Léxico: «dendrocronologia»

Pergunto


      «Os estudos de dendrocronologia (como se chama a ciência do estudo dos anéis de crescimento das árvores) têm permitido compreender melhor o clima do passado, e muitos arqueólogos começaram a relacionar as conclusões destes estudos com períodos históricos concretos, procurando nas fontes documentais provas ainda mais concretas dos efeitos do clima. Com água e nutrientes abundantes, os anéis das árvores tendem a crescer mais, o que não acontece nas fases secas ou frias» («Variações climáticas explicam fim de Roma», Diário de Notícias, 16.01.2011, p. 39).
      A dendrocronologia é a ciência, como se lê no artigo, ou a mera «determinação da idade que se baseia na contagem dos círculos dos troncos das árvores», como lemos, por exemplo, no Dicionário Houaiss?

[Post 4356]

Como se escreve nos jornais

Das osgas


      «As histórias repetem-se e não são exclusivas de Portugal. Não falta quem garanta que ficou careca a partir do dia em que uma osga esteve na sua cabeça; e quem afirme ter ficado cheio de dores no corpo por ter comido por um utensílio de cozinha onde uma osga caiu acidentalmente. Há ainda relatos mais dramáticos que dão conta da morte de indivíduos envenenados por esta espécie. O curioso é que os especialistas encontraram versões iguais em outros países, onde predomina a cultura árabe, como o Paquistão e o Egipto, levando a admitir que as crenças sejam um legado cultural. O próprio nome aponta nesse sentido. É que osga em árabe pronuncia-se wazaghah» («Herança árabe até no nome», Roberto Dores, Diário de Notícias, 16.01.2011, p. 45).
      «Osga em árabe pronuncia-se wazaghah»? Na peça principal, fala-se de uma campanha da Universidade de Évora para salvar as osgas, coordenada pelo biólogo Luís Ceríaco. Foi a uma comunicação deste académico que o jornalista foi copiar mal a informação. Cito o que interessa ao caso: «To strengthen this idea, one of the Arabic expressions for geckos is Bors or Wazaghah (Lane 1863), being the latter a word phonetically similar to the common Portuguese word of gecko “Osga”. Thus, we can assume that the folklore about the gecko, as its own common name, in Portugal, is most likely another cultural inheritance from Arabic origin.» No resumo desta comunicação, lêem-se estas pérolas: «Esta história, tal como a de que a urina de osga em alimentos matou alguém, são contadas desde o Norte de Portugal até ao Paquistão. Sendo a expressão árabe para osga extremamente semelhante à portuguesa (Wazaghah = Osga), e sabendo que em países que não tiveram sobre domínio árabe, este medos não existem, é provável que estas ideias sobre as osgas, sejam um vestígio da cultura islâmica em Portugal.»

[Post 4355]

Acordo Ortográfico

Notícias do meu país


      Lembram-se da minha recomendação de levarmos os nossos filhos para Badajoz? Reitero-a com igual razão. Ontem vi outra — repito: outra — professora de Português (não posso dizer onde, só que é uma espécie de laboratório) a escrever «hábito» sem h, pois meteu na cabeça que é o que a a), n.º 2, da Base II do Acordo Ortográfico de 1990 estipula. Este país poucos conhecem. Não queria estar na pele dos infelizes dos alunos...

[Post 4354]

Regência do verbo «atender»

Vejamos


      «Atendendo o desinteresse dos jornais portugueses pela ebulição de um país do Magrebe, adianto sugestões para que satisfaçam os desejos da plebe e, ao mesmo tempo, encaixem uma notícia sobre a Tunísia. Título: “Filha de Djaló e Luciana Abreu não se chama Bizerta”; texto: “O bebé do ano, a filha do sportinguista e da ex-Floribella não vai chamar-se Bizerta, nome de cidade da Tunísia. Por coincidência, o presidente da Tunísia acaba de fugir do país...”» («Sugestões para fugir à distracção», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 16.01.2011, p. 72).
      Parafraseando, «levando em conta o desinteresse dos jornais portugueses, etc.». Qual a regência do verbo atender neste sentido? No Ciberdúvidas, Edite Prada afirma isto: «O verbo atender pode ser transitivo oblíquo, sendo seguido da preposição a  atender a com sentido de considerar, levar em conta, prestar apoio, etc., ou pode ser transitivo directo, no sentido de acolher, receber, etc.» Não é o que concluo da leitura de Francisco Fernandes (Dicionário de Verbos e Regimes. São Paulo: Editora Globo, 36.ª ed., 1989, pp. 106-7). Montexto, pode dizer-nos o que registam a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e Mário Barreto nos Fatos da Língua Portuguesa, esses tesouros inexauríveis?

[Post 4353]

Ortografia: «cor de ferrugem»

Perdulários


      «Um vasto manto de lama, cor-de-ferrugem, engolia casas, árvores, caros» («Tupã: o supercomputador para prevenir tragédias», Vanessa Rodrigues, Diário de Notícias, 24.01.2011, p. 41).
      Poupe os hífenes, senhora jornalista, podem vir a fazer-lhe falta noutra ocasião. Já noutros textos foquei esta questão.

[Post 4352]

Sobre «pdf/pdfs»

Vai ter imitadores


      «O formato da Amazon é simples e leve, pelo que quarenta livros ocupam tanto espaço como um livro em pdf. A grande vantagem deste novo Kindle sobre o anterior é ser fácil carregá-lo de pdfs e lê-los com maior nitidez do que outros leitores de e-books. O meu velho BeBook, lamento dizer, morreu de vez. Bem feito» («Aleluia, Kindle», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.01.2011, p. 35).
       Assim, pdfs, toda grafada em minúsculas, disfarça muito bem o s... Mas trata-se de uma sigla, e as siglas são habitualmente escritas em maiúsculas e sem marca de plural.

[Post 4351]

Linguagem

Boicote original


      Mário Rui Cardoso, no noticiário das 11, na Antena 1, depois de ter ouvido um entrevistado: «Joaquim Ventura, presidente da Junta de Freguesia de Granho, Salvaterra de Magos, uma localidade onde decorre um apelo à abstenção, tal como em Gralheira, concelho de Cinfães, onde a mesa de voto abriu, mas com um boi e uma vaca à porta, o boi e a cote, e o protesto é pela falta de rede de telemóvel.» Talvez nem todos os ouvintes tenham percebido a piada.

[Post 4350]

«Ex-números um»?

Noves fora


      «O nível de ténis exibido ontem na sua estreia no Open da Austrália foi bom, mas faltou qualquer coisa à ex-número um mundial para dar uma alegria aos inúmeros fãs que tem naquela região do globo» («Ex-números um expatriadas do Open», Pedro Keul, Público, 19.01.2011, p. 31).
      Um leitor é que me comunicou a estranheza, e fiquei a pensar. «Ex-números um»? Dizemos mesmo «números um»? Ou diremos antes «números uns»? Não pluralizamos os números?

[Post 4349]

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