Dicção/dição

E agora?

      Um pequeno mistério: porque incluíram os redactores do Acordo Ortográfico de 1990 o par dicção/dição entre os vocábulos em que se conservam ou se eliminam facultativamente o c, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento? Dição é uma variante lexical de dicção. Talvez até tenha entrado na língua antes desta. Terá vindo, não através do genitivo, mas do nominativo do étimo latino. Distracção? O que acha, Fernando Venâncio?

[Post 4476]


Selecção vocabular

Catarros estremenhos

      «Florinda Chico deu entrada na Clínica Virgen del Mar, em Madrid, na sexta-feira queixando-se de um catarro persistente. Tão forte que a actriz espanhola não resistiu» («Secundária como actriz, protagonista para o público», Diário de Notícias, 21.02.2011, p. 47).
      Também temos o vocábulo «catarro», e ambos significam o mesmo — muco proveniente da inflamação das mucosas; defluxo ou constipação acompanhada de tosse e expectoração. (Para não ir mais longe, eu próprio estou encatarrado há semanas.) Contudo, não escolheria, para traduzir, o termo «catarro», mas sim «constipação».
      «Nascida na localidade extremenha», lê-se no obituário, «de Don Benito, perto de Badajoz, a 24 de Abril de 1926, Florinda Chico estudou canto durante a juventude e era considerada uma das mais emblemáticas actrizes secundárias do cinema e da televisão, reconhecida pelo seu físico corpulento e ar desenrascado (e por causa do qual fez tantas vezes de criada).» O mesmíssimo Diário de Notícias, de vez em quando, grafa, e bem, Estremadura e estremenho, como já aqui vimos.

[Post 4475]

Uso da maiúscula

Historietas

      «O Convento das Clarissas de Évora, da ordem franciscana, foi fundado pelo bispo D. Vasco Perdigão em 1492 e na sua clausura esteve recolhida a princesa D. Joana, a Excelente Senhora, malograda noiva de D. Afonso V. Para a história ficou um rico património artístico, monumental e gastronómico, este último compilado num receituário conventual que as freiras conservaram durante séculos para seu uso privado» («Évora recupera receita de pastéis conventuais “perdida” há 100 anos», Luís Maneta, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 26).
      Agora é assim, a História é uma coisa menor. A pequena história. Esta gente nem precisa de novo acordo ortográfico.

[Post 4474]


Léxico: «púrria»

No Mississípi e aqui

      «Estava livre de ser apanhado e castigado, e então dirigiu-se à praça da vila onde duas púrrias se iam encontrar, para se bater, como tinham combinado» (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain. Tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 33).
      Quem é que, hoje em dia, conhece o termo «púrria»? Ninguém. É, na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, um bando de garotos. O Dicionário Houaiss, porém, não se fica por aí: de rapazes mal-educados. Gente como Huckleberry Finn, imagino.

[Post 4473]

Léxico: «urbanita»

Na cidade e na Lua

      «He had a citified air about him that ate into Tom’s vitals.» «Tinha um ar citadino que revolvia as entranhas de Tom» (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain. Tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 18). Este trecho fez-me lembrar o vocábulo «urbanita» (que ou quem reside em cidade; citadino), usado pelo geógrafo Jorge Gaspar no documentário Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um Geógrafo, já aqui referido de outras vezes. No meu caso, primeiro conheci o vocábulo «selenita», o hipotético habitante da Lua.


[Post 4472]

Acordo Ortográfico

Como dantes

      «Era uma espécie de gorjeio de pássaro, assim como um trinado fluido, produzido pelo contacto da língua com o céu da bôca, de quando em quando, no meio da música» (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain. Tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 18).
      Era assim, como locução substantiva, que se grafava antes do Acordo Ortográfico de 1945 — e depois também, mas os dicionários «inovaram» hifenizando-a, e, desta maneira, tornou-se unidade semântica. Ora consultem aí o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. O AO90 foi mais longe no uso do hífen (pelo menos nestes casos) e escrever-se-á «céu da boca». Entretanto, o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), adoptado para o sistema de ensino pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, regista «céu da boca». Como regista barriga de freira, braço de ferro, boca de sino, bota de elástico, caminho de ferro, fim de semana...

[Post 4471]


Ortografia: «Cádis»

Temos de gramar?

      «A pardela-balear é uma espécie muito recente: até há dez anos era considerada uma subespécie do patagarro ou da pardela-do-mediterrâneo. É frequente desde a baía de Cádiz (Espanha) até ao Atlântico Norte, excepto no período de reprodução, que ocorre nas ilhas espanholas Baleares, em especial em Formentera, e daí a sua designação de balear» («A pardela das Baleares», Roberto Dores, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 44).
      Da pardela nada há que dizer. Já quanto ao topónimo, nem pensar: é Cádis que se deve escrever. E assim continuará, claro, segundo as novas regras ortográficas (Base II, 5.º do AO90). Quando descreveu a pardela, o jornalista cincou novamente: «Os adultos pesam cerca de 500 gr, numa envergadura de 76 a 89 cm.» O símbolo de grama é g, e não gr.


[Post 4470]

Léxico: «aerocologia»

Algo de novo

      «Os radares são uma janela para o espaço aéreo. Enviam ondas rádio que se reflectem nas gotas de chuva ou aviões, mas também nas aves, morcegos ou até insectos. Para prever as tempestades, os meteorologistas têm de filtrar a informação e os dados emitidos pelos organismos vivos. Informação que, por outro lado, pode ser essencial para cientistas como Winifred Frick, que a usa para seguir morcegos, numa nova ciência conhecida como “aeroecologia”. […] A expressão “aeroecologia” foi inventada há dois anos por Thomas H. Kunz, da Universidade de Boston, para descrever a interacção dos organismos vivos (aves, morcegos e insectos) na baixa atmosfera» («Radar meteorológico para seguir morcegos», Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 39).


[Post 4469]

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