Como se escreve nos jornais

E a cabeça?

      «“Os assaltantes foram interrompidos pelos membros do público e fugiram da área sem levar nada. Um deles foi detido pelos transeuntes. Outros três foram detidos pela polícia pouco depois”, explicou o porta-voz da polícia de Northamptonshire» («Idosa que travou assalto recusa papel de heroína», Susana Salvador, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 24).
      «Membros do público»! Francamente. Era melhor nem ter traduzido: «A spokesman for Northampton Police said: 'The offenders were disturbed by members of the public and fled the area without taking anything.'»

[Post 4426]



Fato branco da PJ

Também pode ser

      «Com forte sotaque russo, vestida com um fato branco usado pela PJ em cenários de crime, a mulher que ficou sem roupa e sem documentos no incêndio dá uma passa no cigarro e continua a explicação» («“Estava meio a dormir a ver um filme e a vela deve ter caído”», Luís Fontes, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 20).
      Já aqui vimos: são os fatos de tyvek ou fatos de protecção descartáveis.

[Post 4425]

«Antigo sogro»

Mas é assim

      «O tribunal tinha estabelecido que as visitas de Cláudio Rio Mendes — o advogado que terá sido abatido pelo antigo sogro — à filha fossem feitas na presença de apenas um familiar do lado materno que inspirasse confiança à filha e, de preferência, que não tivesse relações conflituosas com ele, apurou o DN junto de fonte judicial» («Tribunal temia que visita a filha acabasse mal», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 19).
      «Abatido» traz-me de imediato à mente reses e magarefes, mas é assim que os jornalistas escrevem. Agora o «antigo sogro» («engenheiro-agrónomo», como se lê na legenda de uma fotografia e seguindo a absurda grafia do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Júlio Almeida não sabe, é claro, mas a afinidade não cessa pela dissolução do casamento (art. 1585.º do Código Civil). Uma vez sogro, sogro toda a vida.

[Post 4424]

«A exemplo de»

Ad cautelam

      «Nas palavras do líder parlamentar comunista, uma moção de censura ao Governo não se destinaria a produzir uma mera substituição do Executivo. Serviria, isso sim — ao exemplo da moção de censura apresentada pelo PCP em 2010 —, para contestar a política económica do Governo e afirmar a alternativa corporizada pelo partido censurante» («A fisga e o míssil», Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 6).
      Pode ser gralha, e aqui não se cuida de tais insignificâncias. Contudo, quem sabe? Tanto mais que, tratando-se do editorial do jornal, devia ter havido mais cuidado. A locução correcta é a exemplo de. Vai um exemplo antigo: «Ela foi a primeira que a exemplo de seu Divino esposo introduziu nas salas de Palácio a humildade piedosa do Lava-pés» (Sermões, padre Manuel dos Reis. Coimbra: Oficina da Universidade, 1724, p. 471).

[Post 4423]

Tradução: «Sunday School»

Rendo-me

      Berta Mendes também traduziu Sunday School por «escola dominical», e não por «catequese»: «Tom conseguiu riscar o aparador e estava a arranjar processo de fazer o mesmo à secretária, quando o chamaram para se vestir e ir à escola dominical» (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain. Tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 41).

[Post 4422]

Tradução

Nem raça

      «She went to the open door and stood in it and looked out among the tomato vines and ‘jimpson’ weeds that constituted the garden. No Tom.» Sim, uma frase de As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Vejam agora como Berta Mendes (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 14) traduziu aquele simples «no»: «Dirigiu-se à porta, que estava aberta, e aí ficou a olhar por entre os tomateiros e as ervas do jardim. Nem raça de Tom.» Gostam? «Nem raça de Tom.» Isto é, nem rasto, nem sinal.
      Ah, e não há pretos na tradução, só um pretinho (small colored boy), o Jim. Há, isso sim, negros.

[Post 4421]

«Descrição/discrição»

Regresso ao básico

      «A confirmar-se, optaram por deixar cair o apelido Bardem, optando pelo segundo apelido do actor, cujo nome completo é Javier Ángel Encinas Bardem. Mantiveram, contudo, a tradição espanhola, de o último apelido ser o da mãe. […] A escolha da clínica [Cedars-Sinai] não foi feita ao acaso, já que é conhecida pela sua descrição, evitando que as informações mais íntimas cheguem às mãos da comunicação social» («Leo é o nome do filho de Penélope Cruz e Bardem», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 53).
      «Optaram optando»? Hum... E quando é que entra na cabeça dos jornalistas que têm de recorrer aos dicionários, já que, pelo visto, não atinam com a diferença entre «descrição» e «discrição»? E a pontuação também precisa de ser revista.

[Post 4420]


Como se escreve nos jornais

Decida-se

      «A equipa, que foi coordenada por Alexandra Houssaye, do Museu de História Natural de Paris, contou também com a colaboração de investigadores do sincrotrão europeu, o European Sychrotron Radiation Facility, instalado em Grenoble, onde as imagens de raios X foram realizadas, e do Karlsruhe Institute of Technology, na Alemanha, onde as imagens foram estudadas» («Cobras primitivas tinham pernas», Filomena Naves, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 31).
      Antecipei-me em meses, peço desculpa: eu já tinha dito à minha filha que dantes as cobras tinham pernas. (Espero que não me escorracem da comunidade científica.) Agora aquela equipa veio demonstrá-lo. Bem, mas isso agora não interessa. Parece-me que a jornalista se enganou: Alexandra Houssaye é do National Museum of Natural History. Ah, não é essa a regra, escrever tudo em inglês? Não? Sendo assim, melhor se diria que a outra instituição era o Instituto de Tecnologia de Karlsruhe. Ou, então, tudo nas respectivas línguas: Muséum National dHistoire Naturelle e Karlsruher Institut für Technologie.

[Post 4419]

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