Fonemas epentéticos
Fiz uma pequena sondagem sobre o presente do conjuntivo dos verbos «crer» e «ler». Se se lembram, um leitor, Montexto, lançou aqui a provocação: «Guiai-vos também por conjugadores de verbos internéticos: todos os que encontrei juram a pés juntos e mui contestes que a 1.ª pessoa do plural do presente do conjuntivo de verbos ler e crer é leiamos e creiamos. Lindo serviço! Podem assoar-se à parede.» Fui o único a responder desafiando-o a dizer que obras recentes acolhiam as formas verbais «leamos» e «creamos». Não é muito assisado, a meu ver, atribuirmos tudo à ignorância: quer queiramos quer não (e, renitentes, muitas vezes não queremos), a língua evolui. A sondagem, pois. O revisor antibrasileiro foi o único a puxar da gramática de José Maria Relvas (anda sempre com ela na pasta, como um electricista andará sempre munido de um busca-pólos) e a mostrar-me, ufano: «leamos». Uma excepção. Esta gramática é das que não acolhem, como as que foram publicadas mais tarde, as alternâncias das formas de imperativo da 2.ª pessoa do singular diz/dize, faz/faze, traz/traz, etc., mas apenas dize, faze, traze, etc. As mais recentes só registam as formas diz, faz, traz. Tudo ignorância?
A intercalação de fonemas não etimológicos no interior de vocábulos, por acomodação articulatória, eufonia, analogia ou por outras razões, não é nada de novo, nem na nossa língua nem noutras.
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