Sobre «campa»

Era assim


      «Quase todas as cidades estão fundadas ao longo de rios. Nos rios que não são muito altos e impetuosos têm estas cidades para serviço pelo rio pontes de pedra mui nobres e mui bem lavradas, e não vão os pegões feitos em arcos se não depois de bem fundos e postos em boa altura. São cingidos uns com outros por cima de mui grandes e mui grossas campas» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 124). Embora, actualmente, os dicionários apenas registem que campa é a laje sepulcral e, por extensão de sentido, a própria sepultura, a verdade é que no tempo do nosso dominicano Fr. Gaspar da Cruz, no século XVI, campas eram simplesmente lajes, e, em nota, Rui Manuel Loureiro dá conta do significado.


[Post 4010]

Léxico: «acatassolado»

Cambiantes


      Quando Cervantes escreve que certa personagem, renunciando ao traje de estudante, se vestiu de «papagaio», o que é uma alusão à roupa garrida, vistosa, dos soldados na época de Cervantes, que não estavam obrigados a um modelo uniforme, estava a usar uma metáfora, que, na tradução, também podemos usar.
      No Tratado das Coisas da China, de Fr. Gaspar da Cruz, vejo uma nota de rodapé ao vocábulo acatassolado que induz em erro: «Acatassolado: de cor variada.» «E assim como a dignidade esteja nos cintos e sombreiros, os da mão direita trazem cintos de ouro e sombreiros amarelos, e os da mão esquerda trazem cintos de prata e sombreiros azuis ou acatassolados» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 180). Na verdade, diz-se acatassolado do tecido semelhante ao acatassol, que era um tecido fino e lustroso usado antigamente em Portugal, que apresentava cor variada, sim, mas conforme a luz projectada. Ou seja, furta-cor.

[Post 4009]

Selecção vocabular

Contestatários


      «Na deslocação, o Presidente da Venezuela ainda cumprimentou os protestantes, que tentavam perguntar a Sócrates se “viajou pela EN13 ou se pagou portagem na A28”. O líder português não viu a pergunta, mas Chávez viu, riu, saudou e seguiu, sem perceber muito bem o que se passava» («Como Chávez conduziu negócios em Portugal», Paulo Julião, Diário de Notícias, 25.10.2010, p. 9).
      Bem sabemos que «protestantes» são tão simplesmente os que protestam, mas a conotação imediata é com o «cristão pertencente a um dos grupos ou Igrejas que se constituíram como resultado da Reforma» (como se lê na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Em contexto diferente, evitaria a palavra.

[Post 4008]

Estado da arte

Em estado de choque


      Saber é saber, mas, comparando com o conhecimento que um doutorando deve ter do que seja estado da arte, saber-se que Goethe tinha aversão a cães, ao tabaco e a pessoas que usassem óculos é completamente irrelevante. O cronograma mostrava as sete fases por que se desenvolve, ao longo de sete trimestres, a feitura da tese de doutoramento: 1. identificação da literatura relevante e estado da arte; 2. recolha de informação; 3. elaboração e execução do estudo empírico; 4. redacção do trabalho; 5. revisão do orientador; 6. correcção do trabalho realizado; 7. redacção da tese. A doutoranda pergunta-me no 5.º trimestre: «O que é isso do estado da arte?» Como é que um doutorando não sabe (não quis saber) que ao estado do conhecimento em determinada área se dá o nome de «estado da arte» ou «estado do conhecimento»? A pesquisa, o levantamento bibliográfico desse conhecimento é mesmo a parte mais importante de todo o trabalho científico, pois como se poderá ser original se não se sabe o que outros têm feito na mesma área?

[Post 4007]

Anagrama


Biblioteca do Trinity College de Dublim

No Céu


      Vejam esta transposição anagramática a partir da palavra italiana bibliotecario: Beati coi libri. Feliz com livros. Pronto, é só isto.

