Gentílicos

Pelo menos isso


      Será incongruente escrever «junta militar birmanesa» quando no título escrevemos, por exemplo, «A resistente de Myanmar»? Tanto como continuarmos a usar o gentílico «cingalês» referido ao Sri Lanka. O gentílico Myanmense ainda não pegou (graças a Deus!) por cá.

[Post 4273]

«Far West/Faroeste»

Não sei quantos % português


      «“Isto parece o Far West, é um assalto à mão armada. Na prática, é mais um imposto, sem que a lei o permita e com efeitos retroactivos”, afirmou Marques Mendes, no seu comentário semanal a Paulo Magalhães» («Horas extraordinárias em atraso de 2010 vão sofrer os cortes salariais previstos para 2011», Público, Leonete Botelho, 24.12.2010).
     Será que Luís Marques Mendes disse mesmo «Far West»? (Ou terá sido «Firewest»? Estou a brincar.) Hum... Se disse, não o devia ter feito, porque temos o aportuguesamento Faroeste, usado há muito tempo. «Em Os Tigres de Mompracem, o malaio amava e era amado por uma loura de olhos azuis — é bom ler estas obviedades quando se é garoto. Salgari passou a vida a mentir, dizendo que conhecia o mundo que contava — as suas aventuras passearam-se pelos mares do Bornéu, Caraíbas e Faroeste americano, quando, se ele mareou, foi só em barcos de cabotagem pelo Adriático» («Os riscos de ler Sandokan», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 60).

[Post 4272]

Abreviaturas

Onde fica o ponto


      «Não é um rapaz do meu tempo mas é do meu tempo de rapaz: Emilio Salgari, o pai de Sandokan. Neste 2011 vai voltar a falar-se de Salgari, a sua morte faz cem anos. Eu li-o nas velhas edições da João Romano Torres & Cª., as capas desenhadas com o pirata malaio» («Os riscos de ler Sandokan», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 60).
      Pode não ser o caso, mas muitos falantes não sabem que, nas abreviaturas, o ponto de abreviação fica antes da letra (ou letras) superescrita: Ant.º, art.º, at.º, C.ª, n.º, sr.ª, Rev.º, etc. Nem é raro ver obras revistas em que este aspecto foi completamente descurado.

[Post 4271]

Formas verbais

Fonemas epentéticos

      Fiz uma pequena sondagem sobre o presente do conjuntivo dos verbos «crer» e «ler». Se se lembram, um leitor, Montexto, lançou aqui a provocação: «Guiai-vos também por conjugadores de verbos internéticos: todos os que encontrei juram a pés juntos e mui contestes que a 1.ª pessoa do plural do presente do conjuntivo de verbos ler e crer é leiamos e creiamos. Lindo serviço! Podem assoar-se à parede.» Fui o único a responder desafiando-o a dizer que obras recentes acolhiam as formas verbais «leamos» e «creamos». Não é muito assisado, a meu ver, atribuirmos tudo à ignorância: quer queiramos quer não (e, renitentes, muitas vezes não queremos), a língua evolui. A sondagem, pois. O revisor antibrasileiro foi o único a puxar da gramática de José Maria Relvas (anda sempre com ela na pasta, como um electricista andará sempre munido de um busca-pólos) e a mostrar-me, ufano: «leamos». Uma excepção. Esta gramática é das que não acolhem, como as que foram publicadas mais tarde, as alternâncias das formas de imperativo da 2.ª pessoa do singular diz/dize, faz/faze, traz/traz, etc., mas apenas dize, faze, traze, etc. As mais recentes só registam as formas diz, faz, traz. Tudo ignorância?
      A intercalação de fonemas não etimológicos no interior de vocábulos, por acomodação articulatória, eufonia, analogia ou por outras razões, não é nada de novo, nem na nossa língua nem noutras.

[Post 4270]

Plurais duplos

Convém lembrar


      «O primeiro recenseamento geral da população portuguesa feito segundo as regras internacionais foi em 1864 — ano em que nasceu o DN — e contou cerca de quatro milhões de almas. Mas antes já se tinham realizado várias contagens — dos “róis de besteiros” de Afonso III ao “numeramento de Pina Manique”» (Trinta mil pessoas na rua vão custar mais de 50 milhões», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 12).
      «Rol» é um bom termo, mas aposto que muitos falantes duvidam quando precisam de o pluralizar. Se conhecerem o étimo (do latim médio rollus, mas através do francês rôle), a dúvida até se pode avolumar. E, depois, o plural de aval, cal, fel, gel e mel, por exemplo, não pode ser também avales, cales, feles, geles e meles?
      Quanto ao vocábulo numeramento, desapareceu de quase todos os dicionários.

[Post 4269]

Tradução: «core»

Rotten to the core


      É verdade que os dicionários bilingues deviam ser melhores, mas nada deve substituir o discernimento do tradutor. O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora só regista para core âmago, medula, parte central. No que respeita à botânica, refere-se apenas a frutos: coração, caroço. Pois é, e onde está a parte central do lenho do caule das árvores, a mais rija e mais escura, também designada durame ou durâmen? Esqueceram-se, e por isso os tradutores mais apressados vertem de uma forma óbvia: optam pela primeira acepção: âmago. À parte central do lenho do caule das árvores dá-se o nome de cerne. O Dicionário Michaelis Inglês-Português não se esquece: «cerne, durame (de madeira).»

[Post 4268]

Linguagem

!


      Reparem: «Elton John e o marido foram pais de um rapaz». Eu queria dizer qualquer coisa inteligente, mas só me acodem à mente vernaculidades aliviadoras. Não, atenção, contra Elton John e David Furnish. Que sejam muito felizes. Que dizer, porém, dos jornalistas, assim a cavalgarem a onda? Não brinquem.

[Post 4267]

Tradução: «shock cocoon»

?


      Rastenburgo, 20 de Julho de 1944. Hitler está com o seu estado-maior no Wolffsschanze, o Covil do Lobo. Também lá está o coronel Claus von Stauffenberg, que entrou com uma bomba numa pasta, que conseguiu pôr a meio metro de Hitler. A bomba detonou, todo o mobiliário ficou destruído, os aros das portas, até mesmo o tecto, tudo foi pelos ares. Das vinte e quatro pessoas que se encontravam na sala, metade sofreram danos permanentes quase fatais ou morreram (como sucedeu a quatro generais e ao contra-almirante Karl-Jesco von Puttkamer). Ninguém sofreu menos ferimentos do que Hitler, que escapou com uns arranhões. Entre Hitler e a bomba estava algo que lhe salvou a vida: a pesada perna de uma mesa, «created the shock cocoon». A pergunta é: como dizemos isto em português? «Casulo de choque»?

[Post 4266]

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