma ordem mendicante, ou seja, uma ordem religiosa cujos filiados faziam voto de pobreza, vivendo da caridade das doações» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 1.03.2011).
      Sim, mas... Filiado é o «que ou o que está agregado, unido a corporação, agremiação, grupo social etc.; afiliado» (na definição do Dicionário Houaiss), mas o termo mais específico (agora nunca usado) é professo, que ou aquele que professa ou professou uma ordem religiosa. Tal como egresso é o indivíduo que largou o convento e confesso o monge que vivia em mosteiro.

[Post 4509]


Género de «Alhambra»

Mais vacilações

      «Uma sequência de três pátios e um espelho de água — será assim a nova entrada para os palácios do Alhambra, em Granada, Espanha, desenhada pelo arquitecto português Álvaro Siza e pelo espanhol Juan Domingo Santos, vencedores do concurso de ideias para o local que na época alta chega a receber oito mil visitantes por dia» («Álvaro Siza vai construir a Porta Nova de acesso aos palácios do Alhambra», Alexandra Prado Coelho, Público, «P2»/Público, 2.03.2011, p. 8).
      Aqui também há vacilações, mas se em espanhol é do género feminino e se Rebelo Gonçalves, no Vocabulário da Língua Portuguesa, regista apenas a forma Alambra e o género feminino, talvez devamos ir atrás.

[Post 4508]

«Carro eléctrico», de novo

Vacilações

      Isabel Gaspar Dias, na apresentação dos principais temas do Portugal em Directo: «Lisboa já tem mais de 50 postos de abastecimento de carros eléctricos, e por agora são à borla.» E na abertura do tema: «Por agora, já são mais de 50 postos de abastecimento de viaturas eléctricas em Lisboa. Depois do Parque das Nações, agora também o centro da cidade tem pontos de abastecimento de viaturas.» Já aqui tínhamos falado desta questão. E reparem na hesitação «pontos/postos de abastecimento».

[Post 4507]




Formação de palavras

De Berlim ou de Bruxelas

      Quer escrevamos «bola-de-berlim» ou «bola de Berlim», o processo de formação de palavras é o mesmo: por justaposição. A língua tem, como se sabe, vários processos de formação de palavras, mas os mais gerais são a aglutinação e a justaposição. Actualmente, com o Dicionário Terminológico (DT), fala-se em composição morfológica (processo de composição que associa um radical a outro(s) radical(is) ou a uma ou mais palavras», na definição do DT) e em composição morfossintáctica (processo de composição que associa duas ou mais palavras», também na definição do DT). Se consultarmos o DT, vemos que entre os escassos exemplos deste último processo de formação se encontra «via láctea». Sem hífen. A presença ou ausência de hífen não interfere na definição destes compostos como sendo por justaposição. Por outro lado, não é pela mera presença de um topónimo (qualquer que seja a grafia adoptada, «bola-de-berlim» ou «bola de Berlim», que podemos afirmar que estamos perante o processo de derivação imprópria, de que já aqui falei bastas vezes.


[Post 4506]

Acordo Ortográfico

Consagradas pelo uso


      Consultei o verbete «cor-de-rosa» no Dicionário da Língua Portuguesa 2011 da Porto Editora. Resumo: «cor-de-rosa aAO ⇒ cor de rosa dAO». Como? Contudo, a Base XV («Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares»), n.º 6, do AO90 estatui: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).» E seguem-se exemplos de locuções substantivas, adjectivas, pronominais, adverbiais e prepositivas, mas que não vêm ao caso, pois já estamos servidos: «cor-de-rosa» é uma excepção indicada pela própria norma, não há necessidade de interpretar o dúbio «salvo algumas exceções já consagradas pelo uso». Experimentei (mais uma vez, lembram-se?) o corrector ortográfico da Porto Editora, tão apregoado junto dos professores. Escrevi a seguinte frase: «De facto, comprei uma mini-saia cor-de-rosa.» Resultado: «6 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Mas o vocábulo «facto» aparece assinalado de outra cor. E depois estoutra: «De facto, comprei uma minissaia cor de rosa.» Resultado: «8 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Só o vocábulo «facto» aparece assinalado de outra cor.
      Imaginem agora o que será quanto a todas as outras palavras que, não estando exemplificadas pelo texto do AO90, poderão estar abrangidas pelo conceito quase indeterminado «salvo algumas exceções já consagradas pelo uso». Temo o pior.
      Lia-se hoje no Diário de Notícias: «A Porto Editora adopta hoje o novo Acordo Ortográfico, passando a utilizar a nova grafia em todos os documentos e no sítio oficial, para lá de lançar um guia prático e reformular o conversor online. “Contém tudo o que é necessário saber sobre a nova grafia”, resumiu fonte da editora à Lusa» («Porto Editora vai adoptar nova grafia», Diário de Notícias, 1.03.2011, p. 18). Espero é que não usem o conversor deles.

[Post 4505]

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