Modismo: «sinalizar»

Marcados a fogo

      «Prédio devoluto foi isolado pelos bombeiros e câmara sinaliza mais 200 em risco» (Paulo Julião, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 26).
      É o irritante modismo do momento: são «jovens problemáticos», «bairros sensíveis» e outras realidades desviantes que estão (ou não estão, habitualmente) «sinalizados». Falam assim presidentes de juntas de freguesia, secretários de Estado, ministros e tecnocratas cinzentões.

[Post 4466]

Como se fala na televisão

Ao menos isso

      Mudança possui tudo, Montexto? Olhe que não. Pelo menos não para todos. «Incrédulos, os moradores da Rua Dona Filipa de Lencastre, em Tires, nem queriam acreditar» (repórter José Manuel Levy no Telejornal de ontem). Acréus, incréus ou, mais prosaicamente, incrédulos, sempre todos soubemos que eles não acreditavam. Para nosso sossego, parece que assim continua a ser. Uf!

[Post 4465]


Selecção vocabular

بنغازي, Bengazi 

      «A agitação no Médio Oriente está a tornar-se mais violenta na Líbia e Bahrein, onde as autoridades dispararam contra manifestações, fazendo numerosas vítimas. No reino do Golfo Pérsico a polícia usou ontem balas reais e fez mais de 50 feridos. Na Líbia do coronel Muammar Khadafi já morreram pelo menos 24 pessoas desde terça-feira em protestos registados em Sirte e Al-Baida. Em Bengazi, segunda cidade do país, a sede da rádio foi incendiada» («Líbia e Bahrein endurecem repressão política», Luís Naves, Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 31).
      Apesar de, para alguns dicionários, manifestação também ser o conjunto das pessoas que se manifestam, acho que se a polícia tivesse disparado (pretérito mais-que-perfeito do conjuntivo) contra a multidão ou contra manifestantes teria feito (futuro do pretérito composto) mais vítimas. E outra coisa: aquele topónimo, Bengazi, hoje é que está bem grafado. Anteontem, vimo-lo aqui, estava errado: Bengasi.

[Post 4464]

«Lord/lorde»

Esotérico

      «Paul Johnson enumera outros exemplos. O lorde trabalhista Clifford Allen, ex-director do jornal Daily Herald, afirmou-se “convencido” de que Hitler alimentava “um desejo genuíno de paz”. O arcebispo Temple, de York, elogiou o “grande contributo” do chanceler para “a paz e a segurança”. Lord Lothian, futuro embaixador britânico nos EUA, foi ao ponto de invocar o Tratado de Versalhes imposto aos alemães em 1919 para justificar as perseguições aos judeus» («A diferença entre um estadista e um político», Pedro Correia, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 7).
      Deixe ver se percebo, caro Pedro Correia: se aparece isolado, é aportuguesado, «lorde»; se aparece junto de um nome próprio, é «lord». É isto? Critério tão estranho...

[Post 4463]

«Gás-pimenta», de novo

Conversem mais

      «Os dois reclusos atacaram os guardas com gás-pimenta e conseguiram retirar as algemas. Fugiram depois a pé, sendo ainda perseguidos, com troca de tiros. Acabaram por escapar. As grandes questões são como tiveram acesso a gás-pimenta e como conseguiram retirar as algemas quando seguiam numa carrinha celular» («Chefias e guardas envolvidos na fuga de reclusos no DCIAP», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 24).
      Ainda na semana passada li no mesmíssimo jornal o vocábulo não hifenizado, «gás pimenta». Já aqui vimos esta questão.

[Post 4462]

«Juancarlista/joão-carlista»

Menos mal

      «A monarquia no nosso país é atípica. Nós não nos identificamos propriamente com o regime monárquico. Identificamo-nos com Juan Carlos, sentimos que ele é um de nós. Ele cai e levanta-se, tropeça e pragueja. Somos juancarlistas, não monárquicos. Quando eu nasci, não havia rei, ensinavam-nos que eles eram bêbedos, corruptos, ladrões...» («“Há coisas grotescas na família real”», Joana Emídio Marques, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 92).
      Ou, se quisermos dizê-lo em português (e devemos), como o leitor Franco e Silva já nos lembrou aqui uma vez, joão-carlistas.

[Post 4461]

Plural dos apelidos

A propósito de grotesco

      «Pelo menos é esta a opinião da jornalista, escritora e especialista em assuntos ligados à família real, Pilar Eyre, que no livro Segredos e Mentiras da Família Real Espanhola, editado agora em Portugal pela Esfera dos Livros, desvenda e analisa o percurso dos Borbón ao longo de três gerações, desde D. Alfonso XIII até D. Felipe e sua polémica mulher Letizia» (“Há coisas grotescas na família real”», Joana Emídio Marques, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 92).
      Hã? «Dos Borbón»? Mas isso nem é espanhol, língua em que se pluraliza Borbones, nem português, em que se pluraliza de desvairadas maneiras, mas Borbons não estará mal. E aqueles dons não são devidos.

[Post 4460]


Estrangeirismos

Com humanismo

      Jorge Fiel entrevistou o director-geral da Servilusa (abrenúncio!), António Balha e Melo. Ora vejam o atendimento: «Após a recepção da chamada no call center, é mobilizado um dos 36 técnicos comerciais, que fardado de fato cinzento, pin da Servilusa na lapela, camisa branca, gravata verde-alface, se desloca ao local do óbito num Ford Focus castanho. Mostra à família o catálogo que leva no portátil e aconselha nas opções. Assinado o contrato, é logo digitalizado e enviado por e-mail para o coordenador do serviço, que destaca uma assistente com formação em Humanísticas para tomar conta da operação até ao fim» («“Ninguém morre duas vezes”», Jorge Fiel, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 104).
      Aquilo da assistente com formação em Humanísticas é que me deixou, já não digo de pé atrás, porque nestes casos vão os dois ao mesmo tempo, mas intrigado. Como a seguir se lê que «dignidade, respeito e humanismo são o mantra do director-geral da Servilusa», temo que haja aqui confusão. Quanto a Jorge Fiel, que começou por ser revisor no Jornal de Notícias, não teve artes de evitar os estrangeirismos call center, pin e e-mail. No perfil que traçou de António Balha e Melo, porém, teve o bom senso de escrever que o entrevistado, «aos 49 anos, aceitou o desafio de um caçador de cabeças (Rafael Mora) para tentar salvar da morte a Servilusa». Vá lá, evitou o barbarismo headhunter.

[Post 4459]

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