«Nerd», «geek» e «jock»

Marrões, cromos e populares


      A propósito do filme A Rede Social, de David Fincher, Pedro Lomba tenta encontrar alguns termos portugueses equivalentes a outros ingleses: «Nerds, geeks e jocks. Faltam-nos palavras em português para descrever estas tribos juvenis, estas contraculturas. Lembramo-nos delas do liceu através de outras definições (os nerds eram os marrões, os geeks eram os cromos, os jocks os rapazes populares com queda para o desporto, que também arrebanhavam as mais giras da turma). A grande bipolaridade dos nossos tempos escolares separava quem fosse e não fosse popular. Os nerds tinham borbulhas e boas notas, os geeks gostavam de ficção científica e eram tecnologicamente evoluídos. Há milhentas maneiras de preencher o estereótipo. Podia ser-se ao mesmo tempo um nerd e um geek» («Anti-geek», Pedro Lomba, Público, 11.11.2010, p. 40).
      É uma tentativa de encontrar uma equivalência. Chamo a atenção dos meus leitores para a bipolaridade de «quem fosse e não fosse popular»... Estes também são «doentes psiquiátricos».

[Post 4067]

«Andar ao rabisco»

Rabisco da casta Ramisco


      «Anteontem, o Senhor Saraiva contou-nos que, quando era miúdo, há mais de 70 anos, ele e os amigos iam à cata das uvas Ramisco, de chão de areia, que as vindimas tinham esquecido. Nessa altura não havia pinheiros nem casas e as vinhas iam até à Praia Grande — havia por onde procurar. Felizes da vida, levavam os cachos abarbatados às mães. Chamavam eles a estas uvas as uvas “rabisco”: como está um gatafunho para a pintura acabada, assim está a uva Ramisco que vai fazer doce para aquela que vai fazer o vinho mais fino de Portugal, que é o Ramisco de Colares» («O rabisco», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.11.2010, p. 39).
      Escrito assim, até parece que os rapazes eram uns ignorantes relapsos. Contudo, como andar ao rabisco (ou ao rebusco, como se diz nas Beiras, por exemplo) é percorrer áreas extensas para apanhar o que ficou esquecido na colheita de uvas, de castanhas, etc., parece-me que a semelhança fonética só serve para o Sr. Saraiva gracejar e cativar os clientes cultos.

[Post 4066]

Como se escreve nos jornais

Coloque-se na rua!


      Rui Tavares queixava-se aqui ontem de que no Público não lhe revêem os textos. Melhor, mais cuidadoso: «Parece-me que os textos não são revistos, ou quando são a revisão não é feita de acordo com as novas regras». Como é que iam preocupar-se com isso se deixam passar brutezas como esta: «Oliveira Costa colocado em liberdade e BPN ainda com resultados negativos» (11.11.2010, p. 22). Bem vejo: «Lusa/PÚBLICO». A acrescentar aos disparates próprios, os jornais deixam passar os disparates que vêm da Lusa. Um dos mais comuns, ultimamente, é o vocábulo «auto-estrada» grafado segundo as novas regras ortográficas em jornais que ainda as não seguem: «A GNR tem feito várias operações de forma a dissuadir concentrações de carros alterados, cujos condutores escolhem a A2 para corridas ilegais. Mas parte dos locais de concentração são na área de competência da PSP, o “que dificulta o trabalho da GNR, que tem sob sua competência a Ponte Vasco da Gama e a autoestrada do Sul”, diz a mesma fonte da GNR» («GNR procura filme de corrida que matou condutor na A2», Sónia Simões, Diário de Notícias, 31.10.2010, p. 27).

[Post 4065]

Ensino

Preocupem-se

      «Quatro em cada dez alunos do 6.º ano não foram além de duas respostas totalmente correctas em nove no domínio do Conhecimento Explícito da Língua na prova de aferição de Português, o que fica “aquém do desejável”», noticia hoje o Público. E mais: «Segundo o relatório nacional do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério da Educação sobre a prova do 6.º ano, ontem divulgado, 42 por cento dos alunos tiveram um máximo de duas respostas totalmente certas e 10 por cento não tiveram qualquer resposta integralmente certa. “Os alunos evidenciam um bom desempenho ao nível da Compreensão da Leitura e da Expressão Escrita, mas permanecem aquém de que é desejável no que respeita ao Conhecimento Explícito da Língua”, lê-se no relatório. Desagregando os dados, 38 por cento por cento dos alunos obtiveram uma classificação correspondente a “Não Satisfaz”» («Maus resultados na prova de aferição de Português», 10.11.2010, p. 9).
      O conhecimento explícito da língua é o conhecimento reflectido e sistematizado das unidades, regras e processos gramaticais da língua (ver mais aqui). Se os alunos são maus nisto, quer dizer que detêm somente um conhecimento implícito da língua — não se distinguindo assim muito de analfabetos.

