Anglicismo

Será que os meus pais, etc.

      «O espírito natalício do Boxing Day parece ter servido de inspiração para as equipas de Manchester, que ontem averbaram preciosos triunfos, isolando-se nos dois lugares cimeiros da tabela da Liga inglesa. Na tradicional jornada disputada no dia a seguir ao Natal, os red devils receberam o Sunderland com uma vitória por 2-0» («Rivais de Manchester celebram Boxing Day com triunfos», P. P., Diário de Notícias, 27.12.2010, p. 36).
      P. P., como a Quercus, também nos julga Ingleses. Recomenda-se o exame Vieira: «Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?»
[Post 4241]

Léxico: «borne de carregamento»

Proponham

      «Um cartão pré-pago é tudo quanto vai ser necessário para carregar os veículos eléctricos na cidade de Viseu, que já começou a receber, para espanto dos mais distraídos, os postes de carregamento. No próximo trimestre, depois de decidido o valor das tarifas, o sistema estará pronto a carregar veículos eléctricos. O borne, colocado mesmo no Rossio, deixou estupefacto Manuel Leitão, que questionou a “utilidade de mais um semáforo”. Afinal, explicou depois de se ter inteirado da utilidade do novo equipamento urbano, “serve para carregar carros eléctricos”. A instalação dos bornes de carregamentos de carros eléctricos começou na semana de Natal e “no próximo trimestre entram em funcionamento”, explicou o vice-presidente da autarquia. “Estão prontos, mas falta definir o tarifário”, adiantou Américo Nunes» («Viseu já instalou pontos de carregamento para eléctricos», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 27.12.2010, p. 32).
      Tem de ter nome — mas será este o melhor? Está lançado o concurso de ideias.

[Post 4240]

Ortografia: «beneficência»

Previsível


      Quando ontem ouvi a notícia na Antena 1 (e, nesta, ora diziam ter sido num prédio, ora numa moradia), palpitou-me logo que os jornais de hoje não escapariam ao erro. Ei-lo: «Um incêndio destruiu, ontem de manhã, o telhado de uma residência na rua da Beneficiência, na zona do Rego, em Lisboa, e provocou seis desalojados. “O fogo começou na chaminé do segundo andar. Ainda tentámos apagá-lo com extintores, mas já estava demasiado grande”, explicou ao CM o proprietário, Duarte Ferreira» («Fogo desaloja seis», Helder Almeida, Correio da Manhã, 27.12.2010, p. 11).
      Não é gralha, pois ocorre duas vezes. É barbarismo mais originado pela ignorância do que pela distracção. Amantes da ciência, acham que é só juntar benefi a ciência. Pois não é. É, isso sim, imperdoável que os revisores o deixem passar.

[Post 4239]

Organização e género

A mesma conclusão


      O Wikileaks? A Wikileaks? Já tinha pensado nisto. Leiam o que Fernanda Câncio escreveu sobre a questão no Diário de Notícias: «A semana passada mencionei a palavra Wikileaks. Usei o feminino — pensava numa organização, numa fonte — mas quem reviu o texto alterou o género para masculino, presumo que para denominar o site. Ora o sucedido não só demonstra como se formata o discurso (e portanto a percepção) sem se admitir que, como é o caso, não sabemos bem do que estamos a falar, como está longe de ser um detalhe. Quando consideramos que Wikileaks é um site, assumimos que se trata de uma espécie de plataforma de recepção de conteúdos, um lugar sem, digamos, espessura; falar de Wikileaks como organização é designar uma estrutura, um conjunto de pessoas com história, hierarquia, perspectiva, propósitos e financiamento — que importa identificar e escrutinar. Do nosso entendimento do que é isso de Wikileaks depende pois, em português, o “sexo” que lhe conferimos» («O sexo dos wikileaks», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 24.12.2010, p. 7).

[Post 4238]

Léxico: «empolgação»

Bem-vindo


      «Uma fã de Usher atingiu o cantor com um sapato, quando subiu ao palco, durante um concerto que este deu em Nova Iorque. A empolgação foi tanta que a rapariga quis passar a perna pela cabeça do cantor e acabou por lhe acertar na cara» («Fã dá pontapé na cara de Usher», Jornal de Notícias, 17.12.2010, p. 37).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo, acolhe apenas empolgamento e empolgadura. Outros, mais antigos, registam somente este último. É bom haver variedade. Empolgação não vê muitas vezes a luz do dia.

[Post 4237]

«Despoletar/espoletar»

Evitar mal


      Sinal de inteligência é, creio, saber evitar questões polémicas e estéreis. Uma delas, que tem feito perder muito tempo, é sobre se se deve dizer despoletar ou espoletar. Ora vejam um excerto do editorial do Público da edição de sexta-feira: «A descida do rating da República foi a espoleta que desencadeou os três programas de estabilidade e crescimento e esteve na origem do orçamento mais austero e exigente das últimas décadas em Portugal» («Um círculo vicioso difícil de quebrar», 24.12.2010, p. 36). Salvo melhor opinião — aqui não me eximo a entrar na polémica —, esta é uma formulação com o seu quê de estulta. A «espoleta que desencadeou»!

[Post 4236]

Símbolo químico

Só se mudou


      Aprendi que no símbolo químico do dióxido de carbono se usa o 2 subscrito, o que serve para representar que cada molécula contém dois átomos de oxigénio somados a um átomo de carbono — CO2. Ora, o dióxido de carbono é, sem qualquer dúvida, o gás de que mais se fala na imprensa. No Público, não me lembro de o ter visto alguma vez subscrito. «Por um lado evita-se o pesado consumo de CO2 resultante da queima das rolhas e, por outro, incrementa-se a sua produção, já que por cada mil rolhas recolhidas a Quercus planta mais uma árvore no âmbito do seu projecto Criar Bosques» («Guarde a rolha do que beber no Natal e Ano Novo», José Augusto Moreira, Público, 24.12.2010, p. 11). No Diário de Notícias, passa-se o oposto: «Acreditou-se que a crise económica baixaria os níveis de emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal gás com efeito de estufa, mas afinal não será assim» («Emissões de CO2 estão outra vez a subir», Diário de Notícias, 23.11.2010, p. 34).
      (Uma palavra de repúdio pela designação, Green Cork, que a Quercus deu a esta campanha de recolha de rolhas. Então querem as nossas rolhas e tratam-nos como se fôssemos Ingleses? Está mal.)

[Post 4235]

«Aparte/à parte»

É pôr de parte


      «Ainda assim, não podendo falar de consensos absolutamente consensuais (aparte Kanye West), assinalamos concentrações estéticas» («Melhores do ano. Música», Mário Lopes, «Ípsilon»/Público, 24.12.2010, p. 3).
      Erros assim comezinhos são os mais comuns. Só é, ou devia ser, incomum ser um jornalista a dá-lo. À parte é uma locução adverbial e significa excepto, sem falar em, em particular, de lado, isoladamente. Aparte é um substantivo e significa o que um actor diz simulando falar consigo; frase isolada para interromper alguém; observação marginal em discurso.

[Post 4234]

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