Como se escreve nos jornais

Epíteto bacoquinho


      «Actriz Sofia Nicholson, que integra o elenco principal da novela “Espírito Indomável”, em exibição na TVI, sofreu um aparatoso acidente, ontem, quando circulava na CREL, em direcção a Cascais» («Actriz Sofia Nicholson ferida em despiste na CREL», Luís Garcia, Jornal de Notícias, 13.11.2010, p. 19).
      Aparatoso acidente... «Não há grandes semanas que o meu amigo e quase conterrâneo, o grande escritor Aquilino Ribeiro, num artigo do Século, apanhou pelas orelhas o aparatoso, epíteto bacoquinho com que o escrevente vulgar e o falador vulgar qualificam desastres de automóvel. Se aparatoso quer dizer pomposo, só em desastre propositado, feito de encomenda, com despesas de enterro incluídas, coroas e flores, se admite pompas. Caso para crer que desastre aparatoso não é humilde como os de burro, mina ou andaime. É desastre de primeira classe, com a vaidade humana despendida em capotas pelo ar e outros aparatos» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 41).

[Post 4075]

Pronúncia

Gosto disto


      «Com que então, traduziu o nosso Cervantes?!», disse a criatura, como quem diz que atrevimento o seu. Apetecia-me dizer-lhe que não é nosso, sobretudo com aquele e escancaradíssimo. Lembrei-me logo de João Araújo Correia: «De tal maneira gritam por aí as nossas velhas vogais, que é força ir à Espanha e até à França quem tiver saudades das que foram brandas. Cervantes, na Espanha, ainda é o Cervantes. Cá em Portugal, agora é o Cèrvantes. E o De Gaulle, cá em Portugal, é o Dè Gaulle» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 55).

[Post 4074]

Como se escreve nos jornais

Pressa e falso conhecimento


      «Este geek invulgarmente dotado para a programação (um hacker), que aspira ao mundo selecto da Ivy-League americana, cria e monta a rede do Facebook, transforma-o numa “obra sempre inacabada”, antecipa-se supostamente a outros interessados e torna-se no fim no bilionário mais jovem do mundo» («Anti-geek», Pedro Lomba, Público, 11.11.2010, p. 40).
      Não faltam fontes onde Pedro Lomba podia ver que se escreve Ivy League sem hífen, mas tinha pressa de acabar a crónica. Merecia que, quando o Público lhe passar o cheque, lhe falte um zero.
      «Para mais, os meus anfitriões pertenciam à elite americana: a Ivy League, o Social Register, a elegante vida intelectual nova-iorquina...» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 12).

[Post 4073]

Acordo Ortográfico

Último àqueto


      Podemos estar preocupados com o possível emudecimento da língua, já grandemente estropiada, mas João de Araújo (que não tinha este acordo ortográfico à perna, é bem certo) teria outra opinião: «Propus o outro dia, numa revistinha, que se acabasse com o ditado. Para ensinar a escrever, é suficiente a cópia e a redacção. O ditado, pela maneira como dita o professor, é pai de monstros. Faz de um rapaz, que se chama Edmundo, o Èdmundo. Torna-o repulsivo. O moço, vítima da grafia, vai mais tarde ao teatro, senta-se numa cadeira, conversa com os vizinhos nos intervalos e, para lhes provar que sabe as letras todas, não esquece o c de espectáculo, nem o de acto, nem o de acção. Pelos cotovelos, saem-lhes caranguejos chamados espèquetáculo, àqueto e àqueção» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 36).

[Post 4072]

Do ferrador ao siderotécnico


Outra língua


      Há umas quantas semanas, no Portugal em Directo, na RTP 1, vi uma breve reportagem sobre um curso de ferração de cavalos na Escola Superior Agrária de Castelo Branco. Contudo, como devem imaginar, na universidade não podia entrar com este nome, mas com estoutro: Acção de Formação em Siderotecnia. Na promoção do curso, porém, viram-se obrigados a escrever num português compreensível: «Acção de Formação em Siderotecnia (Ferração de Equinos)». O formador é o ferrador, perdão, o siderotécnico Carlos Luís. Tudo isto me fez lembrar João de Araújo Correia: «[O homem hodierno] Prefere o pirotécnico ao fogueteiro e, se lhe cai um cravo à burra, não o leva ao ferrador. Leva a burra ao siderotécnico» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 45).

