«Recolha porta-a-porta»

Para tudo ficar igual

      «Retirar até 2013 todos os ecopontos, à excepção dos vidrões, da via pública. É este o objectivo da Câmara Municipal de Lisboa, que, para isso, alargará progressivamente a toda a cidade a recolha selectiva de resíduos porta a porta (embalagens e papel/cartão)» («Lisboa alarga recolha porta a porta para tirar ecopontos da rua até 2013», Inês Banha, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 32).
      Não é locução. A jornalista devia ter escrito «recolha porta-a-porta», como já aqui explicámos.

[Post 4468]


«Moto-quatros»?

Só se for nas pampas

      «O gaúcho é uma personagem da pampa, rebelde e insubmissa, que resume a identidade da Argentina. Mas está em vias de extinção, encurralado pelo avanço da soja e da produção de gado intensiva. “Em muitos campos, em vez de cavalos há moto-quatros para juntar o gado”, diz Lisandro Foral, enquanto conduz o seu todo-o-terreno pela fazenda de 3800 hectares de que é encarregado, sempre atento ao telemóvel e ao GPS» («Gaúchos ameaçados pela tecnologia», Oscar Laski, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 33).
      Oscar Laski não tem culpa: o texto é uma tradução. O plural de «moto-quatro» (o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «moto quatro») é «moto-quatros»? Haja paciência! Quer dizer, fica invariável a palavra variável e varia a palavra invariável?

[Post 4467]

Modismo: «sinalizar»

Marcados a fogo

      «Prédio devoluto foi isolado pelos bombeiros e câmara sinaliza mais 200 em risco» (Paulo Julião, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 26).
      É o irritante modismo do momento: são «jovens problemáticos», «bairros sensíveis» e outras realidades desviantes que estão (ou não estão, habitualmente) «sinalizados». Falam assim presidentes de juntas de freguesia, secretários de Estado, ministros e tecnocratas cinzentões.

[Post 4466]

Como se fala na televisão

Ao menos isso

      Mudança possui tudo, Montexto? Olhe que não. Pelo menos não para todos. «Incrédulos, os moradores da Rua Dona Filipa de Lencastre, em Tires, nem queriam acreditar» (repórter José Manuel Levy no Telejornal de ontem). Acréus, incréus ou, mais prosaicamente, incrédulos, sempre todos soubemos que eles não acreditavam. Para nosso sossego, parece que assim continua a ser. Uf!

[Post 4465]


Selecção vocabular

بنغازي, Bengazi 

      «A agitação no Médio Oriente está a tornar-se mais violenta na Líbia e Bahrein, onde as autoridades dispararam contra manifestações, fazendo numerosas vítimas. No reino do Golfo Pérsico a polícia usou ontem balas reais e fez mais de 50 feridos. Na Líbia do coronel Muammar Khadafi já morreram pelo menos 24 pessoas desde terça-feira em protestos registados em Sirte e Al-Baida. Em Bengazi, segunda cidade do país, a sede da rádio foi incendiada» («Líbia e Bahrein endurecem repressão política», Luís Naves, Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 31).
      Apesar de, para alguns dicionários, manifestação também ser o conjunto das pessoas que se manifestam, acho que se a polícia tivesse disparado (pretérito mais-que-perfeito do conjuntivo) contra a multidão ou contra manifestantes teria feito (futuro do pretérito composto) mais vítimas. E outra coisa: aquele topónimo, Bengazi, hoje é que está bem grafado. Anteontem, vimo-lo aqui, estava errado: Bengasi.

[Post 4464]

«Lord/lorde»

Esotérico

      «Paul Johnson enumera outros exemplos. O lorde trabalhista Clifford Allen, ex-director do jornal Daily Herald, afirmou-se “convencido” de que Hitler alimentava “um desejo genuíno de paz”. O arcebispo Temple, de York, elogiou o “grande contributo” do chanceler para “a paz e a segurança”. Lord Lothian, futuro embaixador britânico nos EUA, foi ao ponto de invocar o Tratado de Versalhes imposto aos alemães em 1919 para justificar as perseguições aos judeus» («A diferença entre um estadista e um político», Pedro Correia, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 7).
      Deixe ver se percebo, caro Pedro Correia: se aparece isolado, é aportuguesado, «lorde»; se aparece junto de um nome próprio, é «lord». É isto? Critério tão estranho...

[Post 4463]

«Gás-pimenta», de novo

Conversem mais

      «Os dois reclusos atacaram os guardas com gás-pimenta e conseguiram retirar as algemas. Fugiram depois a pé, sendo ainda perseguidos, com troca de tiros. Acabaram por escapar. As grandes questões são como tiveram acesso a gás-pimenta e como conseguiram retirar as algemas quando seguiam numa carrinha celular» («Chefias e guardas envolvidos na fuga de reclusos no DCIAP», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 24).
      Ainda na semana passada li no mesmíssimo jornal o vocábulo não hifenizado, «gás pimenta». Já aqui vimos esta questão.

[Post 4462]

«Juancarlista/joão-carlista»

Menos mal

      «A monarquia no nosso país é atípica. Nós não nos identificamos propriamente com o regime monárquico. Identificamo-nos com Juan Carlos, sentimos que ele é um de nós. Ele cai e levanta-se, tropeça e pragueja. Somos juancarlistas, não monárquicos. Quando eu nasci, não havia rei, ensinavam-nos que eles eram bêbedos, corruptos, ladrões...» («“Há coisas grotescas na família real”», Joana Emídio Marques, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 92).
      Ou, se quisermos dizê-lo em português (e devemos), como o leitor Franco e Silva já nos lembrou aqui uma vez, joão-carlistas.

[Post 4461]

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