Tradução

Inglesamentos evolutivos


      Outra personagem aguardou os amigos defronte do «Hollywood Teatro» — Hollywood Theatre no original inglês. Vasco Botelho de Amaral iria persignar-se. Ouçamo-lo: «Mas fiquemos nisto: bar, como aportuguesamento do inglês bar, explica-se por evolução. Pergunto agora: “Victória Bar”, “Cristal Bar”, “Concha Bar”, e maravilhas assim explicam-se também por evolução? Respondam os “evolucionistas”, porque eu acho melhor não responder. Considero suficiente a comparação destas denominações com a construção que algum maníaco se lembrasse de aplicar, generalizando o inglesamento. Passaríamos a ter um Recreios Coliseu, uma Geral Abastecimentos Intendência, um Nacional S. Carlos Teatro, uma Municipal Lisboa Câmara, um Gil Vicente Liceu, e, por fim, evolutivamente, um Rilhafoles Hospital» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 15).

[Post 4370]

Uso do gerúndio

Maior vernaculidade


      Tratava-se de traduzir a seguinte frase em francês: «Le chrétien croit à un Dieu possédant toutes les perfections.» Respondeu Augusto Moreno na obra Lições de Linguagem, vol. 1 (Porto: Editora Educação Nacional, 1937, pp. 94-95): «É que o nosso gerúndio não traduz bem, em regra, o particípio presente francês. O nosso gerúndio nunca deve ser meramente qualificativo: tem sempre alguma coisa de circunstancial. O possédant devia traduzi-lo por uma oração relativa. Assim: “Crê o cristão num só Deus, que possue todas as perfeições.” Repare também em que o verbo antes do sujeito, ao contrário do estilo francês, é característico da melhor vernaculidade. Quando a clareza e harmonia se não oponham à inversão, é claro.»

[Post 4369]

Léxico: «bearnês»

Esqueceram-se


      Aqui a nossa personagem quer contratar uma preceptora para a filha. Numa agência, falou com uma bearnesa mal-humorada. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só há bernesas. Para o Dicionário Houaiss, bearnês é o indivíduo natural ou habitante do Béarn, em França. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa também ignora o vocábulo.

[Post 4368]

«Chamar à colação»

Mal colado


      O caso do dia: fecho das escolas de ensino particular e cooperativo (mas sustentadas em parte, soube-se agora, com muito dinheiro do erário público). No noticiário da 1 da tarde na Antena 1, passou um excerto do programa Antena Aberta. Perguntou António Jorge ao secretário de Estado da Educação, João Trocado da Mata: «Pondera a possibilidade de abrir inquéritos e de tentar perceber de que forma é que elas [as escolas] podem ser penalizadas, chamadas à colação pelo facto de não estarem a cumprir os objectivos e estarem a cumprir o contrato que têm com o Estado?»
      O que é que o jornalista julgará que significa tal expressão? Bem, há duas expressões semelhantes, só varia o verbo: trazer à colação e vir à colação. A primeira significa citar, referir a propósito; a segunda significa vir a propósito. Usou-a, pois, a despropósito. «Chama-se propriedade», lembrou Vasco Botelho de Amaral nas Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa (Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 26), «aquela virtude que nos leva a escolher a melhor palavra capaz de traduzir com exactidão algum conceito.»

[Post 4367]

Léxico: «aquaplano»

A todos os neógamos


      A palavra do dia da Priberam é neógamo! Que ou quem casou recentemente=recém-casado. Gamos, estão a ver?, aqueles mamíferos simpáticos com galhos achatados nas pontas... Presta-se a piadas infames. Não vim aqui para isso, mas para isto: na obra dos rapazes que transportam as clavas, uma jovem esbelta está a praticar esqui aquático. Antes, porém, «ela lançou-se para a água e nadou até ao aquaplano». É impressão minha ou os dicionaristas modernos também se esqueceram deste vocábulo? E ele anda por aí.

[Post 4366]

Léxico: «clava»

A sério?


      Ao anglicismo «caddies», leio aqui esta nota de rodapé numa obra que não posso identificar: «No golfe, os rapazes que transportam as clavas.» Os meus leitores conheciam esta acepção do termo «clava»? O omnipresente Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o que todos registarão: pau curto terminado em pêra; moca; maça. Na Botânica, é o órgão intumescido na extremidade livre. (Ainda ninguém se lembrou de pôr os cádis, jovens ou velhos, a fazer este trabalho.)

[Post 4365]

Léxico: «ciganidade»

Essa é boa!


      «Os ciganos não têm individualmente uma marca genética ou biológica distintiva, concluiu um estudo português publicado numa revista científica internacional, que descobriu que as populações ciganas europeias têm origem no Noroeste do subcontinente indiano. […] “Não há nenhum gene de ciganidade. As comunidades ciganas, como a portuguesa, não são compostas por indivíduos que tenham uma ‘marca’ genética ou biológica distintiva”, explicou à agência Lusa António Amorim, coordenador do estudo do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular (IPATIMUP)» («Ciganos não têm marca genética distintiva», Diário de Notícias, 26.01.2011, p. 27).
      Não percebo: para quê o itálico? (Sim, é verdade, teria sido melhor as aspas.) Se escrevem «portugalidade» sem aspas, qual a lógica? Até essa invencionice da «lusofonia» anda por aí à solta sem o açaimo das aspas. Sempre discriminados...

[Post 4364]

Léxico: «medina»

Desalinhado


      «Leila Trabelsi, antiga cabeleireira, filha de um vendedor de fruta e legumes, tinha crescido num dos mais pobres bairros da medina de Tunes» («Mulher do ex-Presidente liderava “cleptofamília”», Maria João Guimarães, Público, 20.01.2011, p. 9).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em linha lá continua a ignorar que a palavra «medina» existe.

[Post 4363]

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