Selecção vocabular

بنغازي, Bengazi 

      «A agitação no Médio Oriente está a tornar-se mais violenta na Líbia e Bahrein, onde as autoridades dispararam contra manifestações, fazendo numerosas vítimas. No reino do Golfo Pérsico a polícia usou ontem balas reais e fez mais de 50 feridos. Na Líbia do coronel Muammar Khadafi já morreram pelo menos 24 pessoas desde terça-feira em protestos registados em Sirte e Al-Baida. Em Bengazi, segunda cidade do país, a sede da rádio foi incendiada» («Líbia e Bahrein endurecem repressão política», Luís Naves, Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 31).
      Apesar de, para alguns dicionários, manifestação também ser o conjunto das pessoas que se manifestam, acho que se a polícia tivesse disparado (pretérito mais-que-perfeito do conjuntivo) contra a multidão ou contra manifestantes teria feito (futuro do pretérito composto) mais vítimas. E outra coisa: aquele topónimo, Bengazi, hoje é que está bem grafado. Anteontem, vimo-lo aqui, estava errado: Bengasi.

[Post 4464]

«Lord/lorde»

Esotérico

      «Paul Johnson enumera outros exemplos. O lorde trabalhista Clifford Allen, ex-director do jornal Daily Herald, afirmou-se “convencido” de que Hitler alimentava “um desejo genuíno de paz”. O arcebispo Temple, de York, elogiou o “grande contributo” do chanceler para “a paz e a segurança”. Lord Lothian, futuro embaixador britânico nos EUA, foi ao ponto de invocar o Tratado de Versalhes imposto aos alemães em 1919 para justificar as perseguições aos judeus» («A diferença entre um estadista e um político», Pedro Correia, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 7).
      Deixe ver se percebo, caro Pedro Correia: se aparece isolado, é aportuguesado, «lorde»; se aparece junto de um nome próprio, é «lord». É isto? Critério tão estranho...

[Post 4463]

«Gás-pimenta», de novo

Conversem mais

      «Os dois reclusos atacaram os guardas com gás-pimenta e conseguiram retirar as algemas. Fugiram depois a pé, sendo ainda perseguidos, com troca de tiros. Acabaram por escapar. As grandes questões são como tiveram acesso a gás-pimenta e como conseguiram retirar as algemas quando seguiam numa carrinha celular» («Chefias e guardas envolvidos na fuga de reclusos no DCIAP», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 24).
      Ainda na semana passada li no mesmíssimo jornal o vocábulo não hifenizado, «gás pimenta». Já aqui vimos esta questão.

[Post 4462]

«Juancarlista/joão-carlista»

Menos mal

      «A monarquia no nosso país é atípica. Nós não nos identificamos propriamente com o regime monárquico. Identificamo-nos com Juan Carlos, sentimos que ele é um de nós. Ele cai e levanta-se, tropeça e pragueja. Somos juancarlistas, não monárquicos. Quando eu nasci, não havia rei, ensinavam-nos que eles eram bêbedos, corruptos, ladrões...» («“Há coisas grotescas na família real”», Joana Emídio Marques, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 92).
      Ou, se quisermos dizê-lo em português (e devemos), como o leitor Franco e Silva já nos lembrou aqui uma vez, joão-carlistas.

[Post 4461]

Plural dos apelidos

A propósito de grotesco

      «Pelo menos é esta a opinião da jornalista, escritora e especialista em assuntos ligados à família real, Pilar Eyre, que no livro Segredos e Mentiras da Família Real Espanhola, editado agora em Portugal pela Esfera dos Livros, desvenda e analisa o percurso dos Borbón ao longo de três gerações, desde D. Alfonso XIII até D. Felipe e sua polémica mulher Letizia» (“Há coisas grotescas na família real”», Joana Emídio Marques, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 92).
      Hã? «Dos Borbón»? Mas isso nem é espanhol, língua em que se pluraliza Borbones, nem português, em que se pluraliza de desvairadas maneiras, mas Borbons não estará mal. E aqueles dons não são devidos.

[Post 4460]


Estrangeirismos

Com humanismo

      Jorge Fiel entrevistou o director-geral da Servilusa (abrenúncio!), António Balha e Melo. Ora vejam o atendimento: «Após a recepção da chamada no call center, é mobilizado um dos 36 técnicos comerciais, que fardado de fato cinzento, pin da Servilusa na lapela, camisa branca, gravata verde-alface, se desloca ao local do óbito num Ford Focus castanho. Mostra à família o catálogo que leva no portátil e aconselha nas opções. Assinado o contrato, é logo digitalizado e enviado por e-mail para o coordenador do serviço, que destaca uma assistente com formação em Humanísticas para tomar conta da operação até ao fim» («“Ninguém morre duas vezes”», Jorge Fiel, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 104).
      Aquilo da assistente com formação em Humanísticas é que me deixou, já não digo de pé atrás, porque nestes casos vão os dois ao mesmo tempo, mas intrigado. Como a seguir se lê que «dignidade, respeito e humanismo são o mantra do director-geral da Servilusa», temo que haja aqui confusão. Quanto a Jorge Fiel, que começou por ser revisor no Jornal de Notícias, não teve artes de evitar os estrangeirismos call center, pin e e-mail. No perfil que traçou de António Balha e Melo, porém, teve o bom senso de escrever que o entrevistado, «aos 49 anos, aceitou o desafio de um caçador de cabeças (Rafael Mora) para tentar salvar da morte a Servilusa». Vá lá, evitou o barbarismo headhunter.

[Post 4459]

Sob/sobre

Eloquente

      Na sua crónica de hoje no Diário de Notícias, J.-M. Nobre-Correia começa por afirmar que a presença da Igreja Católica deixou «marcas duráveis no analfabetismo dos indivíduos, primeiro, e no seu iletrismo, em seguida». Exemplos? Ah, isso agora... Mas continua: «Se há país onde o ascendente do clero sobre a sociedade é evidente é a Itália. E como se isso não bastasse, já lá vão trinta anos que a Itália vive sobre a alçada de uma televisão berlusconiana que foi adquirindo um estatuto hegemónico no plano sociocultural» («Esta trágica paixão criminal», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 67).
      Caro J.-M. Nobre-Correia, não se diz, neste contexto, «sobre a alçada», mas sob, debaixo da alçada. E «alçada» aqui vale por esfera de acção.

[Post 4458]


Estrangeirismos

Caladinho

      Natália Carvalho, da Antena 1, foi ouvir o eurodeputado Paulo Rangel, esse grande orador: «Ainda em Dezembro ouvimos falar de 40 ou 50 medidas para o crescimento, e a verdade é que ninguém tem o seguimento, o follow-up do que aconteceu.»
      Isto não é incomum (mas é extraordinário): o falante usa uma palavra portuguesa, mas logo de seguida recorre a um anglicismo (os galicismos são coisa do passado) para dizer o mesmo. Salvo melhor opinião, isto é completamente tonto. Se fosse ao contrário, ainda se entendia. O melhor (ou o pior, de outra perspectiva) foi que o eurodeputado pronunciou malissimamente a palavra inglesa. Não saiu, como devia, \ˈfä-lō-ˌəp\, mas com o u a soar ó. Horror! Poderão objectar-me: foi um lapso. Poderá ter sido, mas isso só prova que não deveria falar numa língua que não domina. Oiça.

[Post 4457]

Arquivo do blogue