Léxico: «urbanita»

Na cidade e na Lua

      «He had a citified air about him that ate into Tom’s vitals.» «Tinha um ar citadino que revolvia as entranhas de Tom» (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain. Tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 18). Este trecho fez-me lembrar o vocábulo «urbanita» (que ou quem reside em cidade; citadino), usado pelo geógrafo Jorge Gaspar no documentário Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um Geógrafo, já aqui referido de outras vezes. No meu caso, primeiro conheci o vocábulo «selenita», o hipotético habitante da Lua.


[Post 4472]

Acordo Ortográfico

Como dantes

      «Era uma espécie de gorjeio de pássaro, assim como um trinado fluido, produzido pelo contacto da língua com o céu da bôca, de quando em quando, no meio da música» (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain. Tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 18).
      Era assim, como locução substantiva, que se grafava antes do Acordo Ortográfico de 1945 — e depois também, mas os dicionários «inovaram» hifenizando-a, e, desta maneira, tornou-se unidade semântica. Ora consultem aí o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. O AO90 foi mais longe no uso do hífen (pelo menos nestes casos) e escrever-se-á «céu da boca». Entretanto, o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), adoptado para o sistema de ensino pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, regista «céu da boca». Como regista barriga de freira, braço de ferro, boca de sino, bota de elástico, caminho de ferro, fim de semana...

[Post 4471]


Ortografia: «Cádis»

Temos de gramar?

      «A pardela-balear é uma espécie muito recente: até há dez anos era considerada uma subespécie do patagarro ou da pardela-do-mediterrâneo. É frequente desde a baía de Cádiz (Espanha) até ao Atlântico Norte, excepto no período de reprodução, que ocorre nas ilhas espanholas Baleares, em especial em Formentera, e daí a sua designação de balear» («A pardela das Baleares», Roberto Dores, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 44).
      Da pardela nada há que dizer. Já quanto ao topónimo, nem pensar: é Cádis que se deve escrever. E assim continuará, claro, segundo as novas regras ortográficas (Base II, 5.º do AO90). Quando descreveu a pardela, o jornalista cincou novamente: «Os adultos pesam cerca de 500 gr, numa envergadura de 76 a 89 cm.» O símbolo de grama é g, e não gr.


[Post 4470]

Léxico: «aerocologia»

Algo de novo

      «Os radares são uma janela para o espaço aéreo. Enviam ondas rádio que se reflectem nas gotas de chuva ou aviões, mas também nas aves, morcegos ou até insectos. Para prever as tempestades, os meteorologistas têm de filtrar a informação e os dados emitidos pelos organismos vivos. Informação que, por outro lado, pode ser essencial para cientistas como Winifred Frick, que a usa para seguir morcegos, numa nova ciência conhecida como “aeroecologia”. […] A expressão “aeroecologia” foi inventada há dois anos por Thomas H. Kunz, da Universidade de Boston, para descrever a interacção dos organismos vivos (aves, morcegos e insectos) na baixa atmosfera» («Radar meteorológico para seguir morcegos», Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 39).


[Post 4469]

«Recolha porta-a-porta»

Para tudo ficar igual

      «Retirar até 2013 todos os ecopontos, à excepção dos vidrões, da via pública. É este o objectivo da Câmara Municipal de Lisboa, que, para isso, alargará progressivamente a toda a cidade a recolha selectiva de resíduos porta a porta (embalagens e papel/cartão)» («Lisboa alarga recolha porta a porta para tirar ecopontos da rua até 2013», Inês Banha, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 32).
      Não é locução. A jornalista devia ter escrito «recolha porta-a-porta», como já aqui explicámos.

[Post 4468]


«Moto-quatros»?

Só se for nas pampas

      «O gaúcho é uma personagem da pampa, rebelde e insubmissa, que resume a identidade da Argentina. Mas está em vias de extinção, encurralado pelo avanço da soja e da produção de gado intensiva. “Em muitos campos, em vez de cavalos há moto-quatros para juntar o gado”, diz Lisandro Foral, enquanto conduz o seu todo-o-terreno pela fazenda de 3800 hectares de que é encarregado, sempre atento ao telemóvel e ao GPS» («Gaúchos ameaçados pela tecnologia», Oscar Laski, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 33).
      Oscar Laski não tem culpa: o texto é uma tradução. O plural de «moto-quatro» (o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «moto quatro») é «moto-quatros»? Haja paciência! Quer dizer, fica invariável a palavra variável e varia a palavra invariável?

[Post 4467]

Modismo: «sinalizar»

Marcados a fogo

      «Prédio devoluto foi isolado pelos bombeiros e câmara sinaliza mais 200 em risco» (Paulo Julião, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 26).
      É o irritante modismo do momento: são «jovens problemáticos», «bairros sensíveis» e outras realidades desviantes que estão (ou não estão, habitualmente) «sinalizados». Falam assim presidentes de juntas de freguesia, secretários de Estado, ministros e tecnocratas cinzentões.

[Post 4466]

Como se fala na televisão

Ao menos isso

      Mudança possui tudo, Montexto? Olhe que não. Pelo menos não para todos. «Incrédulos, os moradores da Rua Dona Filipa de Lencastre, em Tires, nem queriam acreditar» (repórter José Manuel Levy no Telejornal de ontem). Acréus, incréus ou, mais prosaicamente, incrédulos, sempre todos soubemos que eles não acreditavam. Para nosso sossego, parece que assim continua a ser. Uf!

[Post 4465]


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