Sobre «sob»

Sob pena de


      Ainda não ficou tudo dito sobre o doido das distopias: «O atirador identificou-se como Jared Lee Loughner, de 22 anos, está sob interrogatório» («Ataque a congressista acende debate sobre o ódio na política», Dulce Furtado, Público, 10.01.2011, p. 10).
      «Sob interrogatório»... Leiam o que João de Araújo Correia escreveu sobre esta preposição na obra A Língua Portuguesa: «Sabe-se, nesta enfermaria, que o celebérrimo sob, não obstante o instinto popular, que o sacode, não deixa de ser preposição portuguesa. Veio do Latim, sem passar pelo estômago do povo, mas, veio… Veio porque seria precisa esta preposição. Tanto, que bons escritores a empregaram. Mas, honra lhes seja, não abusaram dela. Foram, no seu manejo, tão cautelosos como elegantes. Quase se pode dizer que limitaram o sob à expressão abstracta, em frases como as seguintes: sob reserva, sob caução, sob custódia. Fora dessas frases, que se tornaram fixas, e à parte a discreta liberdade de algum estilista, o uso do sob é arriscado. Não abusemos dele, sob pena de o tornarmos ridículo» (Lisboa: Editorial Verbo, p. 75).

[Post 4305]

Ortografia: «mau-estar»

Uma jornalista...

      «O clima de mau-estar intensificou-se e “eles estiveram a discutir durante a madrugada de sexta-feira”» («Corpo do cronista já pode ser levantado pela família», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 10.01.2011, p. 50).
      Um dia ainda será norma, ou já é — porque «os falantes têm sempre razão».

[Post 4304]

Léxico: «distopia»

Não queria estar lá


      «Tentara alistar-se no Exército, em 2008, mas não foi aceite. E entre os seus livros favoritos, listados no YouTube, Loughner indicava as distopias políticas O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e as fantasias Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho» («Atirador revelava há meses sinais de alienação e desequilíbrio», Dulce Furtado, Público, 10.01.2011, p. 10).
      Do inglês dystopia. Entre outros, o Dicionário Houaiss regista-o: «lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia».

[Post 4303]

Léxico: «azul-ceroso»

Procuro sócio


      «A baga de cor azul-ceroso, aromática e medicinal, é conhecida pela sua riqueza em diversas vitaminas e tida como o fruto que contém mais antioxidantes, prevenindo os sinais de envelhecimento» («Mirtilo impulsiona ‘cluster’ português dos pequenos frutos», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 10.01.2011, p. 32).
      Azul-ceroso. Um pouco estranho, mas está certo, porque ceroso (ou céreo) também é o que tem a cor da cera e não apenas, como nos ocorrerá mais rapidamente, o que é de cera, feito de cera. O pior é o «cluster». Francamente... «Quarenta mil euros a fundo perdido, mais ajudas em 50 % para encargos com compra de plantas, preparação de terrenos (mínimo de um hectare), sistemas de regas, máquinas ou mesmo abertura de poços»... Aceito sócio (mas só se jurar não dizer «mirtilho»).

[Post 4302]

Pronúncia: «tóxico»

Cs... cs... cs... cs...


      Manuel Alegre, sempre poeta e durante mais de três décadas deputado, está a ser entrevistado na Antena 1 por Maria Flor Pedroso e acaba de usar a palavra «tóxico» — pronunciando «tóchico». Vai perder mais alguns votos...

[Post 4301]

«Sucedido/acontecido»

A propósito


      É impressão minha ou o substantivo acontecido (o que aconteceu; ocorrência; acontecimento) é muito menos usado do que sucedido? Lembrei-me agora ao ler a tradução desta frase inglesa: «Even those who did speak of it did so with great difficulty.» Será por desconhecimento? Uma questão de gosto?

[Post 4300]

Anglicismo

A língua também foi vítima


      Um dos Capitães de Abril, Vítor Alves, morreu hoje †. Demos a palavra a Jorge Correia, da Antena 1: «Vítor Alves foi um dos coordenadores dos textos políticos escritos antes do 25 de Abril e que deram suporte à Revolução de 1974.»

[Post 4299]

Aonde/onde/donde

Por onde vais?


      A distinção onde/aonde/donde (deixo adonde de fora) pertence apenas à norma culta da língua e tem poucos anos. E, com tantos amadores, nem todos os revisores, como já aqui vimos mais de uma vez, a fazem respeitar, como seria aconselhável. Aonde quase desapareceu. Quanto a donde, os ignorantes, julgando-o incorrecto, desfazem-lhe sempre a contracção e ficam a preposição e o advérbio em evidência (no Brasil, porém, prefere-se a locução). Até tenho dúvidas de que os professores de Português usem e ensinem afoitamente as três formas do advérbio. Nos clássicos, também não se observava a referida distinção, donde a língua evoluiu. D. Francisco Manuel de Melo, na Carta de Guia de Casados: «Não se vê o bom alfaiate donde há muito pano, nem o bom cocheiro nas ruas largas.» Nesta obra, por exemplo, há 39 ocorrências de «donde», 4 de «onde» e nenhuma de «aonde».

[Post 4298]

Arquivo do blogue