[Post 4006]

Sobre «legística»

Olhe que não


      Ricardo Garcia, na Pública de hoje («Legística para todos», p. 71), debruça-se, de uma forma chocarreira, sobre o Regimento do Conselho de Ministros do XVIII Governo Constitucional, recentemente aprovado (Resolução do Conselho de Ministros n.º 77/2010) e referido na imprensa. «As normas para a redacção das leis são minuciosas. Um artigo explica, em 12 alíneas, como devem ser utilizadas as letras maiúsculas, em curiosa coincidência com o que aprendemos na escola.» Sim, mas em descoincidência com a forma como até os jornalistas escrevem. Ricardo Garcia também acha que o regimento, ao dizer que «o nível de língua a utilizar deve corresponder ao português não marcado produzido pelos falantes escolarizados, designado português padrão», se afunda «nos sombrios corredores do ininteligível». Acha mesmo? «Ao menos», escreve o jornalista, «o português ganhou uma nova palavra — legística — que não encontro em nenhum dicionário. Obrigado, srs. ministros.» Só é metade verdade: os dicionários não registam, mas a palavra não é nova.

[Post 4005]

Títulos, pós-títulos e entradas

Mais cuidado


      Merece reflexão — aos jornalistas, que os leitores sempre a fizeram — a falta de autonomia na redacção de títulos, pós-títulos e entradas das notícias. Complementares, sim, como lembra o provedor do Público, mas suficientemente autónomos para não serem disparates ridículos: «A redacção de títulos, pós-títulos e entradas das notícias obedece a regras técnicas inspiradas por valores como a relevância, a inteligibilidade, a eficácia informativa e a capacidade sugestiva. São normas que existem para garantir a qualidade das peças noticiosas. Uma que é por vezes esquecida é a que recomenda que esses elementos — que são lidos antes do próprio texto da notícia, e para alguns dispensam mesmo essa leitura — sejam complementares entre si, mas possam ser entendidos de forma autónoma. A compreensão do que se escreve numa entrada não deve depender do que se diz num título. Vêm estas considerações técnicas a propósito do comentário feito por um leitor à estranha entrada de uma notícia intitulada “Comissão Europeia quer proibir clonagem de animais” (página 13 da edição da passada quarta-feira). Essa entrada, que, na cabeça de quem a redigiu, estaria articulada com o título citado através, por exemplo, de uma subentendida conjunção adversativa, rezava assim: “A proposta de John Dalli, comissário responsável pela saúde e consumidores, prevê a autorização do consumo humano dos seus descendentes”. “Interessante”, comenta o leitor Ricardo Charters d’Azevedo, para quem “a mania de reduzir títulos, na pressão da saída do jornal, dá isto...”. Pretendia-se naturalmente explicar, como aliás decorre da notícia, que Dalli não vê inconvenientes no consumo humano da carne ou do leite dos bichos descendentes de animais clonados. Mas o que a entrada da notícia diz de facto, tal como foi publicada, é que há um comissário europeu que faz questão de ver canibalizada a sua própria e putativa prole. Uma revisão especialmente atenta às frases mais destacadas de cada página evitaria que um momento de desatenção se transformasse num contributo involuntário para uma antologia do disparate na escrita jornalística» («Humor negro involuntário», José Queirós, Público, 24.10.2010, p. 35).

[Post 4004]

Erros na BD

Desenho de Fernando Bento

Constrangedor, na verdade


      Ontem fui à 21.ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA), que se realiza no Fórum Luís de Camões, na Brandoa. Na parte do concurso, havia, no máximo, seis trabalhos mesmo bons. O mais vergonhoso — e poucos trabalhos escaparam — eram os erros ortográficos e de pontuação. Pelo menos em relação a dois trabalhos no escalão A (dos 17 aos 30 anos), o júri decidiu destacar dois trabalhos, «que, apesar da sua qualidade, não foram premiados como penalização pelos erros ortográficos», mas eu mostraria ao júri as escassíssimas excepções em todos os escalões. «Estar preparado é metade da vitória», dizia Cervantes. Ora, preparado, neste caso, é ler, e saber ler, ou, se forem inteligentes, dar a rever os textos.
      Digno de realce nesta edição é o núcleo dedicado ao ilustrador e autor de banda desenhada Fernando Bento (1910―1996), cujo traço limpo, original, ainda hoje é moderno. Por fim, é também de salientar a reportagem fotográfica, a cargo, não de um mero fotógrafo, mas de um verdadeiro artista, Hugo Lima.

[Post 4003]

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