O prefixo «re-» no AOLP

Ah, estou a perceber


      «Foi já no Governo que Maria João Seixas o re-encontrou, acedendo ao convite para ser sua assistente» («O mais civil dos militares de Abril», Paulo Chitas, Visão, 13.01.2011, p. 43).
      Como já aqui escrevi uma vez, salvo para afirmar, na Base II, n.º 2, b), que o h inicial é suprimido quando, por via de composição, passa a interior e o elemento em que figura se aglutina ao precedente (reabilitar, reaver), nunca o Acordo Ortográfico de 1990 refere o prefixo re-, mas nem mesmo a omissão deixou a salvo a regra que tradicionalmente se observa. Parece que confiaram tudo ao corrector ortográfico Flip 7, da Priberam, que interpretou erradamente a Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 («Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação»). Concretamente, a origem do erro está na interpretação da alínea b), n.º 1, daquela base: «Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno
      Os redactores do acordo foram imprudentes ao não referirem as excepções. «Um caso», comentou aqui o leitor Franco e Silva, «é aquele que muito bem comenta, o do prefixo re- quando se segue palavra iniciada com e, em que o bom senso e a antiquíssima e estabilizada tradição vocabular justifica a fusão dos elementos (como em reeditar e reeleger, etc.). Outro caso é o do prefixo sub- quando se segue um elemento vocabular iniciado por r ou b (sub-reptício, sub-roda, sub-base, sub-bibliotecário, etc.) em que o bom senso, a cimentada tradição vocabular e até a orientação de pronunciação justificam a sua manutenção. Causa estranheza que conceituados linguistas aceitem a segunda excepção, mas não a primeira, a contrario do VOLP (ALB), que na nossa opinião muito bem, pontificaram como distracções as lamentáveis omissões da comissão luso-brasileira do A.O. e hifenizaram tais palavras.»
      E agora uma experiência: pego na frase da Visão e analiso-a no conversor ortográfico da Porto Editora, gratuito. Resultado: «17 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Muito bem, então agora modifico a frase: «Foi já no Governo que Maria João Seixas o reencontrou, acedendo ao convite para ser sua assistente.» Resultado: «17 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Poderá haver análises mais científicas, com recurso a algoritmos e não sei que mais, mas eu estou satisfeito.

[Post 4372]

«Maltrato»?

Que dizem?


      Leio aqui: «São várias as teorias que procuram explicar o maltrato e o abuso.» Como sucede com outros vocábulos, a dúvida avoluma-se-nos na mente: castelhanismo ou derivado regressivo? Acción y efecto de maltratar. O Aulete Digital (verbete novo...) regista que é derivado de maltratar. Não é muito usado entre nós.

[Post 4371]

Tradução

Inglesamentos evolutivos


      Outra personagem aguardou os amigos defronte do «Hollywood Teatro» — Hollywood Theatre no original inglês. Vasco Botelho de Amaral iria persignar-se. Ouçamo-lo: «Mas fiquemos nisto: bar, como aportuguesamento do inglês bar, explica-se por evolução. Pergunto agora: “Victória Bar”, “Cristal Bar”, “Concha Bar”, e maravilhas assim explicam-se também por evolução? Respondam os “evolucionistas”, porque eu acho melhor não responder. Considero suficiente a comparação destas denominações com a construção que algum maníaco se lembrasse de aplicar, generalizando o inglesamento. Passaríamos a ter um Recreios Coliseu, uma Geral Abastecimentos Intendência, um Nacional S. Carlos Teatro, uma Municipal Lisboa Câmara, um Gil Vicente Liceu, e, por fim, evolutivamente, um Rilhafoles Hospital» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 15).

[Post 4370]

Uso do gerúndio

Maior vernaculidade


      Tratava-se de traduzir a seguinte frase em francês: «Le chrétien croit à un Dieu possédant toutes les perfections.» Respondeu Augusto Moreno na obra Lições de Linguagem, vol. 1 (Porto: Editora Educação Nacional, 1937, pp. 94-95): «É que o nosso gerúndio não traduz bem, em regra, o particípio presente francês. O nosso gerúndio nunca deve ser meramente qualificativo: tem sempre alguma coisa de circunstancial. O possédant devia traduzi-lo por uma oração relativa. Assim: “Crê o cristão num só Deus, que possue todas as perfeições.” Repare também em que o verbo antes do sujeito, ao contrário do estilo francês, é característico da melhor vernaculidade. Quando a clareza e harmonia se não oponham à inversão, é claro.»

[Post 4369]

Léxico: «bearnês»

Esqueceram-se


      Aqui a nossa personagem quer contratar uma preceptora para a filha. Numa agência, falou com uma bearnesa mal-humorada. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só há bernesas. Para o Dicionário Houaiss, bearnês é o indivíduo natural ou habitante do Béarn, em França. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa também ignora o vocábulo.

[Post 4368]

«Chamar à colação»

Mal colado


      O caso do dia: fecho das escolas de ensino particular e cooperativo (mas sustentadas em parte, soube-se agora, com muito dinheiro do erário público). No noticiário da 1 da tarde na Antena 1, passou um excerto do programa Antena Aberta. Perguntou António Jorge ao secretário de Estado da Educação, João Trocado da Mata: «Pondera a possibilidade de abrir inquéritos e de tentar perceber de que forma é que elas [as escolas] podem ser penalizadas, chamadas à colação pelo facto de não estarem a cumprir os objectivos e estarem a cumprir o contrato que têm com o Estado?»
      O que é que o jornalista julgará que significa tal expressão? Bem, há duas expressões semelhantes, só varia o verbo: trazer à colação e vir à colação. A primeira significa citar, referir a propósito; a segunda significa vir a propósito. Usou-a, pois, a despropósito. «Chama-se propriedade», lembrou Vasco Botelho de Amaral nas Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa (Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 26), «aquela virtude que nos leva a escolher a melhor palavra capaz de traduzir com exactidão algum conceito.»

[Post 4367]

Léxico: «aquaplano»

A todos os neógamos


      A palavra do dia da Priberam é neógamo! Que ou quem casou recentemente=recém-casado. Gamos, estão a ver?, aqueles mamíferos simpáticos com galhos achatados nas pontas... Presta-se a piadas infames. Não vim aqui para isso, mas para isto: na obra dos rapazes que transportam as clavas, uma jovem esbelta está a praticar esqui aquático. Antes, porém, «ela lançou-se para a água e nadou até ao aquaplano». É impressão minha ou os dicionaristas modernos também se esqueceram deste vocábulo? E ele anda por aí.

[Post 4366]

Léxico: «clava»

A sério?


      Ao anglicismo «caddies», leio aqui esta nota de rodapé numa obra que não posso identificar: «No golfe, os rapazes que transportam as clavas.» Os meus leitores conheciam esta acepção do termo «clava»? O omnipresente Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o que todos registarão: pau curto terminado em pêra; moca; maça. Na Botânica, é o órgão intumescido na extremidade livre. (Ainda ninguém se lembrou de pôr os cádis, jovens ou velhos, a fazer este trabalho.)

[Post 4365]

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