«Tratar-se de»

Os arrasa-pátrias


      Ontem, o revisor antibrasileiro esperneou quando leu a locução «de molde a». Quase impetrou, com o olhar (potenciado, já aqui o disse, com poderosas lentes intra-oculares), o meu apoio. Disse-lhe que não via qual era o óbice ao seu uso. Passeou os olhos pelo texto e engrolou uma desculpa: dois «de molde a» quase seguidos. Querem ver que também se está a revelar antiespanhol?! «Molde» é espanhol. Quer dizer, os Espanhóis receberam-no do catalão, e estes... Bem, chega. Mais grave do que tudo isto foi a ministra da Educação, Isabel Alçada, professora e escritora, não nos esqueçamos, ter dito ontem no Parlamento: «Tratam-se de medidas que...» (Ouviu aí em Cabeceiras de Baixo, caro Telmo Bértolo? Com mais pesar que vanglória, imagino.)

[Post 3948]

Acordo Ortográfico

Há aqui estudo e erro


      «Perante isto — ou melhor, esquecendo isto —, há gente que faz da leitura da I República uma única lenga-lenga sobre como os líderes políticos portugueses da época eram defeituosos» («100 anos e um dia», Rui Tavares, Público, 6.10.2010, p. 40).
      Primeiro pensei que estaria errado; depois, lembrei-me de que Rui Tavares já segue as novas regras ortográficas. Contudo... Contudo... Escrevo «lengalenga» e activo o Acordo Ortográfico no Flip 7. Nada. «Lengalenga» fica renitentemente unido. Consulto o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora já com a grafia do Acordo Ortográfico. Nicles. Leio, mais uma vez, a parte do acordo relativa ao uso do hífen. Népia. Donde vem isto? Da nota explicativa da Academia Brasileira de Letras (ABL) sobre os procedimentos metodológicos seguidos na elaboração da 5.ª edição do VOLP. É neste documento que se pode ler: «6) Incluir no caso 1.º da Base XV o emprego do hífen nos compostos formados com elementos repetidos, com ou sem alternância vocálica ou consonântica de formas onomatopeicas, por serem de natureza nominal, sem elemento de ligação, por constituírem unidade sintagmática e semântica e por manterem acento próprio: blá-blá-blá, reco-reco, trouxe-mouxe.» Como seria de esperar, só em páginas brasileiras na Internet é possível ler algo sobre esta questão. Àquelas três palavras compostas, juntam-se muitas outras, lidas aqui e ali: zum-zum, pingue-pongue, lenga-lenga, zás-trás, tico-tico, zigue-zague. Mas blá-blá-blá, reco-reco, trouxe-mouxe, pingue-pongue, zás-trás, e tico-tico já nós assim escrevíamos. Sobra lenga-lenga, zigue-zague e zum-zum, e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora grafa-os lengalenga, ziguezague e zunzum. Já estão a ver o resto: tique-taque, fru-fru, jiga-joga (esta é consigo, caro R. A.), e muitas outras. Em conclusão: à luz da escassíssima reflexão aquém-Atlântico sobre as soluções consagradas no Acordo Ortográfico de 1990 e ao que os dicionários já publicados segundo as novas normas acolhem, Rui Tavares errou.

[Post 3947]

Revisão

Isso é empobrecer a língua


      Desrolhar. Desarrolhar. Será legítimo fazer tal emenda? Nem pensar. Tão correcto é a primeira como a segunda: são variantes. Ainda por cima, desarrolhar parece-se muito com o espanhol desarrollar. Outra coisa, claro, que desrolhar (que o Flip 7 não reconhece...) em espanhol é descorchar, pues ‘corcho’ es el tapón que se hace de corcho para las botellas, cántaros, etcétera. Sí, es un mensaje cifrado. Yo mismo desconozco su destinatario. Então agora comecei a escrever em espanhol?!

[Post 3946]

Léxico: «plastificante»

Mais inglês


      «Alberto Contador poderá ter sido apanhado devido a um novo teste antidoping, utilizado pela primeira vez no Tour 2010, que detecta um plastificante, encontrado nos sacos de sangue usado nas autotransfusões» («Novo teste revela plastificante», Diário de Notícias, 6.10.2010, p. 36).
      «Um plastificante»! Parece ser uma palavra acriticamente traduzida do inglês. Bem, inglesa é — plasticizer. No Público está tudo mais bem explicado: «Agora, este teste positivo seria um produto de plástico que aparece numa quantidade oito vezes maior que o permitido. […] Este novo despiste detecta um determinado tipo de químico, chamado plastificante, que geralmente é encontrado nos plásticos dos sacos de administração intravenosa» («Novo teste levanta suspeitas de autotransfusão e reforça tese de doping de Contador», Filipe Escobar de Lima, Público, 6.10.2010, p. 34).

