Selecção vocabular

Para nada

      «O Partido Comunista Cubano terá em Abril um novo congresso (os conclaves deviam ser de 5 em 5 anos, mas não se realiza um desde 1997) destinado a preparar Cuba para a próxima geração e uma nova fase política. A documentação de medidas de modernização económica mostra que o regime de Raúl Castro deve optar por um modelo de empresas públicas com dimensão e autonomia, em paralelo a um sector privado de microempresas» («Regime cubano perdoa última condenação à morte», Luís Naves, Diário de Notícias, 30.12.2010, p. 25).
      Se bem que alguns dicionários acolham a acepção, em sentido figurado, de reunião para se discutir algo, a acepção que logo nos acode à mente é a de reunião do colégio dos cardeais, com o fim de elegerem um novo papa. Acresce que, no artigo do Diário de Notícias, o vocábulo não é sequer necessário.
[Post 4257]

«Mandado/mandato»

Não entra

      «— Convinha ter um mandato de busca — pensou Bastokovitch, em voz alta. — Consegue-me arranjar uma coisa dessas?» (Profundo como o Mar, Jacquelyn Mitchard. Tradução de Mário Caeiro e Andrea Noronha de Andrade. 6.ª ed. Barcarena: Editorial Presença, 2002, p. 297).
      Bastokovitch, seu imbecil, não devias ter falado em voz alta. Não arranjo porque isso não existe. Serve um mandado de busca? («Não sem alguma razão», já antevejo alguém objectar, «como aliás todas as confusões e erros, sempre defensáveis durante pelo menos os tais cinco minutos de que falava Cândido de Figueiredo.»)
[Post 4256]

Léxico: «vô/vó»

Malcriado

      Um avô tenta explicar ao neto uma palavra que acabou de usar: «tenoots», calão irlandês para «tomates» — ou (tomem lá o tabuísmo para não virem depois com merdas que não percebem) «colhões». (Dois tabuísmos: é só para exemplificar, não se ofendam.) O velhote safou-se bem: «— Nada — disse o ‘Vô Angelo. — Têm coraggio, têm coragem. Tentam pôr as coisas em ordem» (Profundo como o Mar, Jacquelyn Mitchard. Tradução de Mário Caeiro e Andrea Noronha de Andrade. 6.ª ed. Barcarena: Editorial Presença, 2002, p. 202). Vamos ao que interessa: porquê ‘Vô e ‘Vó? «Vô» e «vó», regista o Dicionário Houaiss e eu concordo, são vocábulos informais, aferéticos, o apóstrofo é ali luxo desnecessário.

[Post 4255]

«Boa noite», saudação

Dorme bem, Leo

      «— Boa-noite, Leo — disse a minha mãe» (O Primeiro Verão das Nossas Vidas, Pat Conroy. Tradução de Natália Fortunato. Lisboa: Porto Editora, 2010, p. 107).
      Pensava que esta monomania do hífen já tinha passado em relação às saudações. Estas nunca levam hífen. Como substantivo, sim. Eis um exemplo: «— Deixa-me dar-te as boas-noites, Leo — disse a minha mãe.»
[Post 4254]

Sobre «liga»

Sejam bem-vindos

      Na edição de hoje do Diário de Notícias, podia ler-se que o candidato presidencial do PCP não gostou nada do apoio dos chineses que vivem em Portugal ao candidato Cavaco Silva («Lopes contra apoio chinês a actual PR», p. 12). Fiquei a saber que foi Y Ping Chow, da Liga dos Chineses em Portugal (LCP), quem anunciou o apoio. Achei curiosa esta designação de liga. Sim, está certo, liga é qualquer sociedade ou associação com qualquer objectivo. Ultimamente, só temos notícia da italiana Liga Norte, mas nós já tivemos a Liga Patriótica do Norte, também uma associação de cidadãos que nasceu como resposta ao Ultimato inglês de 1890. E também temos a Liga dos Combatentes.

[Post 4253]

«Tratar-se de», novamente

Do editor

      A propósito de apóstrofo: hoje mostraram-me a «Nota do Editor» ao livro Uma Dor Silenciosa, de Francisco Guerra (Lisboa: Livros d’Hoje, 2010. Revisão de Lídia Freitas). Eis um excerto da página 7: «Tratam-se de nomes dos presumíveis abusadores e de algumas das pessoas envolvidas na falada rede pedófila.» Ainda um dia será norma... Mais um excertozinho, tenham paciência: «Este livro traz-nos uma versão dos acontecimentos que levaram à origem do processo “Casa Pia”. Uma versão relatada por Francisco Guerra, considerado pela Polícia Judiciária e pelo Ministério Público, uma das principais testemunhas do processo» (idem, ibidem).
[Post 4252]

«Biofilme», de novo

Nada muda

      «Essas pinturas vivas acabam por ser uma enorme surpresa. Como escrevem os autores no seu artigo, os “biofilmes [estas camadas de microorganismos] são conhecidos por contribuir para a deterioração de outras pinturas em rochas, na Austrália, como acontece nos petroglifos da península de Burrup, na região ocidental”. Mas, sublinha ainda a equipa, o que se passa aqui “é exactamente o contrário”. Ou seja, são esses microorganismos que protegem e, nalguns casos, constituem a própria essência da cor» («Pinturas milenares estão ‘vivas’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 30.12.2010, p. 32).
      Já aqui vimos que seria melhor adoptar o vocábulo biopelícula. «Petroglifo» nunca antes tinha visto, mas sim petróglifo. Sim, é verdade que, em contrapartida, tanto se escreve hieróglifo como hieroglifo.

[Post 4251]

Cacofonia

Ouçam-se

      Os revisores também têm de estar atentos às cacofonias. (Mesmo os revisores de publicações periódicas, apesar de hoje em dia isso ter menos importância, pois os jornais já não são lidos em voz alta, como há um século. «Por volta de 1900, por exemplo», escreve David S. Landes na obra A Riqueza e a Pobreza das Nações [Lisboa: Gradiva, 2001], «apenas três por cento da população da Grã-Bretanha era analfabeta, o número para a Itália era 48 por cento, para Espanha 56 por cento, e para Portugal 78 por cento.» Segundo o Censo de 2001, na viragem do século ainda havia 10 % de analfabetos em Portugal.) Têm de se ouvir a ler. Ninguém, neste aspecto, supera o revisor antibrasileiro, atentíssimo. Nenhum «que agora», acredito, alguma vez lhe escapou. «Uma biblioteca inteira de livros a arder caía violentamente ao longo do deserto de cem metros que agora separava o abrigo da escola.» Eu sou mais sensível aos ecos e à prolixidade. É só cortar!
[Post 4250]

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