[Post 4064]

Acordo Ortográfico

A trapalhada continua


      Rui Tavares lá continua no bastião inimigo a usar como sabe e quer as novas regras ortográficas: «Se no Financial Times de anteontem vinha Portugal na capa, no de ontem vinha Angela Merkel, que dizia estar preocupada com o proteccionismo. Na fotografia, a chanceler alemã parece (como sempre) uma morsa: sonolenta mas capaz de nos triturar» («A morsa e o carpinteiro», Público, 10.11.2010, p. 44). E ainda nos lança para cima mais um «proteccionismo» e um «proteccionista». Contudo, com o novo acordo ortográfico, é «protecionismo» e «protecionista» que se escreverá.

[Post 4063]

Ortografia: «solstício»

Jogo?


      O título do artigo é «A Porta da Kasbah», e o subtítulo, que surge no índice e na página 18, é «Aquém daqueles dias do Sulstício». É da autoria do sargento-ajudante António José Rodrigues e foi publicado na última edição do Jornal do Exército (ano LI, n.º 598, Agosto/Setembro de 2010). Sim, senhor, há por aí uns poetas que também usaram esta palavra forjada, um jogo entre «Sul» e «solstício». No Algarve (neste caso, o sítio certo) há mesmo uma revista com este título. Só pode ser, pela referência temporal («aquém daqueles dias»), erro, e erro crassíssimo. E não pensem que esta publicação não tem revisão ou que é feita por um recruta semianalfabeto. Não: quase no rodapé da página do sumário, lê-se: «Revisão de texto a cargo do Professor Doutor Eurico Gomes Dias». Nem mais.

[Post 4062]

Léxico: «sancha», «rapazinho» e «seta»

Intercâmbio


      «A colheita de míscaros, de “rapazinhos” ou outros cogumelos é permitida em todo o parque mas com regras ditadas há já dois anos pelo plano de ordenamento desta área protegida estendida pelos concelhos de Bragança e Vinhais. […] O trabalho de Os Verdes, como é conhecida a equipa, tem sido sobretudo de informar e sensibilizar, até porque muitas pessoas toda a vida apanharam para consumo. E embora ainda encontrem exemplos de más práticas, há também quem já cumpra as regras como Amândio Nascimento. Em duas horas, apanhou “dois ou três quilos” de “sanchas” ou “setas”, embora não soubesse que cada pessoa só pode levar um limite de cinco quilos. O transporte foi feito numa caixa com aberturas — é proibido em baldes ou sacos plásticos que impedem a dispersão dos esporos» («Apanhar cogumelos pode dar multas de 20 mil euros», Diário de Notícias, 9.11.2010, p. 22).
      No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, se pesquisarmos o vocábulo «sancha», nada encontramos. Se consultarmos o verbete «míscaro», podemos ler: «Espécie de cogumelo comestível; sancha.» Bem, têm de resolver a lacuna. Neste mesmo dicionário, no verbete «seta», por seu lado, lemos que se trata de regionalismo trasmontano, ao passo que para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora se trata meramente de um regionalismo, sem indicar a região. Seta é o vocábulo mais genérico usado pelos Espanhóis para designar estes fungos comestíveis. O primeiro registo conhecido data do início do século XV, ainda com a grafia xeta. A partir do século XVI, passou a usar-se a grafia actual. Corominas afirma que deriva do vocábulo grego sēptá, «coisas podres», plural neutro de sēptós, «podre, infecto». Já quanto a «míscaro», que passou para o espanhol com a grafia mízcalo no século XVII e nízcalo, no início do século XIX, é de origem galaico-portuguesa, embora alguns estudiosos espanhóis prefiram ignorar e ocultar esse facto.

[Post 4061]

Tonelada equivalente de petróleo

Não é tudo o mesmo


      «As importações portuguesas de electricidade cresceram dez vezes entre 2000 e 2008, de 80 mil para 811 mil toneladas equivalentes de petróleo (TEP), segundo o site Pordata, que lança hoje o serviço estatístico para a Europa» («Importação de electricidade em alta», Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 35).
      Tanto quanto sei, trata-se de símbolo e não de abreviatura. Logo, tep e não TEP. Em certos textos escritos em português, já tenho visto (!) toe, de tonne of oil equivalent. Já algum leitor confirmará a informação.

[Post 4060]

Arquivo do blogue