[Post 3945]

«Escutar/ouvir»

Confusões


      «Quem vive nas imediações de imediato escutou o barulho do desastre. “Só ouvi um estrondo enorme. Cheguei cá fora, não me parecia nada e voltei a entrar. Depois ouço muito reboliço lá fora, fui ver e, meu Deus, fiquei sem palavras”, recorda uma vizinha» («Sobreviveu a naufrágio e morreu na estrada», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 6.10.2010, p. 16).
      A vizinha conhece melhor a língua que o jornalista. Claro que o «reboliço» é deste, pois ela terá pensado em «rebuliço». Escutar é ouvir, sim, mas não é um qualquer ouvir — é ouvir prestando atenção. E como é que a vizinha podia estar a escutar, se o acidente, por sua própria natureza, é um acontecimento casual ou inesperado?

[Post 3944]

Ortografia: «cidade velha»

Ora cá está


      «O PS de Faro classificou de “erro” e “absurdo” a intenção de Macário Correia querer criar uma “horta urbana” em terrenos da Cidade Velha onde há achados arqueológicas. Os socialistas pedem “bom senso” na preservação do património cultural» («Horta urbana provoca críticas de socialistas», Jornal de Notícias, 6.10.2010, p. 22). «Cidade Velha»... Já aqui tínhamos visto, a propósito da tradução de old town, esta questão. No Público viram a questão de outra forma: «A ideia do líder da Câmara de Faro, eleito pelo PSD, é aproveitar a chamada Horta Misericórdia, na cidade velha, e transformá-la em 12 talhões de 40 metros quadrados cada um, que depois serão entregues a 12 candidatos. […] O terreno situa-se na Horta Misericórdia, junto ao Museu Municipal, na zona velha da cidade» («Câmara de Faro quer criar 12 hortas no centro da cidade», Idálio Revez, Público, 6.10.2010, p. 27).

[Post 3943]

Ortografia: «subespecialidade»

Não entra


      «A falta de reconhecimento da maioria das sub-especialidades pediátricas é outro dos problemas da medicina dedicada às crianças em Portugal, tema que será debatido no Congresso de Pediatria que começa hoje no Funchal» («Centro de saúde com falta de pediatras», Diário de Notícias, 6.10.2010, p. 13). Uma vez que a regra não lhes entra na cabeça — só se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por b, h ou r —, podiam ter telefonado para a redacção do Público: «A falta de reconhecimento da maioria das subespecialidades pediátricas é outro dos problemas da medicina dedicada às crianças em Portugal, tema que será debatido no Congresso de pediatria que começa na quarta-feira no Funchal» («Falta pediatras nos centros de saúde, o que leva a injustiça social», Público, 6.10.2010, p. 10). Se as relações com este jornal não forem as melhores, podiam ter tentado outro: «A falta de reconhecimento da maioria das subespecialidades pediátricas é outro dos problemas da medicina dedicada às crianças, tema que estará hoje em discussão no Congresso de Pediatria, que decorre no Funchal» («Pediatras em falta nos centros de saúde», Jornal de Notícias, 6.10.2010, p. 54).

[Post 3942]

Léxico: «cadeirante»

Vem do Brasil?

      O trânsito e o estacionamento foram reordenados na Aldeia do Meco, Sesimbra. Comerciantes e moradores descontentes. O programa Portugal em Directo, da Antena 1, mandou lá a repórter Lídia Cristo. O maior motivo de queixas são os passeios: Fala Maria Adelina Costa, proprietária de um bar: «De qualquer maneira, os pilaretes que eles fizeram não servem nem como passeio, não serve para passar um carro de bebé, não dá para um cadeirante […].» Cá está um neologismo que ainda não marca presença nos jornais e revistas. Cadeirante é o termo utilizado para designar a «pessoa que, por deficiência física, ou por estar provisoriamente impossibilitada de andar, locomove-se em cadeira de rodas», na definição do Dicionário Aulete Digital, único que conheço que regista o vocábulo. Apresenta vantagens inequívocas: numa só palavra, inclui tanto deficientes como não deficientes que se locomovem em cadeira de rodas. Está bem formado (vamos esquecer que não há nenhum verbo cadeirar, porque há muitos outros nas mesmas circunstâncias) e vem preencher uma lacuna.
[Post 3941]

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