Topónimos

Dá mesmo


      Dá ver ler o Diário de Notícias e ver como grafam topónimos estrangeiros com uma feição portuguesa. Podem errar, e de facto erram, e muitos outros aspectos, mas neste são quase exemplares: «Natural de Mineápolis, antes de estudar representação na Universidade do Minesota, Peter Graves esteve no exército americano, em 1944 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial» («O rosto e a lama da série ‘Missão: Impossível’», L. S., Diário de Notícias, 16.03.2010, p. 49). «O automóvel está exposto no Museu dos Transportes de Lausana, na Suíça, num evento ontem inaugurado e que decorre até amanhã» («Um dos ícones de James Bond está exposto na Suíça», Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 16). «O proprietário de um stand de automóveis de Nova Jérsia vai manter a sua palavra e oferecer ao pastor protestante Terry Jones, da Florida, um novo carro, depois deste não ter queimado o alcorão» («Pastor ganha carro por não queimar Alcorão», Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 41). «Em Marbelha, a 28 de Setembro, sete horas de cirurgia, eis o princípio do fim da fantasia e dos aspectos masculinos» («“O mundo do futebol está preparado para uma Ema?”», Paula Carmo, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 9).

[Post 4225]

«Sediado/sedeado»

Vinda do Brasil?

      «Desde 1948 que ninguém avistava uma espécie de mosca peluda muito rara, a Mormotomya hirsuta. Mas os entomologistas Robert Copeland e Ashley Kirk-Spriggs do Centro Internacional de Fisiologia de Insectos, sediado no Quénia, anunciaram ontem tê-la reencontrado nas montanhas Uzaki, desse mesmo país, a cerca de 200 quilómetros da capital, Nairobi» («Mosca mais rara do mundo redescoberta», Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 30).
      Depois de alguma estranheza inicial, no início da década, é agora seguramente variante maioritária (mas nem por isso mais correcta ou legítima), atestada nos dicionários.

[Post 4224]

De «site» a «sítio»

Estamos quase lá


      Não vejo nenhuma necessidade de usar o anglicismo «site» em vez da tradução portuguesa, «sítio», ultimamente olhado com menos desprezo. Contudo, não deixo também de ver que é raro alguém usar, na escrita ou na oralidade, o vocábulo português sem lhe pospor «da Internet».
      «O brasileiro Leonardo é o novo treinador do Inter de Milão. Leonardo substitui Rafael Benítez um dia depois de este ter rescindido contrato. O campeão europeu e de Itália anunciou hoje o nome no sítio da Internet do clube» (Luís Soares no noticiário das 7 da tarde na Antena 1).

[Post 4223]

Dequeísmo

Só o título


      «PJ suspeitou de que Evaristo fosse traficante» (Miguel Ferreira, Diário de Notícias, 23.11.2010, p. 23).
      Vê-se este erro também nos livros, mas na imprensa, pela ignorância catalisada pela pressa, é muito mais encontradiço. É até erro com nome: dequeísmo. O verbo suspeitar, à semelhança de outros, só se constrói com complemento oblíquo ou preposicionado quando encerra um grupo nominal («suspeito dos seus conhecimentos gramaticais»), mas já não é assim quando ocorre com uma completiva, como no caso acima: PJ suspeitou que Evaristo fosse traficante.

[Post 4222]

«Meia-vida»

Está na hora


      Guardou uma fotografia do marido (†) «along with a vial of constantly half-lifing Urakami dust». «Um frasquinho com pó de Urakami em constante semidesintegração»? Não, não. Já ouviu falar da meia-vida do urânio, por exemplo? E na meia-vida do carbono-14, algo de que a ficção e o cinema se têm servido ultimamente? Meia-vida é o tempo necessário, numa reacção física ou química, para que se reduza à metade da inicial a quantidade de átomos radioactivos idênticos. Vá, agora procure o blogue de um físico nuclear.

[Post 4221]

«Extras», de novo

Refeições extras

      Miguel Soares, no noticiário das 9 da noite na Antena 1, acabou de dizer que a TAP vai deixar de servir refeições nos «voos domésticos»... Bem, mas não era isso que eu pretendia dizer, mas isto: «Voos extras podem salvar consoada de portugueses» (Nuno Miguel Raposo, Jornal de Notícias, 23.12.2010, p. 51).
[Post 4220]

Sujeito indeterminado

Fica a saber


      «Assistiram-se, então, a lágrimas em muitos rostos, em gente simples que até os cachecóis levou para a missa. Os Superdragões depositaram uma coroa, numa homenagem singela a quem, pela palavra era, também, um “superdragão”» («Um adeus emocionado a Pôncio Monteiro», Manuel Luís Mendes, Jornal de Notícias, 23.12.2010, p. 60).
      Desta vez o problema não é a regência do verbo assistir, nisso está bem: é um verbo transitivo indirecto e rege a preposição a. O jornalista já deve ter ouvido falar de sujeito indeterminado, mas vagamente. Neste caso, o verbo fica na 3.ª pessoa do singular, acompanhado do pronome se. Agora o jornalista tenha cuidado e não generalize e confunda. João de Araújo Correia, na obra A Língua Portuguesa, já advertiu: «Quando o pobre se ainda se atreve a apassivar, tomam-no as bocas ineptas como sujeito da proposição. Comparam-no com o on francês. Andam por aí aos baldões fraseados tristes como os seguintes: representou-se comédias, comeu-se batatas e abraçou-se condiscípulos. Se o se é sujeito, coloque-se, como quem o honra, antes do predicado. Tente-se a experiência para se obterem os seguintes luxos: se representou comédias, se comeu batatas e se abraçou condiscípulos. O senhor se ficará parvo de todo com esta honraria. Correram-se as cortinas da tribuna real. Com esta frase começa Rebelo da Silva a descrição de uma tourada. Se fosse repórter do século XX, escreveria: foram corridas as cortinas da tribuna real. Ou então, querendo ser mais chique, tomaria o se como sujeito e escreveria: correu-se as cortinas da tribuna real. Como quem diz: o senhor se correu as cortinas.»

[Post 4219]

Verbo «colocar»

Compulsivamente


      «“Chegou a casa, seco, sem o computador e com muita fome.” Foi assim que Igor, o jovem de 14 anos de Rio de Mouro, Sintra, que se encontrava desaparecido há uma semana, colocou um ponto final no desespero dos seus pais, que até e-mails enviaram para o gabinete do primeiro-ministro, José Sócrates, solicitando ajuda» («PJ esteve em contacto com jovem desaparecido que regressou ontem», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 23.12.2010, p. 23).
      Caro Carlos Rodrigues Lima, então agora já não se diz nem se escreve «pôr um ponto final»? E aí na redacção ninguém sabia?

[Post 4218]

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