Como se escreve nos jornais

Caça à baleia

      No âmbito da moratória à caça à baleia, decidida na década de 1980 pela Comissão Baleeira Internacional (CBI), o Japão beneficia de uma excepção. Lê-se num artigo da edição de hoje do Diário de Notícias: «Outro meio de contornar a moratória é a declaração de objecção, que o Japão também professa» («Baleeiro japonês regressa a casa», Filomena Naves, Diário de Notícias, 17.02.2011, p. 32).
      As declarações fazem-se ou professam-se? Uma das primeiras acepções de professar, reconhecer ou confessar publicamente, não se adequa ao contexto. Nem nenhuma das outras cinco ou seis que, como verbo transitivo, professar tem. Podia alguém porfiar em que a acepção exercer, praticar se aplica com propriedade. Não me parece. Redacção alternativa, que recomendo mesmo a jornalistas professos: «Outro meio de contornar a moratória é a declaração de objecção, a que o Japão também recorreu.»
      (Relacionado com baleias, neste blogue, ver: 1, 2, 3, 4, 5.)


[Post 4448]

Como se escreve nos jornais

Uma maneira de dizer

      Mais um obituário não assinado no Diário de Notícias. Morreu o chefe (o DN continua a preferir-lhe o galicismo chef, mas no título usou o despretensioso termo «cozinheiro») catalão Santi Santamaría. «O cozinheiro foi ainda autor de algumas polémicas, muito devido à rivalidade com outro chef catalão, Ferran Adrià» («O cozinheiro catalão das sete estrelas Michelin», Diário de Notícias, 17.02.2011, p. 47).
      «Autor de polémicas» é uma maneira de dizer, talvez inadequada. Se tivesse gostado de contar anedotas, chamá-lo-íamos porventura «autor de anedotas»? Fazia afirmações polémicas (ou só provocadoras: «A boa cozinha defeca-se.»), gostava de travar polémicas, de polemicar.

[Post 4447]

Cores

Mais luz

      «É real o risco de os vibrantes girassóis de Van Gogh, e de os seus lírios intensos na paisagem de Arles, perderem o brilho de amarelo eléctrico que ele lhes imprimiu. Isso é uma preocupação para os curadores dos museus que albergam as obras do pintor oitocentista, o que levou um grupo deles a promover uma investigação sobre o problema. O resultado mostra que os ultravioletas na luz do sol, ao alterarem o crómio que entra na composição do pigmento amarelo usado por aquele pintor, são os culpados do que está a acontecer» («Amarelos de Van Gogh estão a perder o brilho», Filomena Naves, Diário de Notícias, 15.02.2011, p. 35).
      Há ali uma figura de estilo, naqueles «vibrantes girassóis». Vibrante será a cor. E, de feito, mais à frente, lê-se «amarelo vibrante». E é amarelo-eléctrico, claro. E luz do Sol.

[Post 4446]

«Flash-mob»

Está mal

      «A data será passada em festa, com música, bancas de batatas fritas e flash-mob. A ideia é protestar contra o excesso de nacionalismo e contra os oito meses de mediações falhadas» («Revolta das batatas fritas contesta políticos belgas», Luís Naves, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 28).
      Como já uma vez explicaram, neste mesmo jornal, o anglicismo, os jornalistas sentem-se desobrigados de repetir. «São», escreveram, «aglomerações instantâneas de pessoas que combinaram previamente (geralmente por e-mail ou SMS) uma acção inesperada num local público.»

[Post 4445]

Sobre «epistolário»

É impressão

      Outra vez o documentário Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um Geógrafo. Luís Raposo, director do Museu Nacional de Arqueologia (MNA), disse no seu depoimento: «Posso dizer que Leite de Vasconcelos é o maior epistolário português conhecido. […] São milhares de correspondentes e mais de duas dezenas de milhares de cartas e cartões, etc.» Há-de parecer lapso, mas não é. Além de compilação, colecção de epístolas, epistolário também significa epistológrafo. Se quisermos apoucar o feito, dizemos epistoleiro.

[Post 4444]

Ortografia: «softebol»

Então não

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «softball» ⇒ e remete para «softbol». Ora, se football deu futebol, softball dará softebol, ou não? Se há um e epentético num vocábulo, terá de haver no outro.

[Post 4443]

Como se escreve nos jornais

Mexerufada

      «A receita da Coca-Cola foi ontem revelada por um programa de rádio norte-americano e nela podemos encontrar ingredientes que, curiosamente, poderiam fazer parte de qualquer prato da culinária nacional. Além destes, o sabor (até agora) secreto, chamado de “7X”, leva óleos de laranja, limão e noz moscada, além do óleo de néroli, produzido a partir das flores de laranjeira Bergamota» («O segredo da ‘Coca-Cola’ vazou na Internet», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 18).
      No artigo diz-se que John Pemberton foi o inventor da Coca-Cola, uma «bebida alcoólica intelectual e medicinal». (Há-de ser isto.) Na coluna da esquerda, lemos que Pemberton nasceu na Geórgia; na coluna da direita, lê-se duas vezes Jórgia. E mais: John Pemberton «sobreviveu à Guerra Civil Americana com uma adição à morfina». Quanto a «néroli»: é o nome comercial do óleo extraído de flores de laranjeira. Nem todos os dicionários acolhem o vocábulo.

[Post 4442]

Léxico: «quebrança»

Compare-se

      Continua o mesmo Paulo Fernando a falar: «Era meio-dia. Tinham acabado de mudar o turno. Uma tripulação foi substituída por outra ali no cais da praia da Laje. Depois seguiram no bote para a zona da Pedra. Eu tinha ido tomar um café quando de repente vi a embarcação na quebrança das ondas e a ser levado. O barco tinha-se virado» («Morre no mesmo mar onde procurava jovens», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 15).
      Quebrança, na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «ruído das ondas ao quebrarem-se nos rochedos». Hum... Para o Dicionário Houaiss, é o «choque de ondas contra rochedos».

[Post 4441]

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