«À diferença de»?

Também reclamamos


      «Numa 6.ª-feira dia 13, a Ensitel passou três vezes debaixo de escadas, partiu dois espelhos e cruzou-se com um gato preto, pelo que não pode queixar-se de azar por ter tropeçado numa cliente habituada a fazer valer os seus direitos (à diferença da maioria dos portugueses que se queixam muito mas reclamam pouco), e que, ainda por cima, coordena a comunidade de blogues do Sapo e é mais célebre e influente nas redes sociais do que a batata frita» («O misterioso caso do ‘Nokia E71’ às escuras», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 13.01.2011, p. 9).
      ¿Qué tenemos aquí? Posso estar enganado, mas em Portugal nunca ouvi a expressão. Em Espanha, sim: a diferencia de. Locução prepositiva para «denotar la discrepancia que hay entre dos cosas semejantes, o comparadas entre sí». Lá por usarmos «à semelhança de» não quer dizer que possamos usar «à diferença de».

[Post 4321]

Calibre das armas

Não disparem mais


      «A arma é uma pistola de alarme transformada numa 6.35 milímetros, que tinha sido adquirida, já adaptada, a um colega por 200 euros. O propósito da aquisição, segundo o próprio, “não estaria relacionado com uma intenção de a poder utilizar, apenas porque gosta de armas”. Ao jovem foram ainda apreendidos dois cadernos, que trazia numa mochila, com desenhos e referências a composições de mistura de substâncias químicas, assim como a informação onde poderiam ser adquiridas, para a fabricação de explosivos» («Bom aluno a Química com arma e manual de bombas», Célia Domingues, Diário de Notícias, 13.01.2011, p. 18).
      Erro muito comum, este de usar o ponto em vez da vírgula a separar a parte inteira da parte decimal de um número. Não, é 6,35 mm que se deve escrever.

[Post 4320]

«Estadio»?

Isso não


      Hoje foi a vez de o candidato Defensor Moura ser entrevistado na Antena 1 por Maria Flor Pedroso. Nada de especialmente grave, excepto o que a deformação profissional impõe: pronunciou «estadio» em vez de «estádio». De resto, é o candidato com o discurso mais articulado, sem ter, todavia, o estro altissonante de outros.

[Post 4319]

Acordo ortográfico

Além-fronteiras


      Sentem-se, a notícia é tristíssima. Ainda ontem vi uma professora de Português (!) escrever, «segundo o Acordo Ortográfico de 1990», «adatando-nos», «por analogia» com «adoptar» na nova grafia... Claro que também escreveu «interajudar-mo-nos», o que diminui consideravelmente a imputabilidade. E as novas regras ortográficas, recordo, terão de ser aplicadas nas escolas a partir de Setembro. Ainda estamos a tempo de levar os nossos filhos para Badajoz.

[Post 4318]

Redacção

Complicando


      «A dobradiça de uma das portas do armário tinha sido quebrada durante a busca e ela pendia agora torta nos gonzos» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 83).
      Claro que sempre podemos complicar a frase com mais sinónimos: «A dobradiça de uma das portas do armário tinha sido quebrada durante a busca e ela pendia agora torta nos gonzos. As portas, que tinham quatro bisagras, ficariam agora definitivamente desiguais, pois já não se fabricavam borboletas daquelas. A fábrica de charneiras, onde tinha trabalhado um tio, fechara há muito. “Que porra!”, pensou Samir. “Agora vou ter de fazer eu um engonço novo na oficina do meu primo. Se a miúda vê que a chumaceira está partida, estou tramado.” Lembrou-se então que tinha alguns gínglimos na arrecadação, e foi para lá que se dirigiu. Procurou na caixa e não encontrou nenhuma macha-fêmea que se assemelhasse, ainda que vagamente. “No baú!” Encontrou um mancal que não destoava muito. Grato, deu um beijo sonoro no quício.»

[Post 4317]

Confusões

Confusões antigas


      Mandado e mandato: «Os mandatos de prisão foram levantados e ambos foram postos em liberdade» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 83). Toga e beca: «Os juízes vestiram as suas togas na sala de deliberações, um dos jurados atrasou-se alguns minutos e o guarda teve de ser substituído, depois de se queixar de dores de dentes» (idem, ibidem, p. 59).

[Post 4316]

Tradução

Por Zeus!


      «Karim pensou na frase do filho de escrava Archilochos, que se tornara para ele um leitmotiv: “Muito entende a raposa; o ouriço, pelo contrário, apenas sabe uma coisa» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 65).
      Não há, creio, duas interpretações: isto é falta de cultura geral. Por pouco, ficava em grego: Ἀρχίλοχος. Francamente. Então não se trata do poeta grego Arquíloco, que renovou a poesia ao introduzir o verso jâmbico (ou iâmbico, se quiserem)? E o nome até mereceu uma nota de rodapé, mas, ainda assim, não se fez luz.

[Post 4315]

Revisão

Vamos longe


      «A suite tinha 35 m2 e estava decorada em tons quentes de castanho» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 85). «A história desse cativeiro que decorreu por 3096 dias foi revelada pela própria em Setembro do ano passado, numas memórias que acabam de ser traduzidas para português, um livro em que conta quase tudo o que viveu para sobreviver à prisão num cubículo de 5 de uma cave e à subnutrição em que era mantida para evitar a sua fuga» («A intimidade dos 3096 dias negros de Natascha Kampusch», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 12.01.2011, p. 46).
      É deprimente ver (e os 13,95 euros que o livro custou ajudam a catalisar o processo) como até nos jornais, por vezes, se tem mais cuidado com a escrita. Serão estas questões a que actualmente só os leitores da área de ciências são sensíveis?

[Post 4314]

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