Léxico: «espartaquista»

Menos escravo

      «As palavras ‘revolta’ e ‘revolução’ têm sido usadas indistintamente para descrever o que se está a passar em alguns países árabes. Deve-se a um grande germanista e mitólogo italiano, Furi Jesi, ter definido com precisão, num livro sobre Rosa Luxemburgo e o movimento spartakista, o campo de referência de cada uma dessas palavras» («Sobre a diferença entre revolta e revolução, no momento em que as duas palavras encontram atualização», António Guerreiro, «Atual»/Expresso, 5.02.2011, p. 33).
      Se o nome faz alusão a Espártaco, então será o movimento espartaquista, ou não? Tal como ao movimento não chamaremos, armados em Alemães, Spartakusbund, mas Liga Espartaquista. Ou temos aqui outro Archilochos?

[Post 4409]


«Evocar/invocar», de novo

Sem formação?

      «Os tradutores estão sujeitos a normas estabelecidas nos códigos penais, prestam juramento, não podem faltar quando convocados, a não ser que evoquem motivos atendíveis. Isto é: não dominar suficientemente o Português ou não ter condições para o fazer, como, por exemplo, um outro trabalho que os impeça de prestar aquele serviço» («Tradutores e intérpretes sem receber desde Setembro», Clara Vasconcelos, Jornal de Notícias, 7.02.2011, p. 8).
      Cá está a confusão entre evocar e invocar. Os tradutores e intérpretes jurídicos, sei agora, ainda não têm uma associação, mas no próximo mês, com a criação da Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes Jurídicos (APIJUR), isso vai mudar. Acrescenta a jornalista: «Ninguém sabe quantos existem. Eles são nomeados pelos tribunais e recrutados através de empresas que os indicam ou mesmo através de “candidaturas” que enviam para os tribunais. Não precisam de qualquer tipo de formação.»

[Post 4408]

Sobre «profiler», de novo

É triste

      «“O que queres ser?” É daquelas clássicas de conversa com miúdos. Perguntamos mal percebemos que são capazes de entender a pergunta. Sabemos que vai sair qualquer coisa como bombeiro, polícia, cowboy, astronauta, condutor de automóveis ou tratador de animais, cientista ou veterinário, conforme a brincadeira que estiver no auge ou a série na berra (OK: isto se calhar era dantes, agora é mais top model, cantor, estilista, actor de novelas ou profiler)» («Ser o quê», Fernanda Câncio, Notícias Magazine, 6.02.2011, p. 24).
      Deve ser triste ter uma profissão para a qual só há designação inglesa. Não me conformo com profiler, mas eis que estou agora precisamente com uma obra, e o vocábulo campeia por ali. Perfilista?, pergunto de novo.

[Post 4407]

Sobre «destabilizar»

Não faz falta


      «A frustração de estar rodeado de crianças que não tinham os mesmos interesses, a ouvir matérias que já conhecia, aborrecia-o e levava-o a destabilizar a aula, por estar aborrecido de ali estar» («Há mais de 60 mil crianças e jovens sobredotados em Portugal», Raquel Tereso, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 18).
      Em rigor, não precisamos de destabilizar nem de desestabilizar, e quem use conscienciosamente a língua decerto que o sabe.

[Post 4406]

Como se escreve nos jornais

É chinês


      A Liga dos Chineses em Portugal (LCP) apoiou, lembram-se de o ter dito aqui?, Cavaco Silva. Pois agora, numa notícia sobre o agiota chinês que sequestrou uma mulher, lia-se isto na edição de ontem do Diário de Notícias: «Mas o presidente da Associação China Única, Y Pong Chow, desmentiu ao DN a existência de máfias chinesas a operar em Portugal» («Chinês já estava referenciado por agiotagem há 15 anos», Joaquim Gomes, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 23). Não apenas o nome da associação não está certo, mas, pior ainda, o nome do próprio presidente da associação, e aparece três vezes no artigo. E era facílimo comprovar estes dados. Se isto não é escrever com os pés, o que é?

[Post 4405]

Sobre «overdose»

Ainda não


      «Um grupo de 13 pessoas pertencentes ao grupo 10:23 Portugal juntou-se ontem nos jardins do Príncipe Real, em Lisboa, para tomarem em simultâneo uma overdose de medicamentos homeopáticos (produtos feitos à base de plantas)» («‘Overdose’ de medicamentos sem efeitos registados», Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 27).
      Eu até pensava que no Diário de Notícias não se usava o anglicismo «overdose». Quanto aos dicionários, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas «sobredosagem» e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa só regista «sobredose».

[Post 4404]

Como se escreve nos jornais

Parecido, sem dúvida


      «Mas nas lojas frequentadas por turistas, um frasco pode custar até três vezes mais do que isso, conta o jornalista Andrew Buncombe na recente reportagem que publicou no Independent. A juntar a isso, algumas organizações não governamentais e cooperações começaram também a ajudar a publicitar este mel recolhido em condições de tamanho risco» («O mel mais perigoso do mundo», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 30).
      Talvez seja melhor perguntarmos ao jornalista inglês o que são «cooperações». Andrew Buncombe responde: «One recent positive development has been the promotion of the region’s honey by NGOs and co-operatives that have woken up to the marketing potential of a natural product collected under such testing conditions. While the collectors get just 45 rupees (60p) for a kilo from the government, in the shops that sell to tourists, a large jar can sell for more than three times that sum.» Cooperativas. Obrigado.

[Post 4403]

Como se escreve nos jornais

Inacreditável... ou quase


      «No entanto, os seus hábitos [do arminho] esquivos e a falta de estudos aprofundados sobre este animal não permitem haver dados concretos sobre sua densidade populacional em solo nacional, mas estimando-se, apesar de tudo, que não exista um grande número de exemplares no estado selvagem» («O sobrevivente da cobiça real e exterminador natural», José Pedro Gomes, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 42).
      Há quem escreva quase tão mal — mas não é jornalista.

[Post 4402]

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