[Post 4071]

Etimologia: «Curaçau»

Hipóteses


      Merece ser subtraído ao esquecimento dos jornais este texto sobre a etimologia do topónimo Curaçau: «Existem várias hipóteses para explicar a origem do nome Curaçau (Curaçao, no original). E a culpa pode até ter sido dos portugueses. Uma das versões conta que um grupo de marinheiros doentes, com escorbuto, parou na ilha e aí se curou (provavelmente depois de ingerir a vitamina C dos frutos locais). Curaçau viria assim da palavra “curação”, de cura. Outra versão aponta para a hipótese de vir da palavra “coração”, por ser o centro da rota de escravos para Nova Amesterdão (actual Nova Iorque). Finalmente, pode ser o nome dos indígenas locais. Apesar de o neerlandês ser a língua falada em todas as ilhas das antigas Antilhas Holandesas, em pelo menos duas (Curaçau e Bonaire) fala-se no dia-a-dia o papiamento, uma mistura entre o português, o espanhol, línguas africanas, o neerlandês e o inglês. Diz-se que terá origem na língua dos escravos que vinham da África, havendo ainda a influência dos judeus portugueses. Estes chegaram às ilhas depois de Portugal ter reconquistado, no século XVII, parte do Brasil (Recife) aos holandeses. Os judeus teriam fugido para as ilhas temendo a perseguição dos católicos» («Vestígios de Portugal no nome e no idioma», Susana Salvador, Diário de Notícias, 17.10.2010, p. 43).
      (Eu escreveria que o papiamento é «uma mistura de português, espanhol, línguas africanas, neerlandês e inglês».)

[Post 4070]

Verbo «inaugurar»

Nem pensar


      «Inaugurou no passado dia 14 a segunda edição da Trienal de Arquitectura, que se estende até 16 de Janeiro, por diversos pontos de Lisboa — os museus Berardo, da Electricidade e do Chiado — e a Casa das Histórias de Paula Rego, em Cascais, e conta com exposições, workshops e uma conferência internacional» («Falemos de casas», Cláudia Melo, Diário de Notícias, 17.10.2010, p. 66).
      Inaugurou — quem? Querem ver que foi a Trienal de Arquitectura que se inaugurou a si mesma? Enquanto o mundo for mundo e se falar português, a Trienal de Arquitectura foi inaugurada. Esta forma de escrever foi inaugurada, e agora é seguida, por jornalistas com um deficientíssimo conhecimento da língua.

[Post 4069]

Ortografia

Estoiro ortográfico


      «No calão policial americano, chama-se “inside job” a um roubo ou crime perpetrado “de dentro”, por pessoas que trabalhavam no local onde se deu o delito. Charles Ferguson não podia ter achado um melhor título do que Inside Job para o seu documentário sobre a crise financeira global (em português: A Verdade da Crise), que se estreia hoje em Portugal, já que os responsáveis pela mesma estão situados no coração da finança internacional» («Tudo o que queria saber sobre o estoiro financeiro», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 11.11.2010, p. 45).
      Ficamos a conhecer um pouco mais — da gíria policial, caro Eurico de Barros. E agora os atropelos à ortografia: «O filme tem também os seus “heróis”, na pessoa de alguns daqueles que previram o que ia acontecer e foram ignorados, criticados ou até troçados pelos seus pares. É o caso de Raghuram Rajan, que em 2005, quando estava no FMI, escreveu um estudo sobre o meltdown financeiro que se deu em 2008, perfeitamente evitável, segundo ele (e Ferguson). O cocktail de irresponsabilidade estatal, ganância, crédito à tripa-forra, práticas anti-éticas e falta de prudência e do mais elementar bom-senso, resultou na crise que nos cerca por todos os lados. Charles Ferguson puxa pelos seus galões de especialista em política e de antigo empresário de sucesso para se defender da acusação de “anti-capitalista” que lhe chegou a ser feita por causa de A Verdade da Crise: “Não sou anti-capitalista nem anti-negócios. Sou, no entanto, contra a criminalidade em grande escala.”» (Sim, eu sei que alguns dicionários registam «à tripa-forra» e «bom-senso».)

[Post 4068]

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